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K OGNITIV EVALUERINGSTEORI (CET)

Como vimos no tópico anterior, foi em 1962 que se inicia a tão-falada “gestão

japonesa” da Usiminas. Gestão essa que, do ponto de vista estrito, durará bem menos

tempo do que se pode imaginar, a levar em consideração a importância que se dá, ainda hoje, à “herança japonesa”. Os engenheiros japoneses que treinaram os “samurais” e vieram ao Brasil para ocupar os postos-chave da usina, além de técnicos e operários japoneses que vieram para dar apoio na partida na Usiminas, ficaram cerca de dois anos apenas. Depois, retornaram à Nippon Steel.

Apesar disso, a participação dos japoneses é considerada em diversas narrativas como fundamental para a construção da “Cultura Usiminas”, cuja característica “nipo-

brasileira seria uma das facetas mais importantes, associada indistintamente com seu modelo de gestão. Um dos fundadores exalta a participação dos japoneses no fragmento seguinte.

O tempo da presença física dos japoneses, de dois anos e dois meses, foi uma evidente

demonstração de desinteresse pessoal, uma prova de amor à pátria e uma prova de consideração ao Brasil. Os japoneses fizeram isso aqui com o coração, tanto quanto

nós, brasileiros. É preciso entender o japonês. Eles fizeram disso uma coisa de honra. A presença japonesa foi excepcional! A herança japonesa na Usiminas perdura até hoje. (VERANO, 1987, p. 12). (Grifos meus).

O exagero de Verano (1987) no trecho do depoimento anterior é evidente. Os japoneses eram empregados da Nippon Steel, que foram enviados ao Brasil para executar um trabalho em uma usina da qual seu empregador era sócio. Segundo outras narrativas, um trabalho muito bem pago, por sinal. Desse acontecimento, o fundador tira as seguintes qualidades, que passam a ser atribuídas de forma genérica a todos os

japoneses: “demonstração de desinteresse pessoal”, “prova de amor à pátria” (japonesa,

no caso), “prova de consideração ao Brasil” e uma “coisa de honra”. Todas essas

qualidades são reunidas como uma “herança japonesa”. Ou seja, na fala do fundador

transcrita acima ele atribui essas qualidades aos japoneses e, ao mesmo tempo, afirma que eles deixaram esse legado à Usiminas.

Não deixa de ser curioso, no entanto, que, da mesma forma que no Japão feudal havia duas castas distintas, a de samurais e a de camponeses, em Ipatinga havia japoneses e japoneses. A notícia da construção de uma empresa com participação japonesa no interior de Minas Gerais correu o Brasil e atraiu muitos descendentes de imigrantes que deixaram a lavoura para trabalhar na construção da usina.

Esses japoneses, ou descendentes de japoneses, os “japoneses paulistas” nunca foram reconhecidos pelos mineiros de uma forma especial, nem valorizados por sua cultura, honra, lealdade ou dedicação. Eram vistos como mais um grupo de trabalhadores braçais, em busca de oportunidades, sem que sua origem os distinguisse em nenhum aspecto. Portanto, antes da chegada dos japoneses engenheiros, técnicos e operários ligados à operação da usina, em 1962, muitos japoneses operários da construção civil que acorreram a Ipatinga para trabalhar na montagem da usina já estavam por lá. Sem que tivessem despertado nenhuma comoção especial.

“Muitos japoneses daqui, os nisseis, vieram de São Paulo. Como a Usiminas foi a

primeira empresa que o Japão implantou no pós-guerra, os nisseis que estavam trabalhando na agricultura em São Paulo vieram para cá.” (GF)

“Os japoneses vinham e ficavam no máximo dois anos. Mas tinham japoneses em

Ipatinga que veio de São Paulo e ficaram por lá. Na época da montagem tinham

japoneses demais, mas eu estou falando da época operacional. Como a empresa era

nova pegava gente de todo lado.” (ENTREVISTADO 17)

Esse fragmento é interessante: o vocábulo “japoneses” é usado para designar dois grupos diferentes, na mesma frase. E, quando se refere aos japoneses de São Paulo,

volta a aparecer o advérbio “demais”, que teria sido usado pelos fundadores da Cosipa.

Ou seja, reforça-se a ideia de que os japoneses, por si sós, não traziam consigo, à época, esse simbolismo que carregam hoje e que foi construído ao longo do tempo na Usiminas. Além disso, o fato de a Usiminas “pegar gente de todo lado” é também usado em sentido pejorativo. Em diversos outros depoimentos, geralmente justificando o excesso de disciplina implantado na empresa, os empregados explicam que, na época,

“apareceu todo tipo de gente”.

