6. CONCLUSIONS AND RECOMMENDATIONS
6.2 R ECOMMENDATIONS
6.2.1 Oil revenues for funding poverty research
Ele é essencial à verdade: é ele que permite a aplicação da lógica à realidade da história, em outras palavras, que permite
a compreensão dos discursos concretamente sustentados pelos homens no passado e no presente. (WEIL, 2012, p. 123).
Juntamente com a atitude e a categoria, a retomada faz parte dos “[...] princípios da hermenêutica weiliana” (BOBONGAUD, 2011, p. 55). A atitude, essa maneira de ser e de agir, toma consciência de si e se expressa num discurso pela categoria-expressão, que é justificação da sua tomada de posição. A retomada, por outro lado, busca organizar a linguagem que busca compreender a passagem de uma situação à outra, como uma nova situação.
No início de uma nova época – no momento em que um novo interesse, ao querer destruir um mundo envelhecido, organiza um mundo novo -, é, portanto, uma antiga categoria que apreende uma nova atitude e fala da noca categoria, e ao falar a seu respeito também a esconde e deturpa. O homem retoma (para nós que, ao chegar mais tarde, conhecemos a categoria que ele está apenas desenvolvendo) um discurso que, em sua situação, ele já ultrapassou, e pode-se dizer que todo o trabalho de uma lógica
aplicada à filosofia consiste na apreensão dessas retomadas de antigas categorias que formam a linguagem e os discursos (não coerentes, embora se pretendam coerentes) dos homens. (LF, 2012, p. 122-123.)
Aquilo que foi tomado no discurso e que denominamos categoria, não dando conta de expressar uma nova realidade, uma nova situação a ser compreendida é retomada agora com o intuito de:
A) Apreciar uma atitude nova sem uma linguagem também nova, ou melhor, quando
uma atitude elabora seu próprio discurso na linguagem de uma categoria que não é a sua.
B) Justificação, como expressão de uma nova atitude.
Apreciar e justificar constitui um nível da retomada, uma vez que dizem respeito ao processo de elaborar um discurso diante de uma nova atitude. O segundo nível diz respeito a uma nova atitude retomando a outra, subordinando-a.
Ora, o conceito de retomada é importante porque garante a abertura do discurso e a filosofia como filosofar, como processo, uma vez que a retomada é a busca de compreensão de um mundo novo, por parte do homem, que se utiliza de discursos antigos diante da nova situação. Todo o trabalho da lógica é a relação atitude-categoria, mas seria insuficiente se permanecesse nessa polaridade porque ela mesma é frágil para expressar a articulação dos discursos sobre o real. Assim, novamente, todo o trabalho da lógica é compreender a relação atitude-categoria e as retomadas de antigas categorias, sendo assim na Lógica da Filosofia há a exposição das categorias filosóficas, irredutíveis e compreensíveis. (LINS JÚNIOR, 2012, p. 115).
As categorias, “[...] presentes implicitamente em todo discurso humano [...]” (KIRSCHER, 1992, p. 44) são retomadas para desenvolver, para aplicar a filosofia à história ou ainda, dito de outro modo, para permitir a compreensão da história. Assim, há a retomada para se compreender a situação presente e, para tanto, enquanto não há um discurso adequado para expressar o novo, usa-se o discurso ou a categoria antiga, que se tem, para expressar, compreender, apreciar, justificar uma nova atitude. Essa nova leitura, acaba por subordinar a antiga diante da nova categoria. Segundo Kirscher,
[...] os homens retomam um discurso antigo para compreender sua situação presente, eles retomam uma categoria ultrapassada para pensar sua atitude atual. A retomada (de uma categoria retomada) define a condição de todo pensamento concreto na história. [...] Segundo a Lógica da Filosofia, filosofar ou compreender, será então, para toda atitude, elaborar sua categoria, e não somente retomar uma ou outra categoria logicamente anterior. Uma perspectiva nova se abre à leitura crítica dos filósofos. Compreender uma filosofia ou um discurso qualquer é mostrar as retomadas feitas. (Id., Ibid., p. 47)
O conceito de retomada é o que permite a aplicação da lógica à realidade histórica porque um mundo novo se constrói, mas a sua compreensão, em sua novidade, se dá nas ruínas do mundo antigo. Se tomarmos a filosofia como filosofar, como compreender, o que é característico do pensamento de Weil, se tomarmos a filosofia como processo em que o questionamento se instaura para compreender o sentido dos discursos sobre a realidade, a retomada é, então, uma volta ao discurso que dispomos sobre uma realidade antiga, ou retomar as antigas categorias para relacionar com a nova situação. Ela permite, assim, que o homem compreenda os discursos do passado e sua relação com o presente enquanto nova situação.
