De acordo com Raij et al. (1996), os micronutrientes dividem-se em três classes de acordo com sua concentração no solo: Baixa, Média e Alta, de acordo com a Tabela 8.
Tabela 8. Limites de interpretação dos teores de micronutrientes em solos.
Teor B Cu Fe Mn Zn
água quente ---DTPA--- ---mg dm-3---
Baixo 0-0,20 0-0,2 0-4 0-1,2 0-0,5
Médio 0,21-0,60 0,3-0,8 5-12 1,3-5,0 0,6-1,2
Alto > 0,60 > 0,8 >12 > 5,0 >1,2
Adaptado de Raij et al. (1996).
De acordo com os dados constantes na Figura 22, referentes aos teores de B, Cu, Fe, Mn e Zn encontrados no solo do presente experimento, nota-se que houve diferença estatística significativa ao nível de 5% de probabilidade entre os tratamentos que utilizaram diferentes doses de lodo de esgoto para todos os parâmetros analisados, com tendência de aumento linear de todos os micronutrientes em função do aumento da dose do material orgânico adicionado ao solo, nas três épocas avaliadas. Considerando a qualidade de água nas irrigações, conforme dados apresentados nas Tabelas 10, 11 e 12, percebe-se que não existe persistência dos dados nas épocas avaliadas, visto na primeira época de avaliação haver diferença significativa para os elementos Fe, Mn e Zn, sendo responsivos à aplicação de EET os dois primeiros elementos, e apresentando resultados inferiores para o último elemento quando adicionado EET nas irrigações de manutenção das laranjeiras comparado à utilização de AT.
Figura 22. Teores de B, Cu, Fe, Mn e Zn (mg dm-3) em função da aplicação de lodo de esgoto compostado ao solo nas doses de 0, 6, 12, 18, 24 e 30 kg planta-1, que representa 0, 25, 50, 75, 100 e 125% da quantidade requerida de N pela cultura da laranjeira, em 3 épocas distintas (abril/2010; outubro/2010 e abril/2011).
Já na segunda época de avaliação, não houve diferença estatística significativa ao nível de probabilidade utilizada neste experimento, para nenhuma das variáveis estudadas, fato que não se confirmou na terceira época, pois os elementos Cu e Mn encontrados no solo sofreram influencia da aplicação de EET no solo. Esta falta de persistência dos dados obtidos em diferentes épocas de amostragem é perfeitamente explicada pela heterogeneidade do EET fornecido pelas ETEs, resultado característico da própria constituição química do material que apresenta alto grau de variação em sua composição em curtos intervalos de tempo. O produto final (EET) é resultado direto da constituição do esgoto que adentra na Estação de Tratamento, e existe uma variação drástica num mesmo dia, mais ainda dentro de uma semana, frequência a qual era retirada do local de produção e levada à área experimental para ser utilizada durante a semana nas irrigações da cultura.
O potencial do lodo de esgoto no fornecimento de micronutrientes ao solo já foi destacado por diversos autores que estudaram a aplicação deste resíduo, seja utilizado como fonte de nutrientes nas adubações das culturas estudadas, seja como condicionador de solo para melhoria de parâmetros físicos, seja como material de recuperação de áreas degradadas. De maneira geral, pode-se dizer que o lodo de esgoto é uma fonte excelente de fornecimento de micronutrientes às culturas, elementos geralmente excluídos dos protocolos de adubação recomendados e que são tão limitantes à produção quanto os macronutrientes. De acordo com os dados observados na Figura 27, pode-se concluir que a adubação de laranjeiras exclusivamente com lodo de esgoto foi capaz de fornecer micronutrientes para satisfazer as necessidades nutricionais das plantas, visto que para todos estes elementos, com exceção ao Mn, os teores foliares estão dentro da faixa considerada adequada segundo recomendação de Quaggio; Mattos Jr; Cantarella (2005). Em contrapartida, deve-se estar atento ao acúmulo destes elementos no solo não devido à aplicação única do resíduo, mas sim à aplicações sucessivas deste material ao solo, elevando os teores destes elementos, que em alguns casos são tidos como metais pesados, a tal ponto de provocarem a contaminação do solo e consequente prejuízo ambiental. Para evitar este problema, a aplicação de lodo de esgoto deve seguir recomendações técnicas atualmente regulamentadas pela Resolução n. 375/2006 do CONAMA, que define critérios e procedimentos para o uso agrícola de lodos de esgoto gerados em estações de tratamento de esgoto sanitário e seus produtos derivados.
