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princ´ıpio de determina¸c˜ao completa e as no¸c˜oes

de substˆancia

Um ponto interessante acerca dos dois per´ıodos metaf´ısicos de Leibniz, bem como a ma- neira como o autor compreende a no¸c˜ao de espa¸co relacional na Correspondˆencia Leibniz- Clarke e nos Novos Ensaios ´e que o princ´ıpio de identidade dos indiscern´ıveis est´a presente no fundamento de todos esses aspectos.

Assim, com base nessas dificuldades que apresentamos acerca da interpreta¸c˜ao da me- taf´ısica de Leibniz e com a centralidade que a cr´ıtica de Kant confere ao princ´ıpio de determina¸c˜ao completa, achamos por bem analisar o Ensaio de 1768 n˜ao como mais um texto acerca do espa¸co, mas como um texto cuja tem´atica do espa¸co serve como apoio para uma revis˜ao nos fundamentos da metaf´ısica. Essa revis˜ao nos fundamentos da metaf´ısica tem como base a no¸c˜ao de substˆancia.

Conv´em destacar que n˜ao afirmamos aqui que Kant ataca precisamente a no¸c˜ao de substˆancia individual da primeira fase de Leibniz ou a no¸c˜ao de mˆonada da segunda fase.

O que defendemos ´e que Kant ataca o princ´ıpio por meio do qual uma coisa substancial pode ser determinada.

Esse aspecto ´e de fundamental importˆancia para o desenvolvimento do pensamento cr´ıtico de Kant, uma vez que a partir do momento em que a determina¸c˜ao dos objetos n˜ao pode ser feita ´unica e exclusivamente por meio dos predicados que est˜ao contidos no sujeito, o conhecimento do objeto passa a ser considerado sempre sob a perspectiva de uma caracter´ıstica externas.

Trataremos dessa quest˜ao mais adiante, aqui pretendemos apenas demonstrar, ent˜ao, como o fundamento da no¸c˜ao de substˆancia de Leibniz encontra seu fundamento dire- tamente na no¸c˜ao do princ´ıpio de identidade dos indiscern´ıveis independentemente do per´ıodo metaf´ısico do autor. O espa¸co relacional ´e uma no¸c˜ao derivada do fundamento da substˆancia substˆancia – aqui, como coisa substancial – e, consequentemente, do princ´ıpio de identidade dos indiscern´ıveis.

Leibniz define o princ´ıpio de identidade dos indiscern´ıveis da seguinte maneira:

Na natureza n˜ao pode haver duas coisas individuais que diferem apenas em n´umero, i. e., que n˜ao diferem em nenhuma de suas qualidades ou que diferem por ser duas coisas ao inv´es de uma. Onde se encontram duas coisas deve ser poss´ıvel explicar porque elas s˜ao diferentes – porque s˜ao duas coisas, porque x n˜ao ´e y – e para essa explica¸c˜ao devemos observar as diferen¸cas qualitativas entre as coisas16

Com base nesse excerto, podemos compreender como se formula o princ´ıpio de deter- mina¸c˜ao completa que apresentamos no come¸co deste cap´ıtulo17

. A rela¸c˜ao entre esses dois princ´ıpios ´e dada ent˜ao da seguinte maneira: (1) para que possamos afirmar haverem dois indiv´ıduos distintos entre si, ent˜ao ´e preciso que esses dois indiv´ıduos tenham qualidades

16

Leibniz, “First Truths”, op.cit. p. 2.

17

A no¸c˜ao completa de um indiv´ıduo cont´em todos os predicados – passados, presentes e futuros. se a substˆancia ter´a certo predicado, ´e verdade agora que ela ter´a e, portanto, esse predicado est´a contido na no¸c˜ao da coisa. Assim, tudo que ir´a acontecer a Pedro ou a Judas – tanto os eventos necess´ario como os decorrentes da liberdade de cada um – est´a contido no indiv´ıduo perfeito de Pedro ou Judas...ibid., p. 4

distintas; (2) se, portanto, ´e o conjunto das qualidades de um indiv´ıduo que o distingue de todos os demais indiv´ıduos, ent˜ao, o que caracteriza esse indiv´ıduo ´e o conjunto de predi- cados poss´ıveis que podem ser atribu´ıdos a ele que o individualiza, ou seja, um indiv´ıduo ´e caracterizado por meio de sua no¸c˜ao completa, ou, como chamamos aqui, conforme o princ´ıpio de determina¸c˜ao completa.

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E importante notarmos que Leibniz n˜ao considera qualquer qualidade externa aos in- div´ıduos. O princ´ıpio de determina¸c˜ao completa, tal como apresentado no Primeiras ver- dades, ´e sempre relacionado aos conceitos que podem ser atribu´ıdos a um conceito sujeito. Conforme observamos tamb´em no in´ıcio do cap´ıtulo, o princ´ıpio de determina¸c˜ao com- pleta est´a em conformidade com a no¸c˜ao forma substancial do Discurso de metaf´ısica: “[...] podemos dizer que a natureza de uma substˆancia individual ou de um ser complexo consiste em ter uma no¸c˜ao t˜ao perfeita que seja suficiente para compreender e fazer deduzir de si todos os predicados do sujeito a que se atribui esta no¸c˜ao [...]”18

.

