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Comecemos por tentar elucidar melhor como se deu a construção da ideia de que teria ocorrido uma parceria ideal entre Usiminas e os japoneses. Atualmente, a versão que circula na memória oral68 dos entrevistados é a de um casamento perfeito de interesses, construído sem conflitos. De um lado, a Usiminas precisava de dinheiro e de tecnologia, de outro, os japoneses necessitavam mostrar ao mundo pós-guerra sua competência na fabricação de maquinário pesado. Essa explicação aparece em grande parte das narrativas orais e escritas analisadas.

Atualmente, essa parceria ganha contornos tanto de magia, quanto de racionalidade. De um lado, o encontro Usiminas-japoneses é narrado como coincidências de um amor escrito nas estrelas. De outro, a fala surge com uma extrema racionalidade, como se ambos os parceiros tivessem planejado a parceria em função das inúmeras vantagens que ela traria a ambos, em um movimento linear e certeiro.

Por isso, foi extremamente interessante constatar – sem grandes esforços, apenas pela leitura desses fascículos, distribuídos nos anos 1980 a todos os empregados – que a

68 Segundo Bosi (1995), ao mesmo tempo em que o registro oficial reduz e empobrece uma determinada

realidade, visto que é esquematizado e some com discordâncias, conflitos etc, a memória oral também é, muitas vezes, dominada pelos estereótipos vigentes e curvam-se à memória institucional. O “casamento perfeito” entre japoneses e mineiros parece ser um deses casos.

parceria com os japoneses, segundo os próprios fundadores da Usiminas, não foi imediata, nem fácil, nem necessariamente a mais desejada, como veremos a seguir.

Nem a Usiminas foi a primeira escolha dos japoneses nem os japoneses foram a primeira escolha da Usiminas. E, talvez, a explicação mais simples seja que ambos, meio século atrás, não tinham lá tantos atrativos. Um país-promessa de um lado, uma empresa-promessa de outro.

A Usiminas, por mais que se visse “grande”, em 1957, ano em que o acordo com

os japoneses é fechado, não passava de um endereço, no centro de Belo Horizonte, com

um capital “simbólico”, como já se disse. Nem financiamento do governo, via BNDE,

tinha saído ainda. E o que era o Japão e os japoneses em 1955, ano em que se iniciam as conversações?

A Segunda Guerra Mundial tinha terminado apenas 10 anos antes desses acontecimentos e, embora o Japão estivesse empreendendo um enorme esforço de reconstrução, com os resultados que todos conhecemos hoje, a imagem que se tinha na época era de um país destruído.

Não se pode esquecer ainda que a posição do Japão na Segunda Guerra Mundial, ainda que minimizada pela tragédia de Hiroshima, era a de um país que tinha ficado do lado errado, junto com Hitler e oposto aos aliados vencedores, incluindo o Brasil. Como já vimos, uma das consequências da Segunda Guerra Mundial foi reforçar o preconceito contra os japoneses, que já vinha de muito tempo.

É nesse contexto do pós-guerra que se iniciam as conversações entre japoneses e brasileiros relacionadas à criação da Usiminas. O próprio Dr. Lanari ressalta, no depoimento abaixo, a pouca representatividade internacional que o Japão tinha na época, ao contrário da que o país tem hoje, como a segunda economia do mundo.

“Naquela ocasião (1958) produziam [o Japão] doze milhões de toneladas de aço e tinham uma renda „per capita‟ de duzentos e cinqüenta dólares. A brasileira já era de

trezentos dólares. Tratávamos os japoneses assim de cima” (LANARI JUNIOR, 1987, p. 9) (Grifos meus).

Esse “assim de cima” de que fala Lanari Jr. demonstra que, ao contrário da

versão que vingou, eram os brasileiros quem se consideravam em uma posição de superioridade e põe em xeque esse imaginário de admiração e reverência aos japoneses. Não que os brasileiros não tenham admiração pelos japoneses, mas o mais provável é que essa percepção tenha sido construída ao longo do processo de conhecimento e convivência com os sócios, primeiramente, e com os engenheiros e técnicos que foram

trabalhar na usina, mais tarde. Um dos “samurais” comenta sobre esse processo de mudança da imagem do Japão a partir de sua visita ao País.