Em concordância com os dados obtidos neste experimento, Nascimento et al. (2004) observou aumento dos teores de todos os micronutrientes estudados devido a adição de lodo de esgoto ao solo, com destaque à elevação e acúmulo de Zn ao solo na ordem de doze vezes entre a maior dosagem (60 Mg ha-1) e o tratamento testemunha (0 Mg ha-1), além do Mn na ordem de sete vezes comparando-se a maior e menor doses do experimento. Barbosa (2008) em experimento semelhante ao presente, substituindo o N de fontes minerais pelo equivalente presente em lodo de esgoto, porém na fertilização de bananeiras, não observou diferença estatística significativa para os teores de micronutrientes encontrados no solo após dois ciclos de cultivo, exceção feita ao Zn, que apresentou crescimento linear em função do aumento da dose de lodo (variou de 0 a 53,75 Mg ha-1), quantidade bastante superior aos 13,5 Mg ha-1 utilizadas como maior dosagem neste experimento.
Chiba (2005) descreve em seu trabalho sobre os efeitos da aplicação de lodo de esgoto como fonte de P à cultura da cana-de-açúcar, incrementos nos teores minerais do solo em ordem decrescente de Zn > Fe > Cu > Mn quando comparados ao tratamento testemunha, novamente indicando o potencial de fornecimento de micronutrientes pelo lodo, com preocupação especial ao Zn. Isto também foi verificado por Galdos; de Maria; Camargo (2004) que relataram aumentos de nove vezes nos teores de Zn de um LATOSSOLO VERMELHO tratado com 10,1 Mg ha-1 de lodo de esgoto em comparação à testemunha sem
lodo.
Pigozzo et al. (2004) aplicando 0, 6, 20, 40, 60 e 80 Mg ha-1 de lodo de esgoto em solos incubados e avaliados aos 0, 30, 60, 90 e 120 dias observaram aumentos crescentes nos teores de Fe, Mn, Zn e Cu do solo. Esse fato também foi observado por Simonete (2001) que, aplicando lodo de esgoto em solo cultivado com milho, em casa de vegetação, encontrou maior acréscimo para teores de ferro e zinco. Oliveira (2000), aplicando lodo de esgoto em solo cultivado com cana-de-açúcar, encontrou maior acréscimo para teores de zinco, em relação a outros metais, atribuindo o acréscimo à elevada quantidade do metal no resíduo. Matos; Fia; Aguirre (2005) ao estudarem as alterações químicas em um solo submetido a adubações com lodo de esgoto caleado visando fornecer 0, 1, 2, 3, 4 e 5 vezes o N recomendado pela cultura do milho (0; 33,6; 67,4; 101,0; 134,7 e 168,4 Mg ha-1 de lodo),
constataram tendência de aumento dos elementos Zn e Cu em suas concentrações trocáveis com as maiores doses aplicadas. Os autores ressaltam que apesar do teor destes
micronutrientes decrescer com o aumento do pH do solo, neste caso influenciado pela cal adicionada ao lodo, notou-se aumento linear destes elementos em função da quantidade maior de material aplicado ao solo, mesmo com o aumento do pH nas maiores dosagens, já que o aporte destes elementos adicionado ao solo é diretamente proporcional à quantidade de material aplicado. Destaca-se que o solo no tratamento de 101,0 Mg ha-1 resultou em um pH de 5,6. Chueiri, Serrat, Biele (2007) comparando os efeitos das adubações com lodo de esgoto em complementação à adubação mineral para produção de trigo, nas proporções de 0, 25, 50, 75 e 100%, assim como neste experimento, observaram aumentos nos teores de B, Fe e principalmente Zn e Cu. Os autores descrevem redução significativa apenas do Mn à medida que a proporção de lodo na mistura lodo+adubo mineral aumentou, já que segundo Lindsay; Norvell (1978) o Mn é extremamente sensível ao aumento do pH, formando compostos insolúveis quando os valores de pH em água se aproximam de 6,4, e o lodo utilizado foi alcalinizado como forma de higienização.
Considerando o limite máximo da carga acumulada teórica permitida de substâncias inorgânicas pela aplicação de lodo de esgoto ou produto derivado através da Resolução n° 375 do CONAMA, preocupa o teor de Zn encontrado nos tratamentos 11 e 12, da ordem de 58 mg dm-3 de solo na terceira época. Isso porque em 1 ha, a quantidade de Zn presente neste solo seria de 58 kg ha-1, e ainda, considerando o limite máximo de 445 kg ha-1 de Zn estabelecido
pela norma, no oitavo ano de aplicação chegar-se-ia ao máximo, inviabilizando a continuidade desta prática. Para o Cu, outro elemento constante na norma, este prazo seria de 27 anos. Para todos os micronutrientes avaliados, as maiores doses de lodo de esgoto promoveram incrementos bastante significativos superando os limites adequados estabelecidos por Quaggio; Mattos Jr; Cantarella (2005), ou seja, nesse caso ficaram muito acima do início da faixa considerada adequada pelos autores, conforme mostrado na Tabela 8 no início deste item.
