3. RESEARCH METHOD
3.4 C OLLECTION OF DATA
Como foi visto anteriormente, a estruturação serial eletrônica pressupunha tanto a elaboração precisa de todos os parâmetros musicais – entre eles, a espacialidade sonora101 – quanto a abolição dos intérpretes, cuja limitação física e imprecisão humana impediriam a realização adequada das obras. Conforme afirma Valiquet (2010, p. 32), “[…] para que uma estrutura serial funcione, cada elemento da composição, incluindo a espacialização, deve ser integrado de forma estrutural. Simplesmente ter um papel na prática da performance não era o suficiente”102. De fato, desde Gesang der Jünglinge (1955-56) de Stockhausen – a primeira obra a ultrapassar a monofonia em solo alemão, utilizando-se de cinco grupos de alto- falantes (posteriormente reduzida para quatro grupos) –, os partidários da música eletrônica tratarão a espacialidade como um aspecto eminentemente estrutural das obras em oposição ao papel primordialmente interpretativo atribuído pela vertente
101
Segundo Eimert (1955, p. 5), “a distribuição estereofônica dos geradores sonoros é mais um elemento formal da música eletrônica. Os vários sistemas de alto-falantes em torno da sala de concerto são os 'instrumentos concertantes', Uma concepção similar da distribuição de forças orquestrais e corais em uma igreja ou sala de concerto. Essa dimensão especial é incorporada no próprio plano da composição. […] Esta projeção espacial na sala de concerto é vista como uma dimensão totalmente nova da composição.” No original: “The stereophonic distribution of sound transmitters is a further element of the form of electronic music. The various loudspeaker systems around the hall are the ‘concerting instruments’ – a conceptions similar to the distribution of orchestral and choral forces in church or concert hall. This special dimension is incorporated into the very plan of composition. […] This spatial projection into the concert hall is seen as an an entirely new dimension of the composition.” Nota-se aqui uma provável referência à espacialidade na Renascença, à qual já fizemos menção anteriormente.
102 “[…] For a serial structure to work, every element of the composition, including spatialization, was
concreta103, o que pode ser observado até hoje na forma com a qual os compositores se apropriam do espaço em suas obras.
Figura 12: O compositor Karlheinz Stockhausen no Estúdio da NWDR de Colônia (MANNING, 2004, p. 135).
É assim que, até hoje, os compositores que se auto-intitulam pós-concretos ou acusmáticos tendem a dar maior atenção à espacialidade no momento de projeção ou difusão de suas obras, compondo quase que exclusivamente obras estereofônicas104. Não que eles deixem de elaborar (em menor ou maior grau) o espaço interno da obras105, mas eles assim o fazem contando com grandes interferências por parte do intérprete durante a projeção ou difusão em concerto, sem as quais a espacialidade da obra é necessariamente incompleta. É o que afirma Menezes:
A antiga oposição entre música concreta e música eletrônica deflagra-se, ainda hoje, na forma pela qual o compositor concebe espacialmente suas obras eletroacústicas e, consequentemente, encara a questão da espacialidade. Assim é que, ancorados pela concepção schaefferiana, diversos compositores que se filiam ao Groupe de Recherches Musicales (GRM) parisiense ainda denominam suas realizações de composições
103
Cf. MENEZES, 2006, p. 423.
104
Curiosamente, e, diríamos, paradoxalmente, segundo o livro que acompanha o cofre de CDs de François Bayle – sucessor de Schaeffer na direção do GRM e mentor da escola acusmática –, o compositor estaria, desde 1994-95 na quarta fase de seu percurso composicional, cuja principal característica é a composição de obras octofônicas.