“A imagem que se tinha do Japão era aquela de um país assolado pela guerra. Mas

nós [que visitamos o país] tivemos a oportunidade de ver que a coisa não era assim.” (ENTREVISTADO 2)

De acordo com algumas poucas narrativas, os japoneses não foram a primeira escolha dos mineiros. Como já citado, o Brasil, em si, era “pobre de dinheiro e de tecnologia”. Para que a Usiminas saísse do papel, era preciso arrumar capital, encontrar empresas que pudessem vender os equipamentos gigantes que são necessários para montar a usina, aprender como montar uma usina e a operá-la. Com certeza, não era uma tarefa fácil e tudo teria que ser feito mais ou menos ao mesmo tempo, de forma coordenada. Os mineiros tinham que encontrar investidores e que, de preferência, fossem também fornecedores de equipamentos. Os americanos não estavam dispostos a investir no Brasil e América Latina, em razão da prioridade conferida à reconstrução da Europa e à política de contenção do avanço soviético (BEÇAK, 2007), e o flerte com os europeus também não foi para frente, de acordo com a narrativa de um dos dirigentes da época.

Vieram ao Brasil, nessa ocasião, várias missões siderúrgicas. Uma alemã, de grande

porte, digamos assim, chefiada por gente de alto coturno. Uma missão italiana,

salvo engano, chefiada por um siderurgista, diretor da siderurgia na Itália, Ângelo Tarchi (PACHECO, 1987, p. 10) (Grifos meus).

Segundo a explicação que circula atualmente, a parceria com os japoneses se deu porque eles estavam interessados não só em vender, mas também em participar do negócio. Pacheco (1987), no entanto, conta, no depoimento abaixo, que também havia, por parte de vários diretores da empresa, preconceito com os japoneses, que não eram

“louros, dolicocéfalos”. Mesmo tendo se eximido do preconceito ao dizer “que não eu”,

o antigo dirigente narrou essa versão, em 1987, sem constrangimento.

Acontece que na diretoria da Usiminas outros dois diretores, que não eu, torciam, faziam muita força para que o negócio saísse ou com os alemães (esse diretor dizia que

preferia louros, dolicocéfalos como os nossos sócios) ou com os italianos, porque um

dos nossos diretores ficou muito bem impressionado com a siderurgia e com a técnica italiana. Eu fui o único que ficou convencido de que o negócio sairia era mesmo com os japoneses, porque as outras missões queriam mesmo eram vender equipamentos

Voltemos, entretanto, à história do acordo, tal como foi possível reconstituí-la, mostrando a origem da ideia de parceria ideal. Após o final da Guerra, o Japão tinha privatizado e fortalecido o setor siderúrgico por meio da participação de bancos. Assim, a estatal Japan Iron & Steel foi dissolvida, dando origem às empresas Iwata Iron & Steel e Fuji Iron & Steel, sendo que essa última originou a Nippon Steel (CAMARA, 2007)69.

Assim, um grupo de empresas japonesas, e não “o Japão”, estava buscando

oportunidades de investimento em países que não detinham ainda a tecnologia, como

era o caso do Brasil na época, “[...] pobre em finanças e pobre em tecnologia”, como diz

Pacheco (1987, p.9).

O governo japonês teve, de fato, um papel incentivador, mas o aporte financeiro estatal só ocorreu mais tarde. A propósito da parceria com a Usiminas, inicialmente, o embaixador do Japão na época teria dito que

[...] o Estado, devido aos encargos que lhe vieram após a guerra, só pode fazer o financiamento do equipamento e dar a colaboração dos seus técnicos. A questão da

participação do capital ficará entregue aos industriais do Japão (PIMENTA apud

FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO, 1990).

Segundo Pardini (2004), em 1955, um grupo de industriais japoneses tentou vender equipamentos siderúrgicos à Cosipa, que já existia juridicamente como empresa. Como o acordo não foi bem-sucedido, o embaixador japonês procurou o BNDE e, por intermédio de Lucas Lopes, então presidente do banco, programou-se a ida do representante japonês a Minas Gerais, onde o sonho da grande siderúrgica já começava a ser costurado, ou seja, o primeiro contato dos japoneses com os mineiros ocorreu antes da fundação da Usiminas, em abril de 1956.

Essa informação foi contada pelo ex-presidente do BNDE, em 1986, da seguinte forma.

Um dos homens-chaves do grupo [de industriais japoneses] esteve em São Paulo e entrou em contato com o pessoal de lá. Eu entendi que ele [o embaixador do Japão, Yoshiro Ando] havia entrado em contato com o grupo da Cosipa, que já existia como uma pequena empresa piloto. Acho que ele havia sido infeliz nas negociações, pois

disse de uma forma caricata que os paulistas tinham dito que em São Paulo já existia japonês demais e que eles não precisavam da usina. Essa é a caricatura que a história registra. Então, eles [japoneses] estavam muito magoados, e eu disse: “Dê-me

um pouco de prazo, que eu vou conversar com o Presidente Juscelino, e talvez haja uma oportunidade dos senhores mandarem esses homens a Minas Gerais (LOPES, 1986, p.13) (Grifos meus).

