• No results found

4 Laboratory investigations

4.2 Oedometer tests

O Romantismo desembarcaria na Irlanda durante o fogo cruzado da Rebelião de 1798, que ansiava por separar politicamente os irlandeses dos ingleses. O plano deu errado, mas o movimento Romântico não. As características e a estética do movimento literário na Irlanda se adaptaram às pretensões políticas de alguns grupos, que viam na literatura a arma para combater o imperialismo inglês. Os Românticos irlandeses estavam interessados no projeto maior, o da construção da nação, substanciado pelo

Medieval Revival, que fez acender as tochas mitológicas do país.

Segundo Kelleher (2008), o Romantismo Irlandês buscou uma maneira de mimetizar a derrota nas batalhas do país, como se isso fosse grandioso para o movimento nacionalista e apenas um passo para a vitória maior. Foi tendência literária que se mostrou progressista, ao mesmo tempo em que se mostrava nostálgico, conseguiu mexer e causar debates profundos na sociedade.

O movimento teve a estrutura e a estética muito parecida com o Romantismo Inglês, mas, com o passar do tempo, foi tornando-se um movimento literário próprio. Os Românticos irlandeses começaram a buscar a integração nacional através de poemas que tinham como base comum as suas pretensões políticas.

O movimento, na Irlanda, começou a tomar contornos próprios com a investigação realizada por poetas e historiadores, durante o século XVIII, sobre o passado medieval, e o revigoramento da cultura Celta, seu folclore e mitologia. Segundo Kelleher (2008), os primeiros textos, que podem ser considerados as raízes do Romantismo irlandês, surgem em meados 1781 com os festivais de harpa em Belfast, o que acabou influenciando as gerações vindouras. Os irlandeses do começo do século XIX, de acordo com State (2009), teriam sido profundamente influenciados pelo culto

do bardo. Tendo como origem tradução de Macpherson de Ossian, que deu acesso a uma sensibilidade Celta até então, aparentemente, era desconhecida.

O Ato de União, gesto político de união definitiva dos parlamentos da Irlanda e a Inglaterra, em 1801, acabou mostrando-se importante para o movimento Romântico irlandês, pois, segundo Curran (1993), fez acender no país a chama pelo gosto literário, pelo viés nacionalista, quase propagandista, através de panfletos, poemas, cartilhas, romances, etc. Concomitante a isso, é bom lembrar, o Romantismo na Irlanda estava dando os seus primeiros passos, logo, a literatura nacionalista e a estética Romântica se fundem, dando origem ao que podemos chamar de Romantismo Nacionalista Irlandês.

Um dos maiores incentivadores do Romantismo Nacional irlandês foi o United

Irish, que organizou diversas edições de livros e panfletos. O grupo tornou-se, para a

época, o centro de irradiação da literatura da Irlanda. Nas publicações eram recorrentes enredos folclóricos e personagens bardos, e figuras heróicas como Ossian e Cuchulain.

Os jornais irlandeses, segundo Hachey (1989), foram os responsáveis por perpetuar a tradição Romântica das baladas folclóricas, protagonizadas por heróis que mimetizavam mártires gritando nos textos “Freedom”90, “Liberty”91 e “Unity”92,

clamando por uma Irlanda livre. Porém, era comum a aparição desses heróis em contextos sobrenaturais. Fadas, bruxas, demônios eram figuras comuns das baladas e eram mostrados como parte integrante do dia a dia dos irlandeses.

De acordo com Keymer (2004), foi a partir do sentimento heróico que surgiu, entre os poetas irlandeses, tornando-se praticamente um padrão, o martírio e o sacrifício de personagens que causassem comoção entre o povo com o intuito de acender na sociedade os mais diversos sentimentos. Dentre eles, a vontade de lutar por amor, pelo país, e suas causas.

Passou a ser recorrente ainda a figura feminina de Érin (Irlanda) que prestava votos de devoção pela pátria irlandesa, “a mensagem dela era mais de união e perdão do que de uma revolução violenta” 93. Porém, essa “paz” clamada pela personagem não foi

90 Independência 91 Liberdade 92 União

levada adiante, havia um grito, entre os poetas, pedindo que Érin quebrasse suas correntes, sua tranquilidade, chamasse seus filhos para a luta e bradasse por vingança pelos abusos que sua casa vinha sofrendo nas mãos dos ingleses. Na poesia Paddy’s Resource, de Hamilton Drummond, encontramos o seguinte exemplo:

“crush those knees that us enslave your gun shall roar like thunder”94

Sendo assim, é possível notar que o folclore irlandês foi um dos pilares mais importantes de sustentação do Romantismo do país. Segundo Hachey (1989) é isso que faz do movimento Romântico da Irlanda algo único. Porém, vai ser apenas no século XX que o folclore se solidifica em importância literária para os irlandeses. Mas durante o Romantismo foi um elemento delimitador entre o movimento inglês e o irlandês.

