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Resolvemos incluir essa se¸c˜ao aqui, pois muitos leitores da Correspondˆencia Leibniz- Clarke podem aceitar o argumento de Clarke acerca do espa¸co como material v´alido para pensarmos uma poss´ıvel metaf´ısica do espa¸co absoluto.

Esse tipo de interpreta¸c˜ao decorre da acusa¸c˜ao por parte de Leibniz de que Newton afirma o espa¸co se tratar de um ´org˜ao divino (sensorium Dei, por meio do qual Deus se serviria para perceber os objetos:

24

I. Kant, Kritik der reinen Vernunft, ed. por Wilhelm Weischedel, Suhrkamp, Frankfurt am Main 1973 (doravante citado como Kant, KrV), A 39/B 56.

25

cf. Cohen, “A Guide to Newton’s Principia”, op.cit. cf. Dissale, “Newton’s Philosophical Analysis of Space and Time”, op.cit. cf. O. Belkind, “Newton and Leibniz on Space”, em Foudations of Science, 18, 3 (2013).

Parece que a religi˜ao natural mesma se enfraquece extremamente [na Inglaterra]. Muitos assumem as almas como corp´oreas; outros assumem o pr´oprio Deus como corp´oreo. [...] O senhor Newton diz que o espa¸co ´e ´org˜ao do qual Deus se serve para sentir as coisas. Mas se Ele tem a necessidade de um meio para sentir, as coisas n˜ao dependem inteiramente Dele e n˜ao s˜ao suas produ¸c˜oes. O senhor Newton e seus seguidores possuem ainda uma opini˜ao ´ımpar da obra de Deus. Segundo eles, Deus tem a necessidade de dar corda, de tempos em tempos, em seu rel´ogio. Do contr´ario, seu rel´ogio cessaria de funcionar. Newton e seus seguidores n˜ao tiveram uma vis˜ao suficientemente assaz para assumir um movimento perp´etuo[...]26

.

A afirma¸c˜ao de Leibniz provavelmente se fundamenta na afirma¸c˜ao feita por Newton nas repostas `as obje¸c˜oes apresentadas na ´Otica. Na resposta 31, Newton afirma o seguinte:

Tamb´em, a primeira inven¸c˜ao dessas diversas partes artificiais dos animais, como os olhos, as orelhas, o c´erebro, os m´usculos, o cora¸c˜ao, os pulm˜oes [...] e outros ´org˜aos da sensa¸c˜ao e do movimento; e o instinto dos brutos e os insetos n˜ao podem ser outra coisa que o efeito da sabedoria e capacidade de um agente poderoso e imortal, que estando em todos os lugares, ´e mais capaz de mover os corpos pela sua vontade com seu sensorium uniforme e ilimitado [...]27

.

Como podemos perceber, a passagem em quest˜ao se refere ao espa¸co como um sen- sorium ilimitado de Deus. Contudo, conforme destaca Meli, essa mesma passagem foi retirada na edi¸c˜oes subsequentes da ´Otica por pedido do pr´oprio Newton28

.

Poder´ıamos ainda recorrer `a defesa feita por Clarke na Correspondˆencia Leibniz-Clarke, quando afirma:

26

G. W. Leibniz, Correspondance Leibniz-Clake, 2a

edi¸c˜ao, Presse Universitaires de France, Paris 1991, p. 23.

27

I. Newton, Optics, 22a

edi¸c˜ao, Great Books of the Western World, XXXIV, Encyclopedia Britannica, Inc., Chicago 1978, p. 542.

28

O senhor Isaac Newton n˜ao afirma que o espa¸co ´e um ´org˜ao com o qual Deus faz uso para perceber as coisas; nem que Ele necessita de nenhum meio para percebˆe-las. Mas, ao contr´ario, Ele, sendo onipresente, percebe todas as coisas por meio de sua imediata presen¸ca em todo o espa¸co onde que que seja sem a interven¸c˜ao de qualquer ´org˜ao ou meio que seja.29

Podemos afirmar dois pontos acerca dessas passagens. Em primeiro lugar, tanto a afirma¸c˜ao de Newton na ´Otica como a afirma¸c˜ao de Clarke na Correspondˆencia Leibniz- Clarke s˜ao mais da ordem de um debate teol´ogico do que propriamente acerca da natureza do espa¸co. Em segundo lugar, podemos supor, pelo que foi afirmado, que o espa¸co se apresenta como uma esp´ecie de acidente divino. Independentemente disso, tais afirma¸c˜oes n˜ao servem mais do que meras especula¸c˜oes.

Primeiramente, precisamos questionar a legitimidade das palavras de Clarke em rela¸c˜ao ao pensamento de Newton. A primeira carta do conjunto epistolar da Correspondˆencia Leibniz-Clarke foi endere¸cada `a Carolina de Gales. Contudo, por meio de correspondˆencias anteriores de Leibniz com a pr´opria Carolina, j´a era de se esperar que essa carta fosse cair nas m˜aos de Clarke. Na carta de 03 de novembro de 1715, Carolina avisa Leibniz que, por sugest˜ao do bispo de Lincolme, Clarke seria a melhor pessoa para traduzir a Teodic´eia para o inglˆes. Ent˜ao, para obter a sua aprova¸c˜ao, lhe envia os livros de Clarke para aprecia¸c˜ao30

. Portanto, n˜ao podemos afirmar com seguran¸ca que houve debate acerca do espa¸co entre entre Newton e Leibniz, pois Leibniz j´a sabia de antem˜ao que seu interlocutor seria CLarke. Cassirer afirma que, em meio aos objetos pessoais de Newton, ap´os a sua morte, foram encontradas c´opias das cartas de Clarke a Leibniz31

. Contudo, isso significaria que Clarke estava sendo orientado por Newton durante toda a troca de correspondˆencia? Eviden- cia sim que Newton estava pelo menos ciente daquilo que estava sendo debatido. Por´em, a partir disso, afirmar que as palavras de Clarke representam plenamente o pensamento

29

Leibniz, Correspondance Leibniz-Clake, op.cit. p. 29.