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A Nippon Steell veio a ser a principal acionista estrangeira da Usiminas, que, por um período, chamou- se Nippon-Usiminas.

No depoimento acima, percebemos que, além de retomar o tema da briga com os paulistas (o depoimento foi gravado em 1986), Lucas Lopes demonstra que, na época a qual ele se refere, segunda metade dos anos 1950, os japoneses, por si só, não geravam

nenhum sentimento especial, fosse de respeito ou admiração, fosse pela “cultura”

japonesa, ou pela capacidade tecnológica. Se os paulistas da Cosipa de fato disseram

que “em São Paulo já havia japonês demais” não vem ao caso. Ele mesmo comenta que essa é uma “caricatura que a história registra”. O que a suposta “mágoa” do então

embaixador revela é que essa era uma frase que efetivamente poderia ter sido dita sem grandes constrangimentos, visto que São Paulo concentrava a maior parte dos 500 mil japoneses que viviam na época no País, e a figura do japonês, muito mais ligada à agricultura, não representava, simbolicamente, o mesmo que representa hoje.

Amaro Lanari Jr., que foi presidente da Usiminas a partir de 1958, confirma que,

se é que houve este “casamento entre mineiros e japoneses”, a primeira pretendente foi

a Cosipa.

[Os japoneses] procuraram primeiro a Cosipa, que já estava adiantada [...] O pessoal da Cosipa estava discutindo com franceses e alemães a possibilidade de financiamento, etc., mas todos muito interessados em fornecer equipamentos. Os

japoneses procuraram o pessoal da Cosipa e eles disseram que não, que já estavam

em negociação com os franceses e com os alemães. Na verdade, eles não perceberam o que os japoneses queriam. Nem eu também (LANARI JÚNIOR, 1987, p. 8) (Grifos meus).

Este, “na verdade” é um dos pontos mais interessantes desse fragmento discursivo. Amaro Lanari Jr., antes de presidir a Usiminas, tinha sido um dos fundadores da Cosipa. Nesse depoimento, ele habilmente conta o caso assumindo sua participação, mas dando um outro significado. Inicialmente, ele se desassocia da Cosipa

(Amaro Lanari Jr. usa o pronome “eles” [que disseram não aos japoneses], e não “nós”),

para evitar o embaraço de ter participado do processo que passou para a história da

Usiminas como um “desdém” – atitude considerada pelos que se referem ao fato como

equivocada e estúpida, do ponto de vista empresarial – da Cosipa pelos japoneses. Em

seguida, constrói a explicação para o desinteresse da empresa paulista, ao dizer “ - Na

verdade, eles não perceberam o que os japoneses queriam”. A ação tomada em função de uma percepção incorreta de um fato é diferente daquela tomada em função de uma análise correta. Assim, Lanari Jr. se resume a lamentar a falta de visão da Cosipa, e aí, se re-associa com a empresa paulista, fazendo um mea culpa: “[...] nem eu também [percebi o que os japoneses queriam]”.

Se ninguém percebeu o que os japoneses queriam, e ele também não, pode no máximo ser responsabilizado por falta de visão. Ou seja, se a Cosipa/os paulistas teriam dispensado os japoneses por arrogância, problema deles, mas o Dr. Lanari, como participante do episódio, conta o caso como se tivesse, como se diz em Minas, comido mosca70. E, afinal, o que queriam os japoneses?

Segundo o discurso fundador, repetido até hoje pelos empregados, o Japão e os

japoneses, personagens usados indistintamente, queriam fazer da Usiminas a “vitrine do Japão para o mundo”.

Em outra entrevista, alguns anos depois, Amaro Lanari Jr. explicita “o que os

japoneses queriam”. Segundo Lanari Jr., “[...] eles queriam demonstrar ao mundo sua

capacidade de fazer grandes empreendimentos com seus próprios equipamentos,

coisa até então posta em dúvida” (REVISTA EXAME, 1988). (Grifos meus).

Há vários outros depoimentos nesse sentido. Segundo Lucas Lopes, o embaixador japonês Yoshiro Ando teria explicado o interesse japonês na nascente siderurgia brasileira da seguinte forma.