Mesmo se parecendo muito, esteticamente, com o Romantismo que vinha se desenvolvendo na Inglaterra, o movimento Romântico irlandês começou a mostrar digressões em relação a sua matriz, apresentando um vocabulário próprio, pois os poetas da Irlanda acreditavam que, sem uma língua própria, eles não poderiam ser um país completo, já que o idioma é parte importante no processo de identidade nacional.

Além disso, houve um profundo tratamento alegórico dos textos, o uso das formas alegóricas, foi no Romantismo que se desenvolvia na Irlanda, uma das marcas muitas que o diferencia em relação às tendências literárias da Inglaterra.. Foram os pioneiros nesse tratamento: Eyre Evans e James McHenry, eles queriam um dar um frescor aos seus textos e empreender elementos alegóricos que unissem traços tipicamente irlandeses aos seus enredos, como o folclore.

A escrita alegórica irlandesa foi impulsionada por influência de Coleridge, que ainda contribuiu para o uso de símbolos e metáforas nos textos. Os primeiros Românticos irlandeses reviveram uma poesia nacional chamada aisling. Esses poemas teriam surgido na Idade Média, de acordo com Connolly (2011), por volta do século XV, e retratavam a mulher-Irlanda (ou deusa-mãe), concebida, costumeiramente, de duas maneiras: como uma figura jovem e bonita, ou com uma mulher de aparência

94 “Esmague aqueles joelhos que nos escravizam. Tua arma deve urgir como um trovão”. apud WRIGHT,

repulsiva, decrépita, em idade avançada. Em geral, os poemas traziam em seu conteúdo visões proféticas ou alegóricas através da mulher-Irlanda.

Segundo Kelleher (2008), podem ser apontadas como características do Romantismo Irlandês: a) o desenvolvimento místico da idéia de nação; b) o nacionalismo, que se torna tão forte a ponto de se igualar, em importância, à religião; c) a terra, que se torna um lugar sagrado; d) o forte revigoramento do passado histórico do país; e) a revitalização da língua gaélica; f) a urgente necessidade de sacrifício pela pátria; g) o culto a heróis míticos do país; h) a personificação da pátria como mãe, ou deusa-mãe; i) o revigoramento do conceito de amor através das histórias de cavalarias medieval.

Os Românticos irlandeses estavam interessados no dia a dia do povo. Queriam chegar mais próximos, esteticamente, da língua dos camponeses, como havia sido proposto anteriormente por Wordsworth, mas em um contexto e realidade irlandesa.

Segundo Kelleher (2008), os textos românticos irlandeses, especialmente as canções que tiveram origens inspiradas nos Celtas, são consideradas “Memory of

Ireland’s Past”. Essas melodias buscavam desafiar o ar de derrota que se impregnava na

sociedade irlandesa, em consequência da dominação britânica. Tentavam trazer de volta uma glória esquecida.

Pode-se perceber que havia, entre os irlandeses, um diálogo com um passado histórico que se ligava à ancestralidade. Segundo Kelleher (2008), os “national tales” é uma forma de gênero literário surgido na Irlanda, durante o Romantismo, que se caracteriza pela escrita feminina, trazendo em seus enredos questões relacionadas à história, à terra, e aos problemas nacionais do seu tempo. O gênero passou a misturar elementos ficcionais pertencentes ao universo feminino com o folclore nacional, especialmente os versos dos bardos em enredos alegóricos.

O teatro irlandês, durante o Romantismo, começava a ganhar vida, porém, muito timidamente, segundo Keymer (2004). O que se via encenado nos palcos era basicamente melodramas vindos da Inglaterra. Porém, as peças começaram a receber um tratamento político com traços religiosos. E foi assim que surgiu o embrião do teatro

nacionalista irlandês, que explodiria no século XIX com a fundação da Renascença Celta.

As marcas do “passado” serviam para (re)criar o presente. Depois de 1830 a literatura irlandesa enfrenta um forte declínio com a chegada da Grande Fome, só voltando a se estabelecer com a Ressurreição Celta, com Yeats.