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9. Policy and decision making

10.2 Finance

10.2.5 Oil dependency

Os nomes adotados pelas associações fundadas em Pelotas na última década do século XIX deixam transparecer que havia uma necessidade de defesa dos interesses dos oriundos do cativeiro e seus descendentes, o que se manteve com o surgimento das associações diretamente vinculadas a representação e luta política em torno de causas próprias a parcelas da comunidade negra. Nesse sentido, encontraram-se referências ao

Centro Ethiópico, fundado ainda durante a escravidão, mas que se manteve até 1895 e

ao Clube José do Patrocínio, surgido em 1905 e mantido até 1911. Porém, entre este

segmento, damos destaque ao Centro Ethiópico Monteiro Lopes100, o qual foi criado aos

seis dias do mês de março de 1909 em reação à possibilidade de recusa em dar assento

100 Este Centro não deve ser confundido com o Centro Ethiópico criado ainda durante a escravidão,

ao deputado federal Manuel da Motta Monteiro Lopes em virtude do mesmo ser negro, alcançou importante respaldo entre a comunidade negra pelotense (TAVARES, 2005). Assim, a passagem a seguir sintetiza a criação e destaque conferido a esse centro:

[...] Encontravam-se quatro homens em palestra sobre a política nacional quando veio a baila o nome do Dr. Monteiro Lopes, recém eleito deputado federal, e segundo afirmavam não seria reconhecido pelo fato de ser de cor

negra. O grupo [...] era constituído de José da Silva Santos, Modesto Passos

Barcelos, Balbino Conceição da Silva Santos e o rabiscador destas linhas [Rodolfo Xavier].

Em sinal de protesto, interpretando o desagravo da raça preta no Rio Grande do Sul, foram, na ocasião, redigidos dois telegramas e enviados, um a Câmara dos Deputados e outro para o Senado. [...]. Fez-se um apelo aos ‘homens de cor’ pela ‘A Opinião Pública’, convidando para uma grande reunião, e na noite do dia 6 de março de 1909 na sede da S. R. Flores do Paraíso e suas adjacências compareceram para mais de trezentas pessoas, solidarizando-se com a causa [...]. Aclamados pela Assembléia − presidente e secretário − respectivamente, José da Silva Santos. Por proposta do presidente foi dado o nome à organização que se fundava de ‘Centro Ethiópico Monteiro Lopes’ em defesa de seu patrono (grifo do autor, A

Alvorada, 7/07/1952, p. 1).

A mobilização frente à recusa em dar assento a este deputado, além do fato de o mesmo ser negro, estava em que este sintetizava os anseios de boa parcela dos negros brasileiros se verem representados na constituição de políticas nacionais. O Centro, que teve como um de seus idealizadores Modesto Passos Barcelos, funcionou junto à sede da Associação Recreativa Flores do Paraíso, da qual o referido idealizador era membro. Este projeto dos negros pelotenses teve respaldo não apenas na cidade, mas também em suas adjacências, o que evidencia, a manutenção de uma rede de movimentação em prol dos direitos dos negros, em toda a região sul.

Esta rede de movimentação social foi seguida aqui na percepção conferida por Scherer-Warren, visto ser o resultado de todo um processo articulado ao longo do tempo, mas que então tomou dimensões que extrapolaram uma ou outra associação, aglutinando sujeitos identificados com a causa racial em sua perspectiva política. De acordo com a referida autora “rede de movimento social” enquanto conceito “pressupõe a identificação de sujeitos coletivos em torno de valores, objetivos ou projetos em comum, os quais definem os atores ou situações sistêmicas antagônicas que devem ser combatidas e transformadas” (SCHERER-WARREN, 2006, p.113).

Nesse sentido, evocamos ainda a ideia referente aos espaços de discussão em prol de melhorias sociais a comunidade negra, presente em Arilson Gomes (2008). O autor ofereceu uma interpretação das movimentações dos negros enquanto constituintes

de oásis. Embora o objeto do autor fosse uma rede de movimento social posterior, o movimento frentenegrino e os congressos negros ocorridos entre os anos de 1931-1958, com destaque para os congressos ocorridos em Porto Alegre (RS), o mesmo alertou para a unidade em prol de uma causa comum − o fim do preconceito em diferentes instancias. Enquanto que, os preconceitos foram referenciados como espaços de deserto. Assim, o referido autor destacou:

Esse “oásis” que estamos fazendo referência somente passou a existir em decorrência dos esforços e perseverança dos homens que lutaram por um mundo melhor. Reconhecemos nessa dissertação, como “desertos” o racismo, preconceito e as discriminações sofridas por qualquer ser humano, neste caso, conforme citado anteriormente, mazelas que atingem diretamente a população negra (GOMES, 2008, p. 22).