30

Ibid., p. 21.

31

newtoniano em toda sua amplitude seria apenas uma especula¸c˜ao vaga. Vailati, em uma posi¸c˜ao oposta a de Cassirer, defende que n˜ao se pode perder de vista que muito daquilo que est´a presente na correspondˆencia, prov´em do pensamento do pr´oprio Clarke e, por- tanto, n˜ao se deve assumir o texto clarkiano como representante pleno de pensamento newtoniano32

.

Quando se observa algumas correspondˆencias anteriores `a Correspondˆencia Leibniz- Clarke, como, por exemplo, a j´a citada correspondˆencia de Carolina da Gales a Leibniz de 3 de novembro de 1715 e a correspondˆencia de R´emond a Leibniz de 30 de junho de 1715, o exame dessas cartas parece favorecer a opini˜ao de Vailati em detrimento da opini˜ao de Cas- sirer. Como j´a comentado, o motivo que leva Leibniz a iniciar a troca de correspondˆencia com Clarke prov´em do interm´edio de Carolina de Gales que recebe a indica¸c˜ao de Clarke para tradu¸c˜ao da Teod´ıceia. Al´em disso, na carta de R´emond a Leibniz, a distin¸c˜ao entre o pensamento de Newton e de Clarke aparece de maneira bem clara:

O senhor Newton n˜ao fala de alma e do corpo por rela¸c˜ao aos fenˆomenos. Ele professa ignorar perfeitamente a natureza desses dois seres. Por corpo ele n˜ao entende mais do que aquilo que ´e extenso, impenetr´avel, que pesa, etc... Por alma, aquilo que pensa, aquilo que se sente em n´os, etc... Ele diz que n˜ao sabe nada mais al´em.

O doutor Clarke vai mais longe. Ele defende que n˜ao poder´ıamos provar que a alma ´e al- guma coisa que pertence ao corpo e eis seu racioc´ınio: demonstra-se que todos os corpos s˜ao divis´ıveis, mas sabe-se, por meio dos fenˆomenos, que a substˆancia pensante ´e alguma coisa de indivis´ıvel. Como essas duas propriedades s˜ao contradit´orias, elas n˜ao podem se encontrar no mesmo sujeito; por consequˆencia, n˜ao podemos provar que os corpos e a alma sejam a mesma coisa [...]33

32

E. Vailati, Leibniz and Clarke: a study of their correspondence, 1a

edi¸c˜ao, Oxford University Press, New York 1997, p. 4.

33

Portanto, por mais que fosse do interesse de Clarke defender metafisicamente o pen- samento de Newton, n˜ao podemos considerar a sua interpreta¸c˜ao acerca da natureza do espa¸co como concordante com o que Newton pretendia ao tratar do espa¸co absoluto.

Outro ponto importante em rela¸c˜ao ao Ensaio de 1768 ´e que tanto Euler, interlocutor de Kant, como o pr´oprio Kant parecem desconsiderar completamente uma investiga¸c˜ao do fundamento metaf´ısico do espa¸co. Lembremos, por exemplo, a passagem inicial das Reflexions:

Tamb´em os metaf´ısicos, bem longe de negar esses princ´ıpios dos quais a Mecˆanica nos assegura a verdade, tˆem a tarefa de deduzi-los e demonstra-los por meio de suas ideias [...]. Ser´a, ent˜ao, o caso dos princ´ıpios da Mecˆanica, que se encontram contidos nas ideias de espa¸co e de tempo, que segundo os metaf´ısicos n˜ao possuem qualquer realidade. Portanto, ´e necess´ario verificar se ´e poss´ıvel poss´ıvel excluir essas ideias imagin´arias e substitu´ı-las por ideias reais[...]34

Euler deixa claro que sua tarefa n˜ao ´e provar o espa¸co metafisicamente. Para ele, a re- alidade do espa¸co ´e dada na medida em que as leis da mecˆanica s˜ao v´alidas objetivamente. Kant tamb´em desconsidera qualquer fundamento metaf´ısico do espa¸co quando afirma:

Todos sabem que por meio dos ju´ızos dedutivos da metaf´ısica os esfor¸cos dos fil´osofos para colocar este ponto fora de qualquer controv´ersia ainda foram em v˜ao35

.

Portanto, o resultado que devemos esperar do Ensaio de 1768 n˜ao diz respeito ao fun- damento metaf´ısico do espa¸co. Apesar de Kant buscar constatar a natureza real do espa¸co absoluto, ele n˜ao o faz por meio de ju´ızos dedutivos. Ele mesmo assume ser dif´ıcil, sen˜ao

34

Euler, “Reflexions sur L’Espace et le Tems”, op.cit. p. 325.

35

imposs´ıvel, a tarefa de verificar as causa e a origem do espa¸co. Kant resigna-se simples- mente em demonstrar que o espa¸co ´e real.