4. METHODS AND DATA
4.1 C OLLECTING DATA
Iniciamos este tópico com o pensamento de Traquina (1993, p. 169).
(...) As notícias são resultados de um processo de produção definido como a percepção, seleção e transformação de uma matéria-prima (os acontecimentos) num produto (as notícias). Os acontecimentos constituem um imenso universo de matéria-prima; a estratificação deste recurso consiste na seleção do que irá ser tratado, ou seja, na escolha do que se julga ser matéria-prima digna de adquirir a existência pública da notícia, numa palavra-noticiável. (TRAQUINA, 1993, p. 169)
Para o entendimento do contexto de produção noticiosa é preciso ter atenção às questões ligadas às rotinas produtivas. São elas que delimitam métodos que contribuem para a organização do trabalho jornalístico pleno. Elas são tidas como procedimentos inerentes aos meios de comunicação e são expressas de formas diferentes, se comparado à organização de redação para redação. Em muitos ambientes jornalísticos é fácil flagrar rotinas com características semelhantes entre si, como é o caso do recolhimento de informações, seleção do material e a apresentação dos fatos. Porém, atualmente as rotinas de produção passam por transformações. A nova lógica de jornalismo voltada para os ambientes móveis e digitais, acelera a forma de produção da notícia e remodela os métodos adotados para viabilizar a informação para o público.
A primeira fase das rotinas produtivas, a qual que recolhe materiais é importante para que se estabeleçam táticas de construção dos noticiários. Para Vizeu (2005, p. 94).
Os jornalistas constroem antecipadamente a audiência a partir da cultura profissional da organização do trabalho, dos processos produtivos, dos códigos particulares (as regras de redação), da língua e das regras do campo das linguagens para, no trabalho da enunciação produzir discursos. E o trabalho que os profissionais jornalistas realizam, ao operar sobre os vários discursos, resulta em construções que, no jargão jornalístico, podem ser chamadas de notícias. (VIZEU, 2005, p.94)
Os canais de recolhimento de matérias informativos estão profundamente estruturados em função da noticiabilidade, e, no seu funcionamento, acabam por reforçar e realçar os critérios de relevância (WOLF, 1987, p.291). Já esta questão do ponto de vista de Martino (2003, p.108) está caracterizada da seguinte forma.
A escolha das notícias pressupõe critério. Não apenas para decidir o que terá espaço em um jornal, mas também as dimensões desse espaço. Nem todos os fatos podem ser publicados, nem todos os publicados serão destaque, nem todos os destaques serão manchetes. Há um problema pré-existente de espaço dentro dos veículos de comunicação. (MARTINO, 2003, p.108).
A rotina do trabalho jornalístico está diretamente ligada à coleta de informações, pois a ação é condicionada pela racionalização do trabalho, redução de custos e tempo para a produção, credibilidade de quem fornece os materiais, caráter oficial das fontes, fuga a pressões externas e redução das necessidades de controle. Na realidade, fontes, jornalistas e público coexistem dentro de um sistema que se assemelha mais ao jogo da corda do que a um organismo funcional inter-relacionado. No entanto, os jogos da corda são decididos pela força: e as notícias são, entre outras coisas, o exercício do poder sobre a interpretação da realidade (WOLF, 2008).
Na versão do autor, o elemento fundamental das rotinas de produção é a escolha. A produção da informação televisiva é, em grande parte, a elaboração passiva de notícias que a redação não pode deixar de dar. A coleta é proporcionalmente factível aos recursos disponíveis, mas, de tomo modo, continua sendo a cereja do bolo. A parte de triagem das informações é um processo rotineiro em uma redação, muitas vezes feito por meio do senso comum, mas ao contrário do que se pensa é um processo complexo e que atualmente passa por uma metamorfose. Não podemos aqui tomar como forma a produção noticiosa de décadas atrás, os conceitos de mobilidade e interatividade remodelaram a ordem de apuração e trouxeram impactos para a atividade jornalística. Aumentando o número de informações que chega a uma redação e acelerando o tempo
de checagem e de produção. Mesmo assim, não se pode descrever o processo de seleção como uma escolha subjetiva do jornalista. Ainda segundo Wolf (2008, p. 241).