Com relação à influencia da aplicação de EET nas características químicas do solo, neste caso representada pela concentração de micronutrientes, já era de se esperar não haver correlação significativa. Apesar disto, verifica-se aumento positivo nos teores dos micronutrientes do solo através da aplicação de EET como fonte hídrica para suprir a demanda de laranjeiras quando comparada a aplicação de AT, como por exemplo, no caso do B, que na primeira e segunda épocas de coleta apresentaram maiores concentrações do elemento.
Resultado semelhante foi obtido por Pereira (2009), que após aplicações de EET em laranjeiras ‘Valência’ enxertadas em citrumelo ‘Swingle’ observou aumento do teor de B no solo proporcional a lâmina aplicada, neste caso utilizadas para fornecer 0, 100, 125, 150 e 200% da ETc. O autor ressalta que houve acréscimo de 0,005 mg kg-1 entre as lâminas 0 e 200% da ETc, sendo atribuído à sua adição (H3BO3) via EET, já que as maiores lâminas
provocaram elevações do pH do solo, o que, segundo Soares; Casagrande; Alleoni (2008), torna o B menos disponível no solo. Pereira (2009) justifica ainda ressaltando que a quantidade de B presente no EET predominou sobre o aumento do pH. Estas alterações tímidas nos teores de micronutrientes do solo influenciadas pela aplicação de EET quando comparada ao efeito do lodo de esgoto nos mesmos atributos pode ser explicada, pois sabe-se que o EET apresenta baixa concentração de micronutrientes visto a maior quantidade destes elementos contida no esgoto urbano estar retida na fração sólida (lodo de esgoto), a qual possui concentração de matéria orgânica muito mais elevada que o EET, favorecendo assim a formação de complexos com os metais responsáveis pela sua estabilização. Além disso, o esgoto coletado pela Estação de Tratamento de Esgoto de Botucatu é composto majoritariamente por contribuição doméstica, apresentando baixa concentração da maioria dos metais. Este ponto é extremamente favorável à utilização do material na agricultura, já que a baixa concentração destes nutrientes no EET, alguns inclusive classificados como metais pesados, reduz a possibilidade de problemas ambientais como a lixiviação dos mesmos, podendo inclusive se constituir em importante fonte complementar de fornecimento de micronutrientes às culturas irrigadas.
Na literatura, resultados contraditórios são observados em diversos trabalhos. Mediante a disposição de EET no solo, ora tem havido aumento, ora tem ocorrido diminuição, ou mesmo, nenhuma influência da aplicação do EET (predominantemente doméstico) nos teores de micronutrientes disponíveis no solo. Inglés; Goméz; Nogales (1992) verificaram que a irrigação com efluente não afetou as concentrações de Cu, Fe e Mn no solo, extraíveis em DTPA. Resultados semelhantes foram observados por Johns; McConchie (1994a e 1994b) e Smith; Hopmans; Cook (1996b). Nos trabalhos de Johns; McConchie (1994a e 1994b), foi evidenciado que os teores de B, Cu, Fe, Mn e Zn, além de outros metais pesados como As, Cd, Cr e Pb, em solos cultivados com bananeira e irrigados com efluente, não foram afetados. Também, Smith; Hopmans; Cook (1996b) observaram, em solos florestais irrigados com EET
por mais de quatro anos, que os teores de Zn extraíveis em EDTA não foram alterados pela irrigação com EET.
A disposição de EET no solo mediante irrigação de plantas, pode inclusive ocasionar diminuição nos teores de micronutrientes e metais pesados disponíveis no solo. Johns; McConchie (1994b) verificaram que os teores de Fe diminuíram na superfície do solo, mas aumentaram em profundidade, mediante irrigação com efluente. Em outra situação, Al- Jaloud et al. (1995) verificaram que, em solos cultivados com milho e irrigados com efluente, os teores de Cu, Fe, Mn e Zn diminuíram. Em situações semelhantes, porém em outro experimento (com a cultura do sorgo), os mesmos autores verificaram que os teores de Cu, Fe, Mn e Ni no solo diminuíram mediante aplicação de EET.
