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As receitas provenientes da bilheteria se constituíram como a fonte predominante de receitas dos clubes de futebol até o final dos anos 70, tanto no Brasil como no mundo. Hoje em dia, como vimos acima, representam apenas 8% das receitas dos clubes brasileiros. Caruso, da Golden

Goal, 1 nos mostra que um ingresso em 1971, ano da primeira edição do Campeonato Brasileiro,

custava em média R$4,00 estando em R$12,00. Tal variação, como vimos não trouxe uma variação de público na mesma proporção, mostrando-se a demanda inelástica, houve queda de público sim na curva média de 1971 a 2006, no entanto a queda é da ordem de apenas 20% e tem correlação com outros fatores esportivos e socioeconômicos como veremos mais adiante.

Com o advento de outras formas de receita, a receita de bilheteria vem sendo relegada ao segundo ou terceiro planos, o resultado desta visão são estádios mal conservados e mal concebidos, processos de aquisição de ingressos mal elaborados, difíceis e sacrificantes além de péssimos serviços no entorno como estacionamento, alimentação e sanitários salvo mui raras exceções.

Em levantamento do Datafolha realizado no começo de 2008, no qual se ouviram 11.786 pessoas em 390 municípios de 25 Estados. Na questão do hábito dos torcedores de ir ao estádio ou acompanhar os jogos pela TV sendo as respostas não excludentes entre si.

Apenas 23% dos seguidores do S.C.Corinthians Paulista afirmam que têm o costume de freqüentar estádios, contra 24% dos são-paulinos, 25% dos palmeirenses e 26% dos santistas.

Comparado com o que acontece com grandes de outros Estados, a apatia paulistana pelas arenas de futebol fica ainda mais evidente. No Rio de Janeiro, 30% dos flamenguistas apontam um campo de futebol como programa. No Nordeste, 36% dos seguidores do Bahia expressam a mesma opinião.

O resultado da pesquisa encontra respaldo na bilheteria nos Brasileiros do ano passado. Tanto o Flamengo, na primeira divisão do campeonato, como o Bahia, na terceira, registraram média de cerca de 40 mil torcedores por partida. O grande paulistano que mais se aproximou disso foi o São Paulo, com 29 mil pagantes por confronto. O Corinthians computou 20 mil fãs por jogo.

Tais resultados geram uma ocupação de aproximados 26% da massa de oferta de assentos nos estádios brasileiros, com tendência de queda em dados obtidos no estudo da Golden

Goal, do São Paulo F.C. e do S.C. Corinthians Paulista.

Algumas explicações dão conta do risco e da falta de conforto dos estádios brasileiros. Tanto a Polícia Militar, TV, especialistas em marketing e dirigentes de clube são unânimes ao apontar razões que explicam a ausência do torcedor nos estádios: o desconforto e o risco.

“Pelas nossas observações, quem vai ao estádio, em sua maioria, é o pessoal das classes

D e E, que tem no futebol sua diversão e fica na geral e na arquibancada”, afirma o major Armando

1 A Agência Golden Goal realizou em 2006 um amplo estudo estatístico tentando descobrir o que leva ou não os

consumidores aos estádios brasileiros, o estudo foi publicado em 2007 sendo denominado “É disso que o Povo Gosta”. O trabalho testa diversas hipóteses sendo que algumas delas serão citadas neste trabalho complementando a análise estatística do autor.

Tadeu Camargo, 43, comandante do 2º Batalhão de Choque da Polícia Militar, que chefia o policiamento nos estádios.

Ele diz ainda que outros fatores afastam o torcedor. ""Aumento no preço do ingresso, aliado

à dificuldade de acesso aos estádios, já que muitos moram na zona leste, os desestimula. Há exceções, como os são-paulinos, público de dois tipos de jogos: clássicos e finais. “E tem a questão da violência.”

Elton Simões, diretor responsável pelos canais "pay-per-view" da Globosat, que exibe torneios nacionais, não crê que o maior número de jogos oferecidos pela TV influa no público nos estádios.

""Nossas pesquisas indicam que a maioria dos assinantes reside a mais de 100 km do local

onde as partidas de seu clube são realizadas. “Então, o “pay-per-view” serve a uma população que

não poderia ir aos estádios”, diz Simões. "“ “Violência, insegurança e falta de conservação e

conforto inibe a ida do torcedor aos locais dos jogos.”.

Até dirigente de clube concorda que as condições das arenas e os serviços oferecidos nele não são ideais. "É questão de racionalidade [não ir ao estádio]. A pessoa tem o trabalho de comprar

o ingresso, deslocar-se ao estádio, passar pela catraca, buscar seu assento. E o que encontra? Banheiros em más condições, perigo de brigas...", enumera o vice de marketing do Corinthians,

Luis Paulo Rosenberg.

Se a falta de público é encarada como problema, por uma outra ótica Marco Aurélio Klein, especialista em marketing esportivo e professor da Faculdade Getúlio Vargas, vê um nicho de oportunidades.

"“ Pelos números do Datafolha, pouca gente vai ao estádio, porém muitos acompanham

futebol pela TV. Isso significa que existe demanda reprimida por futebol. “Há excelentes oportunidades para o futebol, caso ele se organize e proporcione acessibilidade, qualidade e conforto.”

"“ O futebol é hoje entretenimento. Se houver conforto, as pessoas irão aos estádios. “Veja

os cinemas: no passado, tapetes rasgados, iluminação e som ruins afugentavam o público.”

Curiosamente e apesar de todas as dificuldades que o torcedor enfrenta, existem leis que o protegem e garantem direitos mínimos de conforto no estádio e na prestação de serviços, o desrespeito mais flagrante que se encontra nos estádios brasileiros é o desrespeito ao direito do torcedor de ocupar o lugar marcado no estádio desde que este tenha mais de vinte mil assentos.

A visão de Luiz Felipe Santoro, advogado e presidente do Instituto Brasileiro de Direito Desportivo, é de que apenas a promulgação da lei não é suficiente para que o direito seja respeitado; o brasileiro não tem o hábito de ocupar lugar marcado nem tão pouco exige isso em sua

maioria; dever-se-ia, por parte dos clubes já que são eles que são penalizados pelo não cumprimento da lei, estabelecer uma série de processos, com pessoal treinado como monitores para fazer valer o direito e cumprir a lei, acredita, também, que nos setores onde os ingressos são mais caros, as numeradas, talvez seja até, mas fácil, porém, nos lugares ocupados tradicionalmente pelas torcidas organizadas seria mais complicado.

A grande crítica que cabe neste caso é o abandono desta importante fonte de receita, apenas os que nutrem imensa paixão pelo clube se submeterão aos desconfortos e dificuldades que assistir a um jogo de futebol pressupõe. Desta forma, os clubes não negligenciam apenas as receitas diretas conseguidas na bilheteria, mas também se esquecem que é este o mais importante vetor de relacionamento do público com o seu clube, é por meio do acompanhamento “in loco” é que se consome o produto futebol “in natura” sendo este o mecanismo mais eficiente de aumento de adesão, fidelização e incremento do consumo de demais produtos associados.

Um outro resultado deste abandono é que as fontes predominantes de receita adquirem, como maiores compradores, maior poder de negociação perante os clubes, nesta situação, as receitas advindas destas tendem a ser menores ou aos clubes são impostas condições de negociação e configuração do produto desfavoráveis.