Entre as cidades que mantiveram associações formais de apoio a posse de Monteiro Lopes e que estiveram diretamente ligadas à movimentação social que começou a irradiar-se a partir do Centro Ethiópico Monteiro Lopes em Pelotas, encontravam-se Rio Grande (Clube Monteiro Lopes), Bagé (Centro Monteiro Lopes) e Santa Maria (também intitulado Centro Monteiro Lopes). A Análise realizada por Viviani Tavares (2005) alertou ainda para o fato de que a irradiação efetiva proporcionada pelo Centro

Ethiópico Monteiro Lopes em Pelotas, não se restringiu as cidades da zona sul,

ultrapassando as fronteiras nacionais, com repercussão no Uruguai. O centro pretendia- se não apenas de mobilização política, mas enquanto espaço de convivência aos seus membros, visto tentar manter em sua sede uma biblioteca própria. Depois de idas e vindas de processos comuns às eleições da República Velha, o deputado foi finalmente empossado em abril do mesmo ano. Em janeiro do ano de 1910 o então deputado esteve na cidade de Pelotas como forma de agradecimento ao empenho em prol de sua posse (TAVARES, 2005).

As motivações dos negros pelotenses em dar apoio à posse de Monteiro Lopes, parecem ter alcançado resultados, ou no mínimo, o deputado identificava-se com a causa. Conforme podemos perceber em carta enviada pelo mesmo, ao redator do jornal

A Alvorada e um dos idealizadores do centro, Rodolfo Xavier, cerca de um ano após a

mobilização pelotense e transcrita nas páginas do referido jornal sob o título “Carta de Monteiro Lopes para Rodolfo”. Embora seja longa a transcrevemos:

“Camara dos Deputados – Rio 2 de maio de 1910. Meu caro Rodolpho.

Recebi tua cartinha acompanhada do teu jornal “A Alvorada”, um valente periódico que serve de grito de tua alma indignada, e que vale pelo brado de alerta.

Canta-se bem o evangelho de minha missa para a defesa da pátria, que nada mais é do que Republica, isenta e limpa de preconceito de raças.

A Republica é nossa porque ela é o resultado do 13 de Maio e quem fez o 13 de Maio foi o genial José do Patrocínio.

Porque pretendem nos excluir da grande comunhão nacional, nós que temos honrado a nossa bandeira defendendo com galhardia e denodo a integridade da nação?!

Infelizmente meu caro amigo, na nossa terra há ainda quem tenha ideia, de imaginar que pó de arroz ilude a natureza.

Sabe o que é isso? Falta de instrução...

È por esta razão que bendirei sempre o nome de Augusto do Benemérito presidente do Rio Grande do Sul, Dr. Barbosa, que corajosamente fez admitir em Pelotas e na cidade do Rio Grande dois meninos de cor preta, em estabelecimento de educação superior.

É que o velho republicano que governa atualmente esse glorioso estado (minha terra adotiva) entende que país só é grande pela instrução de seus filhos.

Procura incutir no ânimo dos nossos irmãos ai, o amor e a dedicação ao Dr. Barbosa, lembrando á todos, que foi ele quem quebrou o preconceito de não se admitir meninos de cor preta nos ginásios do Rio Grande do Sul.

Para mim a gratidão e um sol de justiça.

É preciso que os sucessores d’este grande republicano lhe imitem este exemplo.

Aceita os meus cumprimentos e transmite os abraços de fraternidade aos velhos dedicados companheiros.

Monteiro Lopes” (A Alvorada, 6/03/1932, p. 1).

O episódio envolvendo a posse do deputado federal foi elucidativo a fim de compreendermos não apenas o associativismo negro em Pelotas, mas também, e principalmente as formas que conduziam a manifestação de uma identidade negra. Identidade esta fruto de uma época e que assim, adotava características peculiares. Nesse sentido destacamos a invocação do termo “etiópico”, seguido por “homens de cor” e “cor preta“, como sinônimos do atualmente invocado como o generalizante “negros”. Estas características e os adjetivos empregados faziam referência a um momento especifico da movimentação negra nacionalmente. De acordo com Domingues (2007) A primeira fase, centrada entre os anos de 1889-1937, caracterizou-se pela ideologia nacionalista, alinhados às forças de direita, enquanto posição política; auto- identificando-se enquanto homens de cor, pretos, patrícios e/ou Etiópicos. Pregava-se o afastamento da cultura de origem em relação com a cultura negra, em direção à

mestiçagem, e tendo como data de comemoração o Treze de Maio101.

