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G OVERNMENTAL INSTITUTIONS WITH ROLES IN POVERTY ANALYSIS

3. INSTITUTIONAL CAPACITY FOR POVERTY ANALYSIS

3.4 G OVERNMENTAL INSTITUTIONS WITH ROLES IN POVERTY ANALYSIS

O último artigo desta coletânea, o famoso Le cas Heidegger48, servirá de porta de

entrado ao nosso problema nessa obra. A crítica de Weil ao filósofo autor de Ser e Tempo, localiza-se no seio de sua filosofia como transcendental e desta forma visa uma reflexão que

tende do indivíduo ao ser. Diz Weil: “O existencialismo de Heidegger é uma filosofia da

reflexão que, como toda filosofia da reflexão, tende do indivíduo para o ser. Ela torna-se assim

necessariamente filosofia transcendental, busca das condições de possibilidade da experiência”

(PR II, 2003, p. 262)

Qual o sentido da afirmação? Weil explica:

Sua filosofia é uma filosofia da reflexão e isto basta para mostrar que ele se engana, ou quer se enganar se ele dá razões filosóficas à sua escolha política. Filosoficamente,o filósofo transcendental não pode fundar sua decisão política, ele pode, no máximo, constatar que certas escolhar lhes são interditas, se ele quer ser consequente consigo mesmo: por exemplo, ele não pode subscrever a uma teoria política que faz do homem, fonte da verdade, uma coisa no mundo. Portanto, ele não detém deste modo uma regra positiva de conduta – por uma razão muito simples, a saber que em política nunca é o indivíduo, mas uma comunidade histórica ou a próxima, e que sua filosofia transcendental, não há nenhum meio que permita decidir qual é a comunidade – povo, Estado, raça, humanidade, civilização, para apenas citar qualquer possibilidade – que, sobre o plano histórico, é a comunidade decisiva. (PR II, 2003, p. 262).

Embora a discussão do caso Heidegger não seja o foco de nossa empreitada, no artigo citado não se menciona o termo sagrado, por exemplo, podemos ter presente que o cerne da crítica de Weil pode ser pensada como:

48 Sobre Le cas Heidegger: Em 1947, a revista Les temps modernes, publica 05 artigos sobre Heidegger,

principalmente motivada pelo fato da atualidade da obra do filósofo alemão e pelo sucesso do existencialismo sartreano. Dos cinco artigos, três deles (Maurice Gandillac, Karl Löwith, Éric Weil) fazem um julgamento negativo. Alphonse de Waelhens e Frédéric de Towarnicki tentam absolvê-lo. Cf.: Delacampagne (1997, p. 158). O texto Le cas Heidegger é composto de quatro partes. “Éric Weil se coloca sobre o plano da responsabilidade política individual e examina as justificações que Heidegger forneceu para a sua tomada de decisão, já à época claramente comprovadas em favor do nacional-socialismo e de seu Führer. A conclusão de Weil é avassaladora: não somente a defesa “falta”, mas, é bem mais grave, recusando reconhecer sua “responsabilidade sobre o plano da ação”, “tudo o que ele alega só é subterfúgio e impostura.” [...] A terceira parte se interroga [...] sobre as relações entre a filosofia de Heidegger e seu engajamento político [...]. A tese de Weil é clara: não há relação interna entre o existencialismo de Heidegger e o nazismo. [...] Para Weil, o discurso transcendental peca por um formalismo que o torna incapaz de apreender o homem na sua história concreta.” (GANTY, 1997, p. 111-114). Essa posição crítica de Weil permite conclusões como a de Mascaro (2012, p. 388): “muitas interpretações sobre a abertura das possibilidades existenciais na filosofia heideggeriana buscaram habilitar uma espécie de vaga consideração moral ao apontar o autêntico e o inautêntico como horizontes possíveis para que se possa dar como sentido ao ser. Jean- Paul Sartre, por um viés as vezes mais próximo do marxismo, e Karl Jaspers, por um ângulo humanista, buscaram inscrever na filosofia de Heidegger, uma virtude de posicionamento no mundo que, no entanto, ela não tem. Ocorre que, para a filosofia – e também para o direito – Heidegger não oferece uma tábua moral de existência autêntica.”.

A) A filosofia de Heidegger não possibilita justificar suas decisões políticas, a associação ao nacional-socialismo não se deduz de Ser e Tempo, porque

B) sua filosofia não fornece uma “tábua moral da existência”49.

Esse artigo trata, em suma, de conclusões que são possíveis à partir de critérios. Segundo Weil, a filosofia de Heidegger não fornece critérios axiológicos para tal empreendimento e, ao tratarmos de critérios adentramos por baixo de toda discussão da questão que perpassa o pensamento de Weil e que, segundo apresentamos, constitui seu esforço: não só compreender a realidade, mas também levantar critérios para se orientar moralmente na mesma realidade.

No volume que ora nos detemos, diferente dos anteriores, são poucas as citações explicítas sobre o sagrado. O problema perpassa as páginas, assumindo ou reafirmando as mesmas preocupações, o que confirma não apenas que as características do conceito do sagrado constituem para Éric Weil elemento de decisão e que, mesmo não tematizados demoradamente, são elementos que que se fazem presente em suas páginas no decorrer do tempo.