105
Neste sentido, é preciso ressaltar o alto nível de elaboração espacial estereofônica em certos compositores dentro da vertente tipicamente acusmática, como, por exemplo, Francis Dhomont.
acusmáticas, cuja projeção espacial no espaço dos teatros torna-se quase imprescindível à sua apreciação estética – não sem caracterizar essa
postura como uma espécie de ‘resgate’ do ato interpretativo. […] Aquilo que então se constitui elemento crucial na veiculação da obra acusmática, qual seja: a orquestra de alto-falantes […], acaba por anular quase que por completo a concepção espacial enquanto dado estruturante da composição no processo mesmo de realização da obra em estúdio. Todo e qualquer
elemento sonoro, uma vez incorporado à obra, passa a ser idealizado somente se projetado na espacialidade múltipla da escuta no teatro,
promovendo, assim, o papel do compositor acusmático à função de intérprete: será o próprio compositor (salvo no caso de sua ausência no concerto em questão, quando então será substituído por outro músico acusmático) quem ‘projetará’, através da mesa-de-som situada, via de regra, no centro do público, os sons no espaço. […] A espacialidade deixa mais uma vez de ser estruturante para se tornar, aqui, ‘revigorante’, redimensionando os sons eletroacústicos por vezes de origem até mesmo monofônica no espaço multifônico proporcionado pela disposição espacial dos alto-falantes. (MENEZES, 1998, p. 26-27, grifos nossos).
Ao contrário, aqueles que se vêem mais próximos da corrente eletrônica, na vertente estruturalista de música eletroacústica, propõem-se a elaborar a espacialidade interna da obra com o máximo de detalhes, fixando-a geralmente num mínimo de quatro ou oito canais, de modo que sua espacialização em concerto possa ocorrer mesmo sem qualquer tipo de interferência de um intérprete (embora a presença do compositor ou um técnico na mesa de som que regule ao menos a intensidade sonora geral da obra seja sempre imprescindível). É o que afirma Menezes, sem deixar de chamar a atenção para a problemática decorrente da abolição do intérprete na música eletrônica:
A essa postura estática enquanto concepção/realização, mas dinâmica enquanto difusão em concerto das obras eletroacústicas, opõe-se a vertente ‘estruturalista’ de música eletroacústica (ou eletrônica, como até hoje preferem alguns compositores), Encarando-se o dado espacial como elemento irreversível e irremediavelmente atado à concepção estrutural das obras eletroacústicas, prioriza-se, já na concepção/realização dos sons eletroacústicos, a produção espacial dos eventos sonoros no suporte tecnológico da obra. […] Raramente o compositor que ingressa num estúdio alemão como o da Escola Superior de Música de Colônia será convidado ou estimulado a conceber uma obra estereofônica, quanto mais monofônica. A estereofonia é aí vista como contingência inevitável da comercialização das obras eletroacústicas mediante rádio ou CD. Ao conceber sua obra, o compositor eletroacústico que se identifique com uma postura mais estruturalista procura conceber, já de antemão, a disposição espacial quadrifônica dos eventos constituintes de sua composição. A consequência mais óbvia dessa postura é a total consciência, por parte do compositor, das relações entre tempo e espaço no decorrer de sua composição: o compositor não teme assumir a total responsabilidade, já na fase de concepção de sua obra, com relação à estruturação do espaço acústico a partir dos eventos sonoros que laboriosamente constrói; a mais funesta, no entanto, é a perpetuação da monotonia visual engendrada
desde sempre pela música eletroacústica devido à abolição do intérprete e de sua presença gestual: uma vez que a espacialidade dos eventos sonoros de sua obra é de antemão concebida e já predeterminada pela quadrifonia, o compositor vê-se quase reduzido, quando da execução em concerto de sua obra, ao ‘mero’ papel de ouvinte, com a agravante, porém, de que à sua frente ele se depara com uma vultosa […] mesa-de-som. Sua passividade, mas ao mesmo tempo a obrigatoriedade, perante os olhos do público, de que sua presença ali se justifique, chega a ser, no mínimo, irritante. (MENEZES, 1998, p. 27, grifos do autor).