Queremos fazer uma demonstração no Brasil da capacidade da indústria japonesa de

fornecer estes equipamentos. Quem vem visitar vocês são as grandes empresas siderúrgicas e as grandes indústrias mecânicas de equipamentos que querem participar desse projeto, desse investimento. (ANDO apud LOPES, 1986, p. 13) (Grifos meus).

A versão corrente, tanto entre os empregados como de pesquisadores, é exatamente essa. Diz Pardini (2004, p. 125), “[...] o projeto siderúrgico representou para os japoneses a auto-afirmação pretendida pela combalida indústria nipônica do pós-

guerra.”

Em dezembro de 1955, o embaixador japonês é recebido pela Sociedade Brasileira de Engenheiros para conhecer o parque industrial do estado de Minas Gerais. Em abril de 1956, uma missão técnica, Missão Yukawa, chega a Minas Gerais e, em seguida, o governo japonês convida um grupo de brasileiros ao Japão, formado por três dirigentes da Usiminas, dois representantes do governo do estado e um representante da União, Amaro Lanari Júnior, pelo grupo do BNDE formado para estudar o negócio. (GOMES apud PARDINI, 2004). Segundo Amaro Lanari Jr, a participação dos japoneses e o acordo financeiro ficou decidido nessa viagem.

Resolvemos que o capital seria quarenta por cento japonês, trinta do BNDE e trinta do Estado de Minas. Esse foi o esquema inicial. E eu pensei que eles iriam recusar, que queriam vender equipamento. Mas, não. O Dr. Yukawa foi quem tomou parte dessa

discussão e aceitou na hora. [...] Foi então que entendi que eles queriam era fazer um

“show” de equipamentos japoneses (LANARI JÚNIOR, 1987, p. 9) (Grifos meus).

Essa súbita, e tardia, revelação que Lanari teve no Japão parece, no mínimo, improvável. Não há base para afirmar que o investimento japonês foi feito com o objetivo de tornar a Usiminas uma vitrine. Essa explicação parece ter sido construída mais tarde, principalmente por Lanari. Tudo indica que a história que vingou é truncada e que: a) ou bem os paulistas entenderam exatamente o que os japoneses queriam, mas não confiaram nestes – o que é compreensível se pensarmos em como os japoneses eram vistos naquela época; b) ou os industriais japoneses, que não podem ser equiparados ao Japão, buscavam oportunidades de investimento e, para serem bem- sucedidos, se adaptaram às demandas dos mineiros, isto é, fornecimento de tecnologia e capital; c) ou, ainda, o que é mais provável, ocorreu um misto de todos esses fatores.

Depoimentos do embaixador do Japão na época e de um dos primeiros diretores japoneses contestam que tenha havido a racionalidade apregoada por Lanari na “escolha

do Brasil para vitrine”, ou mais especificamente, na “escolha da Usiminas como vitrine

do Japão no mundo”.

O embaixador do Japão Yoshio Ando declarou, em 1970, que ele, particularmente, após sua chegada ao Brasil em 1955, acreditava ser importante a entrada de empresas japonesas no País, para aumentar a cooperação entre os dois países, já estabelecidas na base da emigração e comércio exterior. No entanto, ele relata que, tanto o governo japonês, quanto os empresários precisaram ser convencidos da viabilidade do projeto. Inicialmente, o presidente da Yawata Iron and Steel, Dr. Masao Yukawa, esteve no Brasil para conhecer os planos da Cosipa, a ser instalada em Cubatão, dando parecer contrário à participação japonesa no empreendimento. Ou seja, a versão do embaixador japonês é oposta a dos brasileiros: teria sido a empresa japonesa que teria desistido da Cosipa e, não, o contrário.

No entanto, segundo ele, antes dessa visita, o engenheiro Athos Rache, envolvido na elaboração do projeto da usina em Minas, teria levado à Embaixada um estudo concreto. Em seguida, o embaixador teria convidado para um encontro com JK, que “[...] manifestou o desejo de receber a cooperação dos países amigos para a instalação de uma siderúrgica, cooperação essa que era indispensável caso Minas viesse

a ter nova usina” (ANDO, 1970, apud KATO, 1987, p.17). Em seguida, o embaixador

teria recebido a visita do presidente da FIEMG, Lídio Lunardi, solicitando a cooperação japonesa. Ou seja, segundo ele, a pressão pelo apoio japonês viria do presidente

brasileiro e também do empresariado. Não se pode esquecer que havia, no País, cerca de 500 mil imigrantes japoneses na época. Além disso, em 1952, entra em vigor o Tratado de São Francisco, restabelecendo a soberania do Japão, o que marcou a retomada de relações diplomáticas entre Brasil e Japão que haviam sido interrompidas durante a Segunda Guerra Mundial (UEHARA, 1999). O embaixador pediu então que Masao Yukawa voltasse ao Brasil, desta vez para conhecer o potencial de Minas.