101 Já a segunda fase manteria a ideologia nacionalista, encarando o problema enfrentado pelos negros

Nesse sentido a transcrição anterior evidencia o alinhamento com as forças de direita, em função de seu apoio a medidas repressivas ao preconceito no meio mais caro aos identificados com o elevamento moral dos negros, ou seja, a educação, através do apoio do deputado federal ao então presidente do Rio Grande do Sul e incentivo a que todos o apoiassem. Destacamos ainda o invólucro que por anos, cobriu a data do 13 de Maio, enquanto demonstração da derrocada do sistema monárquico. Porém, a passagem transcrita, criticava as medidas pró-mestiçagem e branqueamento, ao referir-se aos negros que se utilizavam do pó de arroz como negação de sua cor, isso era, segundo o escritor da missiva, uma demonstração da falta de instrução de seus co-irmãos. Esta negação coloca-se, a nosso ver, enquanto característica principal da manifestação de uma identidade negra, que valorizava a cor dos negros e buscava uma positivação deslocando a critica para o efetivamente considerado importante, ou seja, a busca pela instrução102.

Estas características foram encontradas e acionadas em momentos específicos, conforme pontua(re)mos ao longo do trabalho. Porém, foi possível destacar a abrangência que o próprio termo “Monteiro Lopes” passou a ter, visto serem comuns expressões como a raça de Monteiro Lopes, em referência aos negros. Acionavam-se

assim características que assinalavam, uma positivação da identidade103. Não evocavam

o período anterior, ou seja, a escravidão, provavelmente devido à carga pejorativa e de

em relação com a cultura negra existiria uma ambigüidade latente, pregando por vezes o afastamento da cultura de origem, em direção à mestiçagem, mas, também reverenciando alguns termos como samba/capoeira/religião afro e teriam como data de comemoração o Treze de Maio. A terceira fase (1976- 2000) seria internacionalista, o problema do negro seria diaspórico, busca-se então estabelecer uma conexão entre o problema do negro nos EUA e na África (afrocentrismo); auto-identificando-se enquanto negro e/ou afro-brasileiro. Posicionavam-se contra a mestiçagem e em defesa da cultura negra, surgindo nesse contexto o 20 de novembro como data de comemoração no qual Zumbi aparece como herói nacional, tendo-se ainda a explosão da imprensa negra. Informações obtidas no mini-curso ministrado por Petrônio Domingues e José Antonio dos Santos, intitulado “O negro no pós-Abolição: organização e luta”, entre os dias 15 e 20 de julho de 2007 no XXIV Simpósio Nacional de História. Uma análise do mesmo assunto pode ser obtida em DOMINGUES (2007).

102 Nesse sentido destacamos ainda, que a carta foi transcrita em 1932, ano em que começa a se articular a

campanha pró-educação, desenvolvida pela Frente Negra Pelotense, da qual o jornal A Alvorada foi o porta-voz. Abordaremos essa campanha no próximo capítulo.

103 Esta expressão, enquanto acionadora da identidade negra positiva, pode ser encontrada mesmo após a

manutenção do Centro, como por exemplo, em uma carta enviada por um também deputado, o classista Carlos Santos, em 1932 ao jornal A Alvorada na qual consta a seguinte passagem “Bailes – são os faróis majestosos conduzindo a mocidade da estrada recurvada do progresso moral e material da raça de Monteiro Lopes, e a mocidade dança esquecida de que é, muitas vezes, na coragem louca dos tangos e das valsas, é no Jazz – mania com os pés os louros dourados que, si não estivessem espalhados pelo chão formariam a grinalda belíssima que deveria cingir a fronte brônzea do negro glorificando-o pela sua altivez, elevando-o pela grandeza de seu valor moral“ (A Alvorada, 5/05/1932, p. 2). Encontramos ainda a presença da expressão Monteiro Lopes em um time de futebol, o qual provavelmente possuía jogadores negros, visto o encontrarmos em atividades junto à Liga de Futebol Independente José do Patrocínio, intitulado Sport Club Monteiro Lopes, o qual, segundo LONER (2008, p. 260), teria funcionado entre os anos de 1913 e 1927.

preconceito ainda vivenciada em grande medida, mas buscavam, através de exemplos que traziam consigo não apenas o estigma da cor, mas principalmente a demonstração de que aos negros era possível ascender às posições reconhecidas positivamente frente à sociedade em geral. Assim, buscavam incutir valores considerados por eles positivos a comunidade de seus irmãos de cor, isto ficou evidente ao atentarmos para o fato de que a carta de Monteiro Lopes foi transcrita novamente na edição de seis de março do ano de 1932, ou seja, passadas mais de duas décadas do acontecido, esperava-se que o

ocorrido incutisse valores positivos na comunidade negra pelotense104.