“Os japoneses legítimos, que vieram do Japão, eles eram os fornecedores dos equipamentos.” (GF)

“O japonês legítimo não ficou aqui, tinha um sistema de alimentação diferente, esporte, judô. Eles têm disciplina, japonês em si, uma cultura milenar, quando eles pegam um negócio para fazer [...]” (GF)

Vemos, portanto, que, enquanto os japoneses “legítimos” eram considerados um povo sábio, milenar, culto e honrado, os ditos não-legítimos, agricultores transformados em operários, eram totalmente desprovidos desse capital simbólico. Estes, coitados, não tinham nenhuma cultura por trás, eram apenas mais um grupo a formar a massa de homens que construiu a usina e a cidade ao seu redor.

Feito esse parênteses sobre de quem se fala quando se fala dos “japoneses”, tudo

indica que os “legítimos” foram bem-recebidos pela população que se formava.

“Em Ipatinga os japoneses recriaram seu ambiente no Japão. E assim foi fácil uma

melhor adaptação. [...] Ficou algumas coisas [depois que eles foram embora], como o jardim japonês. Deixaram uma história dos mais antigos. Ao longo do tempo vai se

perdendo. Na época foi uma grande novidade, hoje nem tanto.” (ENTREVISTADO

2)

Esse fragmento aponta para a visão do japonês como povo exótico, com hábitos

despertaram interesse e curiosidade. Também é interessante chamar a atenção para o uso do conceito de identidade. Os japoneses tiveram que recriar o ambiente deles no Japão, tanto para garantir uma melhor adaptação ao Brasil (feijoada e churrasco, só de vez em quando), quanto para não perder sua identidade.

Os japoneses “legítimos”, embora bem tratados pelos brasileiros, não se misturaram tanto assim. Afora a participação nas festas típicas, o contato se dava de fato no ambiente de trabalho. E, ao contrário da versão atual, o convívio não era tão harmonioso assim. As frases a seguir ilustram um pouco esse lado, pouco difundido, da relação dos brasileiros com os japoneses na Empresa.

“Existia uma certa segregação – não existia muita mistura.”(GF) “Eles eram muito educados, mas o brasileiro era metido.” (GF) “Tinha uma antipatia [com os japoneses].” (GF)

“Havia um resquício – vinte anos depois da guerra, tinha uma diferença, havia inclusive brigas. O brasileiro provocava, quando queria irritar o japonês.” (GF) “Os japoneses eram os chefes – era uma ciumada...” (GF)

Como já vimos, entre 1964 e 1965, os postos-chave da usina foram gradativamente sendo ocupados pelos brasileiros. Os primeiros japoneses foram embora após os dois anos. Só então outros engenheiros vieram ao Brasil, para ficar menos tempo, com função de staff e não de gestão.

“Depois que os [primeiros] japoneses voltaram para o Japão, nós tivemos um hiato de

tempo com apenas alguns japoneses. Mas logo em seguida a Usiminas negociou

contratos de assistência técnica com os japoneses. O primeiro durou dez anos. Eram enviados japoneses com alta capacitação para algumas áreas da Usiminas. [...] Eles

vinham para ficar por seis meses para passar a experiência deles para a gente, depois voltariam. [...] Foi um período muito fértil para a Usiminas, pois na fase inicial

ela estava preparada para fazer produtos comerciais, de pouco valor agregado. Só com o contrato de assistência técnica com os japoneses é que veio uma transferência de tecnologia específica. Somente com essa tecnologia os produtos passaram a ser de maior valor agregado, como aços para carros.” (ENTREVISTADO 2)

Esse “hiato” durou cerca de dois anos, entre 1964 e 1966, quando foi celebrado um acordo de cooperação técnica com a Yawata Iron and Steel Co., depois denominada Nippon Steel Co., com validade de 10 anos, posteriormente renovado por mais cinco anos. (FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO, 1990). Ainda assim, pelo menos nos primeiros

tempos, as recomendações técnicas dos japoneses77 tinham força de lei e eram seguidas à risca.