Muitas vezes, a escolha de um acontecimento coincide com a individualização de uma feição particular ou de um ponto de vista segundo o qual esse acontecimento pode ser relatado, noticiado. O relevo das notícias não é o único critério de seleção: A necessidade de ser eficiente e a escolha de procedimentos que permitam a eficiência dominam as fases de seleção e de produção (...) os critérios de relevância não existem apenas porque tornam possível a eficiência; tornam-se relevantes porque são também eficientes (...). Para os jornalistas, a eficiência existe para permitir o rendimento de três recursos escassos: o pessoal, o formato e o tempo de produção. Os órgãos de informação têm de ser eficientes na medida em que se espera que forneçam ao público as notícias mais atualizadas em tempos pré-estabelecidos. (WOLF, 2008, p. 241)
Outras duas características da teoria do newsmaking são a noticiabilidade e os valores-noticia. Por mais que os conceitos pareçam sinônimos, são apenas complementares. É importante distingui-los para evitar equívocos conceituais.
Quando tratamos de noticiabilidade, estamos nos referindo ao conjunto de critérios, operações e instrumentos com os quais os aparatos de informação enfrentam a tarefa de escolher cotidianamente, de um número imprevisível e indefinido de acontecimentos, de uma quantidade finita e tendencialmente estável de notícias (WOLF, 2008, p. 196). A nosso ver o conceito está ligado à imposição de ordem, organização do processo produtivo, a estabilidade da seleção só será possível mediante a aplicação de práticas que reduzirão o tempo de construção, acelerando o depósito de informações para o público. Ressaltamos também a afirmação de Pena (2005, p.130) que diz que a noticiabilidade é negociável, discussões entre repórteres, editores, diretores e outros atores do processo produtivo baseiam a produção diária, e, para este efeito construtivista é preciso aplicação do que a teoria denomina de valores-notícia.
Os dois conceitos poderiam ser até considerados sinônimos, mas, entendemos que os valores-notícia são tidos como componentes da noticiabilidade, construídos e adotados para ajudar a definir as rotinas produtivas. A partir deles é possível escolher o que é relevante para ser noticiado em uma redação. A tarefa de selecionar só terá lógica adotando com coerência os valores-notícia. Consideramos aqui a ideia de Vizeu (2000) que defende o telejornalismo como uma prática subjetiva de escolha e que não seria possível adotar todos os valores-notícias em cada momento, porém, eles são essenciais na garantia de uma estabilidade narrativa, tornando o processo criterioso e construído a
partir de fatores coerentes e lógicos, apoiados não só na estrutura de produção e apuração, mas também no público e na organização empresarial.
No caso específico deste trabalho, os valores-notícia serviram para nortear o que era escolhido aleatoriamente e por vezes, subjetivamente. A escolha do que seria informação secundária era baseado antes de tudo no que tinha sido levado ao fluxo. O que dependia, no entanto, de uma escolha subjetiva, pois a informação que deveria ser disponibilizada na Segunda Tela estaria complementando o que já tinha sido exibido, antecipando ao telespectador a ação de pesquisar notícias relacionadas à informação dada no Jornal da Cultura. Seguimos, de certa forma, com o pensamento de Wolf (2008, p. 247).
Quando o jornalista tem de pensar no tipo de notícias que é mais importante para o público, serve-se mais da sua opinião acerca das notícias do que de dados específicos sobre a composição, o gosto e os desejos daqueles com quem está a se comunicar. Neste contexto, fazer uma avaliação da notícia é pensar no público porque se pressupõe que as seleções efetuadas por profissionais são aquelas que vão de encontro aos desejos dos destinatários. (WOLF, 2008, p. 247).
O cenário da produção jornalística em Segunda Tela é construído de forma diferenciada do fluxo. Se os valores-notícia usados no telejornal normal assemelham-se aos “sintomas” do que pode ser ou não noticiável, no caso do conteúdo síncrono, os valores-notícia funcionam como um conjunto de critérios coerentes que indicam se a reportagem deve ou não conter um conteúdo complementar, favorecendo, sobretudo, o público e seus anseios.
Nossa escolha para a construção da análise desta pesquisa foi pelo uso referencial de valores-notícia, não aplicados à notícia em fluxo, porque isso já é feito por outros autores e com precisão. Decidimos avaliar os valores-notícia do ponto de vista da informação dada em Segunda Tela, fundamentados na coleta, tratamento e análise dos dados colhidos, que são formados por observação dos telejornais, do conteúdo disponíveis como ST e pelas entrevistas e relatos realizadas.
Vale lembrar que a subjetividade esteve presente na escrita deste trabalho. Por assim dizer, é importante destacar o seguinte: se os dados colhidos fossem de natureza essencialmente objetiva, isso resultaria em um texto objetivo, mas, no caso específico deste estudo, no contexto de produção noticiosa e formação de um recurso secundário na exibição de um telejornal, os dados recolhidos se encaixam na categoria de
relacionais e exigem a imposição do papel de pesquisador, explicitando suas interpretações.