Ele [Yukawa] relutou no início, mas um apelo insistente do deputado [federal,

brasileiro, Yukishige] Tamura, acabou por convencê-lo a vir a Minas Gerais como convidado oficial deste Estado, de acordo com a instrução do Presidente da República. Estenderam-se por cinco dias as visitas às usinas da Mannesmann, Belgo-Mineira, Acesita, bem como a Ipatinga (local destinado para a usina), minas de Itabira e equipamentos de carregamentos de minério de ferro do porto de Vitória, tendo o Sr. Yukawa manifestado opinião favorável à construção da siderúrgica em Minas Gerais (ANDO apud KATO, 1987, p.17) (Grifos meus).

O diretor japonês Hirokazu Kato, que assumiu o cargo de Diretor- Superintendente em 1958, também negou que houvesse um desejo racional do governo japonês em transformar uma empresa brasileira em sua vitrine tecnológica pós-guerra. Na verdade, ele diz exatamente o contrário, que o “investimento japonês é resultado,

exatamente, da insistente solicitação do grupo brasileiro”.

Creio que não foi bem assim. Na época, o estágio da economia japonesa encontrava-se

num nível indiscutivelmente baixo, se comparado com o de hoje [1987]. O

investimento japonês é resultado, exatamente, da insistente solicitação do grupo brasileiro. O grupo japonês decidiu cooperar com o Brasil, colocando no Projeto da

Usiminas capital de risco e tecnologia. Como se vê, a iniciativa não partiu do nosso lado. [...] O Presidente [Juscelino Kubistcheck] propôs com veemência ao senhor Ando, então embaixador do Japão no Brasil, que gostaria de receber a cooperação do grupo japonês para a construção de uma usina integrada no Brasil (ANDO apud KATO, 1987, p.17) (Grifos meus).

As negociações perduram durante o ano de 1957, com os dois lados tentando um acordo sobre a forma de financiamento, até que o governo japonês decidiu também cooperar. Essa foi realmente uma ação decisiva para a constituição da Usiminas e a construção da usina.

Como resultado das conversações entre as missões japonesas e brasileira, foram

elaborados um acordo sobe a constituição de companhia siderúrgica de capital misto Brasil-Japão (Acordo Lanari-Horikoshi) e um documento de recomendação relativa ao plano de cooperação com a Acesita, cujas cerimônias de assinaturas foram realizadas em 3 de junho [de 1957], na residência oficial da Embaixada japonesa no Brasil. Processaram-se em seguida, entre os dois países, os preparativos necessários, culminando coma formação da Nippon Usiminas Co. Ltd. em dezembro e, em janeiro de 1958, com a constituição da USIMINAS (Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais S.A.) dando-se o primeiro passo concreto para a construção de usinas (ANDO apud KATO, 1987, p.18) (Grifos meus).

Não se quer com essas reflexões negar que, com certeza, houve interesse comercial e diplomático tanto do Brasil como do Japão, e que, de fato, a Usiminas acabou por tornar-se “uma vitrine” da capacidade tecnológica japonesa. Entretanto, ao se buscar refletir sobre a formação do discurso atual dos empregados de que a Usiminas foi o primeiro empreendimento industrial japonês fora do Japão após o término da Segunda Guerra Mundial, frase repetida com variações por muitos entrevistados, sempre dita à guisa de explicação, é mostrar como um conjunto de ideias foi sendo naturalizado, institucionalizado até ser dado como oficial e natural.

A lógica atual é algo como a Usiminas deu certo porque os japoneses precisavam mostrar ao mundo sua competência e a Usiminas, escolhida como vitrine, foi feita com o maior capricho do mundo, aquele que se reserva às vitrines. Ou seja, os empregados buscam no passado a explicação lógica e natural para o sucesso da Empresa. Não tinha como ser de outro modo. Ela é vitoriosa porque tinha que ser vitoriosa, como se não houvesse como dar errado, recuperando também o tema da Usiminas predestinada a dar certo. Foi a ideia que vingou a ponto de ser dada como inequívoca e natural, sendo repetida, não só pelos empregados, mas também por pesquisadores que se valem desses primeiros como seus informantes, sem refletir sobre