“[...] deixaram um japonês em cada setor para dar assistência técnica e eu fui encarregado de acompanhar esses japoneses. Eles trocavam de seis em seis meses e eu

tinha que acompanhar. Eles não residiam no Brasil, então eles trocavam sempre. E

você pedia por especialidade, do que a gente necessitava em assistência técnica dentro da usina. Esses japoneses vinham, faziam a observação técnica deles e um

intérprete traduzia, depois passava por mim mais pra corrigir o português e entender o

que eles queriam dizer. Depois disso tinham reuniões periódicas e os japoneses iam apresentar o relatório deles. Uma assistência de seis meses eles dividiam em quatro, cinco, sete recomendações pelos diversos assuntos.” (ENTREVISTADO 17)

Ao mesmo tempo, com a assinatura desse contrato de assistência técnica, em 1966, com validade de dez anos, posteriormente renovado com a mesma finalidade por mais cinco anos, um grande contingente de engenheiros brasileiros78 passou a ser enviado ao Japão para realizar treinamentos, principalmente na Nippon Steel. (FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO, 1990).

“A Usiminas mandou gente para o Japão para estagiar e ver como funcionava. Engenheiros de todos os níveis foram para o Japão.” (ENTREVISTADO 10)

Esse intercâmbio, com certeza, marcou muito a vida da empresa, e da cidade,

“os japoneses influenciaram bem Ipatinga”, diz um dos entrevistados mais velhos.

Voltando a essa passagem de bastão, há versões bastante variadas. O mais comum, no entanto, é uma visão de substituição tranquila e sem conflito, como se vê no depoimento seguinte.

“Eu não vivi o período de transição. Eu ouvi falar que antigamente os japoneses faziam tudo e os brasileiros assessoravam, mas aos poucos os brasileiros foram aprendendo

e substituindo os japoneses. Tinha o engenheiro especialista, o chefe de seção, o chefe

de divisão, chefe de departamento. Na hora que você tinha um bom especialista, o

colocava no departamento e daí por diante.” (ENTREVISTADO 17)

Há, porém, quem afirme que a saída dos japoneses do comando se deveu a fatos

externos, que teriam “assustado” os japoneses: tanto uma greve ocorrida em uma

empresa siderúrgica na Rússia, quanto a própria situação no Brasil da época, com fortes movimentos sociais e sindicais, às vésperas do golpe. Assim, a troca de comando, longe

77 Dados oficiais da Usiminas indicam que 276 japoneses foram para Ipatinga e emitiram mais de 3.000

recomendações e informações técnicas (FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO, 1990).

78

Mais de três centenas fizeram estágio em usinas no Japão, ao longo do tempo (FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO, 1990).

de ser algo programado, teria sido consequência da preocupação dos japoneses com a situação da época.

“[A Usiminas] Era comandada quase que só por japoneses, mas tendo em vista o

problema que os russos tiveram na Índia, que houve uma revolta muito grande em

uma usina siderúrgica da Índia, os japoneses receosos, resolveram fazer um plano de

passagem administrativo para a Usiminas. [...] Pois em 1960 na usina de [...], na

Índia, houve uma greve e isso assustou os japoneses aqui.” (ENTREVISTADO 30).

Ou seja, a transferência da administração e do poder, dos japoneses aos brasileiros, pode não ter sido algo programado e previsto, mas sim a consequência de um temor dos japoneses em relação à situação política em que o Brasil se encontrava. Afinal, em 1963, o País, governado por João Goulart, enfrentava dificuldades econômicas, com uma inflação de 73,5%, e políticas, com um alto número de greves em vários setores. Jango defendia também a nacionalização de empresas estrangeiras e a diminuição de remessas de lucros.

“Começou a vir gente de São Paulo, agitador.” (GF)

Vale lembrar também que, pouco antes da inauguração oficial em 196579, houve um fato importante que mudou os rumos da Usiminas, silenciados pela maioria dos

entrevistados, o “massacre de Ipatinga”, que será brevemente apresentado no tópico

4.5.2.

“Eles [japoneses] passaram a administração para o grupo Usiminas, para os brasileiros e não houve grandes mudanças. As mudanças foram em 1963 foi quando houve uma

greve geral, sindical. O grande massacre. [...] Uma parte [do controle, da

administração] já estava nas mãos do brasileiro [em 1963].” (ENTREVISTADO 30).

Se a volta dos japoneses teria sido programada ou consequência de

acontecimentos micro e macroestruturais, como o chamado “massacre de Ipatinga”, em

1963, e o golpe de 1964, não está clara. As narrativas são ambíguas sobre esse ponto, talvez justamente porque o que ficou foi a ideia da gestão japonesa. Ao contar essa história, a maioria dos entrevistados parecem supor que a presença dos japoneses na gestão da Empresa durou mais tempo do que efetivamente ocorreu.

Apesar do retorno dos engenheiros japoneses, em 1966, o diretor de operação ainda era um japonês, o engenheiro Sadayoshi Morila, chefe do departamento técnico da

79

Embora o alto-forno tivesse sido inaugurado em 1962, a usina como usina integrada foi inaugurada em 1º de maio de 1965.

