4. Diskusjon
4.2 Om autonomi tap
Ainda que qualifique muitas vezes que realiza uma história da imprensa, na nossa compreensão o que Hohlfeldt faz é história do jornalismo. Isso porque há sempre a preocupação em particularizar os processos jornalísticos envolvidos, buscando nexo entre as teorias e a história do jornalismo. Assim, historiciza para além de períodos e periódicos (incluindo seus personagens emblemáticos), os processos jornalísticos dominantes em determinados momentos. Um exemplo disso é o seu texto sobre a mitificação da categoria objetividade no jornalismo,
a partir da análise dos manuais de redação dos jornais diários e de alguns textos acadêmicos sobre práticas e processos jornalísticos (2004).
Na mesma perspectiva caminha a detalhada análise que faz dos textos, aos quais atribui uma dimensão histórica, publicados pela Revista de Comunicação (1985-1998), quando enumera conceitos e critérios de jornalismo que a revista desenvolveu em suas páginas, analisando especificamente a seção denomina- da “História da Comunicação no Brasil” (2008c). Antes, porém, baseado em fontes secundárias recupera a formação histórica dos estudos de comunicação no Brasil, privilegiando as instituições que contribuíram para a instituciona- lização do campo. Além de destacar uma história da reflexão teórica sobre a comunicação e o jornalismo no país, baseada, sobretudo, na sistematização das fases e períodos característicos e as principais escolas de influência teórica, descreve também a criação e o desaparecimento de periódicos de comunicação no Brasil, desde os anos 1960. No texto, o autor procura enumerar e detalhar esses periódicos, dividindo-os em fases que vai caracterizando, usando a lógica de identificar os primórdios e ir descrevendo do passado até chegar ao presente, momento sempre mais complexo. E, por último, tomando como base os textos publicados na Revista de Comunicação, analisa a seção “História da Comuni- cação no Brasil”, procurando mapear que veículos foram objetos de análise e sob que aspectos. Detalha conclusões sobre as ausências e interpreta as razões de se privilegiar os veículos impressos, de grande circulação ou de capital sim- bólico que os colocam no lugar de referência do jornalismo, e das regiões mais desenvolvidas do país.
Em um texto mais recente, Hohlfeldt (2012) sistematiza os critérios de his- toricidade para escrever uma história da imprensa. Ainda que procure vincular sua análise dos periódicos ao momento histórico específico, acrescentando como pano de fundo o que vai denominar “fatos históricos”, ou seja, a conjuntura que é tomada como a história de um dado período e lugar, alinha pelo menos três aspectos que remete às especificidades de se produzir uma história da imprensa. O primeiro significa privilegiar nas análises critérios que sejam “próprios à imprensa, isto é, estejam especificamente ligados à própria evolução da im- prensa e não a acontecimentos externos a ela”. Assim, o contexto, ou seja, as “relações e influências entre fatos históricos propriamente ditos, econômicos, tecnológicos culturais e a história da imprensa” só interessariam ao pesquisador “enquanto deflagradores de mudanças ou enquanto refletindo-se em novas con- quistas da imprensa” (HOHLFELDT, 2012, p. 47).
Em função disso, a periodicização dessa história (movimento para ele sem- pre fundamental) deve considerar as mudanças ocorridas especificamente com a imprensa. E exemplifica:
Não interessa, assim, em sentido estrito a independência do Brasil, mas sim, o fato de que, com isso, em 1821 e 1827, são emitidos decretos que suspendem a censura no novo país e, com isso, surgirá uma imprensa re- gional, fora do eixo do Rio de Janeiro-Bahia, que inclui, por exemplo, o Rio Grande do Sul, com a edição do Diário de Porto Alegre, já em 1827 (HOHLFELDT, 2012, p. 48).
O segundo aspecto enfatizado pelo autor é a necessidade de se proceder à interpretação das materialidades e processos jornalísticos considerando-se o mo- mento (e as especificidades) de sua produção. Aqui o que destaca é mais uma vez a questão do anacronismo quando se está diante da interpretação de produtos jornalísticos que existiram quando outras materialidades comunicacionais ainda não haviam surgido. Dessa forma, o formato do Correio Braziliense, por exemplo, que mais se assemelhava ao de um livro, era a materialidade dominante dos pe- riódicos que seguiam o modelo do publicismo inglês do século XVIII. Portanto,
Ler jornais antigos nos obriga, pois, partindo de um olhar contemporâ- neo, buscar compreender os princípios que norteiam aquelas publica- ções, não pretendendo aplicar a elas padrões e conceitos do jornalismo hoje (HOHLFELDT, 2012, p. 49).
O terceiro aspecto enfatizado pelo autor no que diz respeito às especificida- des de se produzir uma história da imprensa (ou do jornalismo) é considerar que quando estamos nos referindo ao mundo comunicacional estamos também falando, como enfatiza Robert Darnton (2005), num mundo de misturas. Ou seja, não há o término abrupto de um processo para a eclosão de outro.
Ainda que a conclusão sirva para o autor, sobretudo, propor “princípios bá- sicos para se pensar uma periodização da história da imprensa” (HOHLFEDLT, 2012, p. 53) essa questão da mistura nos modos, processos e práticas, o que produz a convivência de múltiplas tecnologias e materialidades comunicacio- nais em larguíssimos períodos de tempo, é fundamental nas análises do mundo histórico da comunicação.
Para ele, ainda que seja essencial organizar essa história a partir de períodos, é preciso que se considere na delimitação dessas fases tendências predominan- tes e não o término abrupto de características das fases anteriores. Seguindo a visão tradicional da história, há que se demarcar o início primordial e todas as fases sucessivas, caracterizadas por processos peculiares que indicam o momento inicial, mas para as quais se torna, segundo o autor, quase impossível fixar uma data final de cada período.
Isso porque “boa parte dos períodos ou tendências ou práticas, por isso mes- mo, se cruzam e são contemporâneas, sem permanecerem exclusivas”. E para exemplificar a importância da delimitação de uma história a partir da lógica temporal fechada, exemplifica com o período de 1870 a 1937, no caso da im- prensa brasileira. Para esse momento, demarca onze movimentos fundamentais nos processos jornalísticos: introdução da imprensa industrial; multiplicação de tendências e públicos; aumento das tiragens e estabilidade das publicações; prioridade dada ao leitor; crescente importância dada à informação; participa- ção dos jornais nos grandes acontecimentos da época; modificação dos forma- tos e quantidade de páginas; intervenção das autoridades sobre as publicações; crença numa espécie de poder mágico das palavras; incorporação do romance folhetim; e disseminação da imprensa, inclusive no interior (HOHLFEDLT, 2012, p. 53-55).
Ainda que date o início desse longo processo e estabeleça uma data pri- mordial para o seu término (exatamente o movimento político que passou à história com o nome de Estado Novo), reconhece, sempre, que a determinação do final de qualquer processo é antes de tudo uma interpretação aleatória. Mas reconhece também a marca primordial para esse momento: a convivência de múltiplas e diferentes práticas jornalísticas, em função de ser esse um instante de confluências histórica e cultural. E, para ele, “é desse conjunto de práticas e mudanças que nascerá a imprensa do século XX” (HOHLFEDLT, 2012, p 56).