Em solos florestais, Falkiner; Smith (1997) verificaram que o incremento nos teores de Ca, Mg, K e Na e da alcalinidade, aplicados pelo efluente, promoveram aumento no valor de pH do solo e diminuição da disponibilidade de Mn, visto ser este elemento extremamente sensível à variação do pH, conforme já discutido. Por outro lado, Quin; Syers (1978) verificaram em pastagens irrigadas por dezesseis anos com EET, ligeiro aumento nos teores de Co, Cu, Mn e Zn (extraídos em HCl 0,1 mol L-1 ). No entanto, segundo os autores, esse leve incremento na concentração destes elementos no solo não influenciou a concentração desses metais na parte aérea das plantas.
Inglés; Goméz; Nogales (1992) observaram que o teor de Zn-DTPA aumentou e as plantas foram nutridas adequadamente com esse micronutriente, mediante irrigação com EET. Johns; McConchie (1994b) também observaram aumento nos teores de Zn mediante disposição de águas residuárias no solo, assim como o incremento nos teores de Fe, Mn e Ni na solução do solo. Al-Nakshabandi et al. (1997) verificaram aumento nos teores de Cu, Fe, Mn, Zn, Cd e Pb em solos irrigados com EET. Tais efeitos foram atribuídos à presença desses elementos no efluente utilizado para irrigação.
Pode-se concluir através dos resultados de pesquisas, que na maior parte dos trabalhos com evidências de aumento nos teores de micronutrientes e metais pesados no solo mediante irrigação com efluente, as observações referem-se a experimentos de longos períodos de aplicação. Porém, o aumento desses metais no solo pela disposição de EET não é fato tão preocupante assim. Segundo Bouwer; Chaney (1974), seria necessário um século de irrigação com EET para que os teores destes elementos atingissem valores equivalentes
àqueles encontrados em um solo que recebeu aplicação de lodo de esgoto por apenas um ano. Evidentemente isso é variável em função da taxa de aplicação e da qualidade do lodo. Porém, Friedel et al. (2000) verificaram que, em solos que receberam EET por mais de oitenta anos, apesar de ter havido aumento nos teores totais de metais, a qualidade biológica do solo não chegou a ser afetada. Sendo assim, a aplicação de EET não deve se constituir em problema para o sistema agrícola do ponto de vista ambiental através do fornecimento exagerado de micronutrientes e metais pesados, de toda forma, é crucial o monitoramento dos teores destes elementos ao longo do tempo em solos utilizados para propósito de disposição de resíduos (CAMERON; DI; McLAREM, 1997), inclusive, solos irrigados com EET (BOND, 1998). Apesar do resultado positivo observado neste experimento, deve-se destacar a influência que o pH do solo exerce sobre a disponibilidade dos micronutrientes, com maior disponibilidade destes elementos em pH reduzido, e considerando ainda que a aplicação de maiores doses de lodo de esgoto neste experimento reduziu significativamente os valores de pH, conforme pode ser visualizado na Figura 14, conclui-se que os resultados podem ser reflexo tanto do aporte destes elementos via lodo de esgoto quanto da redução do pH promovida pela aplicação do resíduo ou pela combinação destes dois fatores.
De toda forma, a aplicação de lodo de esgoto como substituto de fontes minerais de N foi capaz de aumentar a disponibilidade dos micronutrientes, nutrindo adequadamente as plantas de laranja com exceção ao Mn; devendo ser dada atenção especial ao Zn, que teve seus teores no solo bastante elevados, podendo se constituir em limitação segundo recomendações técnicas. Já o EET não apresentou coerência nos dados obtidos, variando sua participação nos limites observados.
Após análise de todos os parâmetros químicos do solo, pode-se inferir que a produtividade de um pomar citrícola só poderá ser mantida em longo prazo, caso o capital de nutrientes no solo seja preservado, o que depende da existência de certo equilíbrio entre as entradas e saídas do sistema produtivo. Tendo por base essa premissa, o resultado do fornecimento dos elementos químicos ao solo neste experimento indica que o lodo de esgoto forneceu quantidade suficiente de nutrientes ao solo, exceto em relação ao K, cuja concentração no material em questão é baixa e tende a ser em grande parte lixiviado quando aplicado ao solo (ROSOLEM et al., 2006), e ao Mg que sofreu com o desbalanço provocado
pelo aumento de Ca que consequentemente, ocupou os sítios de adsorção de Mg, reduzindo os teores extraídos pela análise química do solo.
4.3 Teores foliares