Yawata Iron & Steel Co. A indicação foi feita pela Nippon-Usiminas Kabuschiki Kaischa (USIMINAS Jornal, 1966c).

Ao que parece, os dirigentes tentavam reforçar o lado nipo da Usiminas, como aparecem em outras narrativas do Jornal Usiminas, do mesmo ano. Em setembro de 1966, por exemplo, a festa japonesa Bon-Odori, foi realizada no Bairro Cariru, com um propósito duplo. Segundo o jornal, “[...] „os japoneses de Ipatinga‟ coadjuvados por brasileiros e niseis, vão homenagear os seus mortos e comemorar, com a mesma festa, a

inauguração do Alto Forno nº 2 da USIMINAS” (USIMINAS JORNAL, 1966a).

(Grifos meus).

Em outro ponto do jornal, os leitores/empregados da Usiminas são informados

que “[...] a Srta. Kumico Kamei, da Secção Administrativa do Departamento técnico,

da Sede [em Belo Horizonte], foi a representante da Usiminas no concurso para

escolha da “Miss Indústria” 1965” [...]. (USIMINAS JORNAL, 1966b) (Grifos

meus).

Ou seja, a Usiminas, na pessoa de algum ou vários dirigentes, escolheu para representar a Empresa em um concurso de beleza uma empregada nisei, que trabalhava em Belo Horizonte, na área administrativa, e não uma empregada mineira. Terá sido mera coincidência ou uma ação deliberada no sentido de reforçar o lado nipo da

“Cultura Usiminas”?

Atualmente, várias características que os entrevistados consideram como características culturais da Usiminas são atribuídas a essa herança japonesa, como

ilustram os depoimentos a seguir. Dente elas: “qualidade”, “organização”, melhoria

contínua, “respeito em termos de hierarquia”, “trabalho em equipe”, “disciplina”,

“filosofia de família”, todas com conotação positiva.

“Os japoneses têm uma técnica muito boa para mexer com siderurgia, então nós

temos muito contato. Eles são muito organizados e estão sempre melhorando. Qualidade vem dos japoneses.” (ENTREVISTADO 27)

“Mas era um ambiente de trabalho bom, tinha um respeito em termos de hierarquia

muito grande. No meu tempo todo de Usiminas foi possível perceber isso e eu credito isso à filosofia de trabalho japonesa, que preza muito pela hierarquia. E na Usiminas nós aprendemos a se portar dessa forma. [...] E trabalho em equipe lá [no Japão] é

fundamental e isso foi trazido para dentro da Ipatinga e se tornou a fórmula

vitoriosa da Usiminas. O japonês sempre se pautou muito por esses elementos: trabalho em equipe, hierarquia, disciplina.” (ENTREVISTADO 15)

“No Japão, a filosofia é da família inteira trabalhar na empresa, com 40 anos de empresa. Desde que você tenha o lugar certo para trabalhar, não tem problema.” (ENTREVISTADO 10)

Nesses depoimentos, há uma ideia de transferência dessas características do

Japão para o Brasil, seja via contato (“nós temos muito contato”), que pressupõe reciprocidade, imposição explícita (“isso foi trazido para dentro da Usiminas”) ou implícita (“nós aprendemos a se portar desta forma”). Também é interessante notar que

dois entrevistados usam a palavra “filosofia” no lugar de cultura.

Outro ponto que gostaria de ressaltar é a relação feita por um entrevistado entre as duas culturas e o contexto externo, no caso, a ditadura militar brasileira dos anos 1960.

“A administração japonesa era muito centralizadora e como eles ainda tinham

resquícios militares muito fortes, eles tinham um sistema de hierarquia muito forte,

porém um trabalho de equipe muito acentuado. Isso foi muito bem aceito pelos

mineiros. Como logo em seguida, em 1964, nós tivemos a revolução, que implantou um regime militar forte e os mineiros não tiveram grandes problemas durante esse regime militar, era um regime forte em nível de governo, de empresa e um sistema de trabalho de equipe montado pelos japoneses. Isso causou grandes benefícios na empresa, pois havia um esforço tecnológico coletivo e superação de dificuldades operacionais, refletindo também no relacionamento com os sindicatos e com os funcionários de modo geral.” (ENTREVISTADO 30)