A nossa dificuldade, ent˜ao, ´e demonstrar como o princ´ıpio de determina¸c˜ao completa est´a presente na metaf´ısica monadol´ogica de Leibniz e como esse princ´ıpio de rela¸c˜ao direta com a concep¸c˜ao de espa¸co relacional.

Na Monadologia, Leibniz reconsidera a no¸c˜ao de substˆancia, afirmando que a ´unica substˆancia verdadeira ´e a mˆonada:

A Mˆonada de que aqui falaremos n˜ao ´e outra coisa sen˜ao uma substˆancia simples, que entra nos compostos; simples quer dizer sem partes.[...] E tem de haver substˆancias sim- ples, uma vez que existem compostos, pois o composto nada mais ´e do que uma reuni˜ao ou aggregatum dos simples.[...] Ora, onde n˜ao h´a partes n˜ao h´a extens˜ao, nem figura , nem divisibilidade poss´ıvel. E estas Mˆonadas s˜ao os verdadeiros ´Atomos da Natureza e, em suma, os Elementos das coias19

.

18

Leibniz, Discurso de Metaf´ısica, op.cit. p. 82.

19

G. W. Leibniz, “Os Princ´ıpios da Filosofia ou A Monadologia”, em Discurso de Metaf´ısica e Outros Textos, trad. por Alexandre da Cruz Bonilha, Martins Fontes, S˜ao Paulo 2004, p. 131.

Contudo, conforme destaca Fichant, Leibniz apresenta uma defini¸c˜ao de substˆancia que parece ser conflitante com a no¸c˜ao de substˆancia simples da Monadologia no texto Princ´ıpios da natureza e da gra¸ca20

. O ponto interessante acerca desse aparente conflito ´e que ambos os textos s˜ao do mesmo per´ıodo.

Nos Princ´ıpios da natureza e da gra¸ca, Leibniz afirma o seguinte:

A substˆancia ´e um ser capaz de a¸c˜ao. Ela ´e simples ou composta. A substˆancia simples ´e aquela que n˜ao tem partes. A composta ´e a reuni˜ao das substˆancias simples ou Mˆonadas [...]21

.

O problema que decorre dessas duas passagens, conforme destaca Fichant, ´e que, en- quanto na Monadologia Leibniz afirma que a ´unica substˆancia verdadeira ´e a mˆonada, nos Princ´ıpios da natureza e da gra¸ca, Leibniz parece reconhecer a possibilidade de uma substˆancia composta22

.

O comentador soluciona essa dificuldade dizendo que a ideia de substˆancia composta pode ser compreendida por meio da tese monadol´ogica, uma vez em que a no¸c˜ao de ser e de unidade podem ser compreendidas conjuntamente. Segundo Fichant, a f´ormula substˆancia do Discurso de metaf´ısica, que ´e decorre do texto acerca das primeiras verdades, era a de praedicatum inest subjectum23

, ou seja, o sujeito ´e determinado por meio de seus predica- dos. Com a tese monadol´ogica, a determina¸c˜ao da substˆancia passa a ser obtida por meio de sua unidade.

Contudo, quando confrontamos a interpreta¸c˜ao de Fichant com o texto dos Novos en- saios, percebemos que apesar a mudan¸ca da f´ormula substˆancia ainda encontra fundamento

20

Fichant, “A constitui¸c˜ao do conceito de mˆonada”, op.cit. p. 13.

21

G. W. Leibniz, “Princ´ıpios da Natureza e da Gra¸ca fundados na Raz˜ao”, em Discurso de Metaf´ısica e Outros Textos, trad. por Alexandre da Cruz Bonilha, Martins Fontes, S˜ao Paulo 2004, p. 153.

22

Fichant, “A constitui¸c˜ao do conceito de mˆonada”, op.cit. p. 15.

23

no princ´ıpio de identidade dos indiscern´ıveis e consequentemente, no princ´ıpio de deter- mina¸c˜ao completa.

E segundo as demonstra¸c˜oes que creio possuir, toda coisa substancial, seja alma ou corpo, tem a sua rela¸c˜ao com cada uma das outras, rela¸c˜ao que lhe ´e pr´opria; e uma deve sempre diferir da outra por denomina¸c˜oes intr´ınsecas24

.

Com base nessa passagem dos Novos Ensaios somos levados a considerar que, pelo me- nos no que se entende por coisa substancial, a f´ormula praedicatum subjetum inest parece se manter. O que indica haver permanˆencia no princ´ıpio de identidade dos indiscern´ıveis e, por conseguinte, no princ´ıpio de determina¸c˜ao completa.

Por meio desse excerto, tamb´em, come¸camos ent˜ao a compreender como Leibniz compre- ende o espa¸co e como que a sua no¸c˜ao deve encontrar fundamento nas coisas substanciais.