Há, essencialmente, dois empregos do termo, como assinalamos. De uma parte, há um sentido de retomada quando uma atitude elabora sua própria compreensão na linguagem que não é a sua. Na maior parte dos casos trata-se da linguagem de uma categoria ultrapassada e este é o caso normal: a nova atitude se exprime e toma consciência dela mesma se opondo ao seu mundo, ao mundo no qual ela se encontra e que ela se entendeu no discurso que tinha elaborado.
Em outras palavras, a nova atitude começa por se formular na linguagem própria da categoria do mundo em que ela quer se separar. Ela retoma a categoria antiga, retoma a linguagem de uma categoria para formular um novo mundo, uma nova categoria. Note-se que novo mundo não quer dizer mundo original, ou seja, a nova situação, embora não seja acompanhada de uma linguagem que possa lhe expressar em sua novidade, não é, também, original. Uma originalidade no sentido de uma novidade total não existe em filosofia, nem na história. Tal originalidade, ainda, seria como pensar um mundo inusitado, diferente de tudo o
que se viu, imaginou ou compreendeu. Não ocorre assim na filosofia que está sempre retomando conceitos da tradição para a compreensão do que acontece na atualidade.
A retomada, nesse primeiro emprego, é a elaboração progressiva de uma linguagem que lhe seja adequada para a compreensão de atitudes novas, diferentes. Ora, gerando-se numa linguagem já ultrapassada, a nova categoria começa por tomar feições próprias e a retomada é esse intermédio de linguagens.
A nova categoria tem um discurso distinto, mas depois de fazer sua retomada de velhos conceitos, velhos discursos até a elaboração do seu próprio. A nova categoria usa da plasticidade da linguagem para dizer o real, para expressar a nova situação, já que os termos antigos são insuficientes para descrever o que se apresenta. Ora, nossa vida deixa de ser o que era não apenas porque as situações mudam, mas também pelo fato de mudar o modo como vemos e expressamos essas situações. Uma comunidade, marcada por valores tradicionais, sagrados, vê a sua transformação diante de si e aquilo que constituía esse mesmo conjunto de valores marcados pela proximidade e pela transcendência, altera-se para uma sociedade do
trabalho, da velocidade e da imanência.95
O segundo modo da retomada é quanto uma categoria retoma outra, subordinando-a, como assinalamos anteriormente. Isso significa que o ponto de vista, o problema ou a forma de discurso próprio a esta última encontram um lugar subordinando o discurso organizado pela categoria sob a qual se organiza a retomada.
A retomada trata das novas atitudes, buscando em uma linguagem antiga uma nova para a compreensão, como também diz respeito à subordinação de uma nova categoria para compreender uma nova tomada de consciência. A retomada é importante na dinâmica da Lógica da Filosofia por tratar da passagem de uma categoria á outra.
“A passagem de uma categoria à outra é livre, isto quer dizer que do ponto de vista da primeira não se compreende mesmo essa passagem, é insensata, enquanto que, do ponto de vista da segunda, ela é, ao contrário, necessária.” (CAILLOIS, 1953, p. 286). Assim, não há uma dedução que permita compreender a retomada, já que não há um encadeamento necessário que regule a relação entre uma categoria e outra. A progressão de uma categoria à outra, a passagem de uma à outra é livre. Ela só é necessária quando uma categoria nova volta-se para a anterior.
95 Cf.: Tanto Bertman (2001), quanto Lipovetsky (2006) são exemplos de exposições das mudanças que marcam
a realidade contemporânea a partir de perspectivas distintas, pela história e pela sociologia, para ilustrar o esforço constante e radical da busca pela compreensão do real.
Da categoria primeira para a segunda há possibilidade, portanto é livre; já da segunda para a primeira, depois de efetuada a retomada e depois da formação da própria categoria, há uma necessidade, nos limites que podemos usar essa palavra quando se fala em filosofia e história. A fonte da Lógica é a história, embora não seja um trabalho de história da filosofia.
Ora, pensa Weil,
[...] não podemos aqui, [...] fazer um trabalho de historiador da filosofia. Isso exigira não apenas uma análise de filosofias históricas e, tarefa das mais importantes, das interpretações sucessivas que elas encontraram, mas suporia que a lógica da filosofia fosse completa. (LF, 2012, p. 242)
A Lógica da Filosofia completa significaria que as retomadas não são mais possíveis, ou ainda que o processo teria chegado ao término, o que não é possível pela própria dinâmica da Lógica porque ela permite em sua abertura um constante movimento de re-interpretação dos discursos sobre o real a partir do que foi dito e interpretado. Assim, não haveria um ponto final, uma última instância ou um posicionamento que fecharia o processo. A filosofia é histórica porque historicamente o homem põe a si mesmo as questões de sentido tanto de sua vida como das suas práticas, como também sobre os discursos que pemitem que ele se compreenda nessa vida e nas suas práticas. Há filosofia porque há, continuamente, a questão do sentido.