Essa é uma narrativa curiosa. Ele repete a palavra forte quatro vezes apenas nesse trecho, sempre com conotação positiva. O entrevistado começa explicando que a

característica de centralização da “administração japonesa” era associada aos “resquícios militares muito fortes” dos próprios japoneses. Em seguida diz que tanto o “sistema de hierarquia muito forte” como o “trabalho em equipe muito acentuado” foi bem “aceito pelos mineiros”. E sua explicação é justamente a “revolução” de 1964. Para ele, “os mineiros não tiveram grandes problemas durante esse regime militar”. Ao se

referir a esses “mineiros”, generalizando, o entrevistado está excluindo todos aqueles

que lutaram contra a ditadura e que tiveram muito mais do que “problemas”. Ora, dizer

que uma ditadura (ou um sistema de trabalho “forte”) foi bem aceita é desconsiderar a própria lógica da ditadura. E ele faz exatamente esse paralelo, mostrando que havia um

regime forte “em nível de governo, de empresa e um sistema de trabalho em equipe

montado pelos japoneses”. A contradição é justamente o “trabalho em equipe”, que comumente se opõe à ideia de hierarquia.

Entretanto, por outro lado, o convívio com os japoneses, principalmente a partir do momento em que eles não ocupavam mais os cargos gerenciais, começou a ficar mais difícil, e foram surgindo conflitos. Se havia admiração em relação aos japoneses, havia também disputa – um tema que é silenciado na maioria dos relatos. Os depoimentos abaixo ilustram a contradição presente na relação com os japoneses.

“Em 1970, 71, a chefia já era toda brasileira. Japonês estudava o tema e fazia um

relatório. Fazia propostas, relatório.” (GF)

Este “fazia propostas, relatório” foi dito com entonação, e conotação, pejorativa,

no sentido de que os japoneses tinham perdido poder. Quando um engenheiro diz: “[...] o brasileiro ocupou o espaço”, por exemplo, o verbo ocupar denota que há, ainda que implícito, uma disputa de poder. Apesar disso, reconhece-se que o lugar dos japoneses, mesmo que não na linha direta de comando, ainda tinha força: “Os japoneses ficaram no staff, era controle.” (GF).

No dia a dia operacional, também parece ter havido problemas. Mas a história é confusa, contraditória.

“Alguns japoneses estavam dando trabalho, e colocaram lá [outras pessoas], para trabalhar na parte de laminação. [...] Não eram bem os japoneses dando trabalho. Os supervisores que estavam lá, eles tinham sido treinados por japoneses. A Usiminas no início da operação sempre teve assistência dos japoneses. E foi feito um trabalho de transferência de inteligência dos japoneses para os brasileiros. Os japoneses mandaram operadores para dar partidas nos equipamentos. E aqui estava se formando supervisores, operadores treinados por japoneses no início da história da Usiminas.” (ENTREVISTADO 27)

A partir de meados da década de 1970, com o fortalecimento da área de engenharia da Usiminas, os brasileiros deixam de seguir à risca as recomendações e sugestões dos japoneses. Ficam então mais claros os pontos de divergência, e a admiração pelos japoneses transforma-se, também, em competição.

“A engenharia da Usiminas é a cabeça da usina como um todo. Ela não tinha uma

engenharia sólida e ela recebia isso do Japão. As decisões eram tomadas fora da empresa, aquelas decisões que eram importantes. O Japão precisava de um tipo de aço,

a Usiminas produzia aquilo e às vezes não era do interesse do Brasil produzir aquilo. Mas as decisões eram tomadas fora. [...] com o departamento de engenharia, as

decisões passaram a ser tomadas de acordo com as necessidades da empresa. Isso desde 1975. Foi quando o grupo de engenharia foi criado e se estruturou com base em tecnologia própria. [...] Peguei essa transição muito forte. Foi um misto de orgulho e foi uma coisa muito clara. [...] A diretoria deixava vazar e as chefias transmitiam

aos engenheiros da necessidade de todos colaborarem com o máximo de conhecimento, absorvendo ao máximo os contatos e conhecimento [dos japoneses] e

não ser um mero seguidor de ideias, seguir ideias próprias.” (ENTREVISTADO 7)

Esse depoimento ilustra a mudança de postura da diretoria da Usiminas de uma forma bem interessante. Até 1975, as decisões eram tomadas “fora da empresa”, a

Usiminas “recebia isso do Japão”. Decisões que nem sempre eram “do interesse do Brasil”. A partir desse ano, cria-se uma área de Engenharia, “a cabeça da usina como

um todo”. Além de contar o episódio em si, o narrador fala da estratégia utilizada pela

diretoria para ganhar poder, e autonomia, em relação aos sócios japoneses. Novamente, porém, evitando explicitar o conflito. O entrevistado diz: “a diretoria deixava vazar.”. O