Assim, no texto Les fondements de la philosophie é a noção de valor que possibilita uma distinção entre o discurso científico e o filosófico. Ora, “[...] a ciência tem a ver com a verdade

e o erro; a filosofia, se se tem que usar essa palavra, tem a ver com o sensato e o insensato.”

(PR II, 2003, p. 18).

Qual a questão do sensato e do insensato, senão uma questão teórica e prática?

Para o cientista, por exemplo, como poderá, se quer permanecer fiel ao seu discurso, escolher entre “Gêngis Khan e o Buda, o Cristo e Hitler.” (PR II, 2003, p. 18). Assim,

[...] não há diferença entre o bem e o mal para o homem da ciência: ele só conhece as diferenças que fazem outras pessoas entre as coisas, as atitudes, as ações boas e más, ele sabe o que o bem e o mal significam para elas: à seus próprios olhos, estes termos

49 Há de se notar que há, como no passado, um esforço em ler o pensamento de Heidegger, na perspectiva de uma

“moral da finitude”, conforme Loparic (2000, p. 65-77). Há também uma “ética do cuidado”, claramente inspirada em Heidegger, segundo a perspectiva de Boff (1999, p. 45-46); como também Boff (2009, 22-23 e 29). Há, no entanto, outras perspectivas, como Heimsoeth (1982, p. 113),diz que “enquanto que, porém, em Heidegger o problema moral – que para Kierkegaard fora decisivo e na filosofia de Nietzsche permanente – ficou sempreem plano secundário, em outras correntes da Filosofia existencial ocupa esse problema o primeiro lugar.” Ver ainda: Heinemann (1993, p. 427): “A moderna filosofia da existência e ontologia fundamental de Heidegger recusa a utilização da palavra valor para o ser e para o ente. O motivo reside no fato de Heidegger falar de um “valor para” no sentido do valor de relação e valor subjetivo de utilidade. Quer precisamente superar essa subjetividade. Contudo a sua exortação para que o homem deva passar da inautencidade à autenticidade, da quotidianidade à existência como transcendência, trai uma exortação, embora inconfessada, a uma realização valorativa. Por fim, “Heidegger não dedicou senão uma atenção secundária aos problemas éticos, mesmo na segunda fase de seu itinerário filosófico, a partir da famosa kehre (reviravolta) de 1934. No seu texto mais explícito a respeito, a Brief

über den Humanismus (Carta sobre o Humanismo, 1947), ele se refere ao retorno a uma ética originária a partir da significação primitiva do ethos no pensamento pré-socrático, mas a essa ética restaram apenas alusões.” São expressões de Vaz (1999, p. 427) sobre a questão.

não tem uma significação definível para além de sua função de categorias descritivas. (PR II, 2003, p. 18.)

Os dois traços definidores, se podemos usar essa expressão, para o julgamento de Éric Weil é que ele deseja filosofar, ou seja, seu pensamento é antes uma dinâmica de compreensão. É a filosofia de herança kantiana. Ora, essa compreensão quer transformar a realidade.

Compreender e agir – eis o binômio, mas transformar pela compreensão (PR II, 2003, p. 23).

“Qual o fundamento da filosofia? A vontade de filosofia, isto é, de compreender o que

é – com todas tensões, suas contradições, com toda sua violência e seus esforços para renunciar

à violência. A filosofia, diria um crítico irônico, é seu próprio fundamento.” (PR II, 2003, p. 25).

Essa vontade de filosofar, o que constitui a dinâmica do pensamento de Éric Weil como temos exposto tem duas visões. Uma primeira é teórica e com isso queremos dizer que a filosofia é o filosofar para compreender, para dizer uma palavra com sentido sobre a realidade. Essa vontade de compreender, evidentemente, separa o pensamento de Weil de uma philosophia perennis, que para ele seria mais uma “quimera ou um cadáver” (PR II, 2003, p. 63) e se compreende como um filosofar histórico, ou seja,

A filosofia é histórica porque ela é científica, porque é unicamente na sua compreensão e diante de sua questão que, senão, unicamente tornou-se compreensível sua própria unidade e se pensa agora – e ela é científica porque, enquanto tornou-se válida, enquanto nascida do homem, enquanto que eternidade mortal no homem, ela se justifica diante de seu próprio tribunal, aquele do ser em sua totalidade, tão frequentemente que é convocada pelo indivíduo. (PR II, 2003, p. 64).

A segunda visada da vontade de filosofar é prática. Podemos dizer que Weil pretende, na abrangência de sua obra, pensar a teoria, a razão dos antigos e a liberdade dos modernos. Ela, a filosofia, quer compreender mas não se trata de um discurso sem critérios morais, pelo contrário. Trata-se, antes de, no exercício do pensar, lidar com uma ação razoável. Eis a razão da violência ser o problema para a filosofia. Não se trata de uma questão teórica, mas teórica- prática, já que a violência é um problema para a razão, como também para a liberdade; a questão filosofia-violência põe em evidência não apenas o discurso, enquanto tal, como também a prática decorrente do discurso.

Essa dupla visada diz respeito, tal como temos desenvolvido, ao sentido do sagrado –

uma visada teórica e prática. Esse sagrado que temos tratado em tão variadas situações e em

contextos tão diversos, é compreendido como aquilo que é essencial – da visada teórica e prática

ser tão fundante, o sagrado é apresentado nos diversos textos como aquilo que dá sentido até

àqueles que perdem suas vidas por ele50.