3 The deposit and Field investigations
3.1 Deposit overview
Como já citamos, a Europa respirava um clima de instabilidade na virada do século XVIII para o XIX. Os poetas Românticos que intentavam, dentre outras coisas, o florescer de sentimentos, e buscavam ressuscitar a natureza, de maneira bucólica, não encontravam, em seu tempo, a inspiração necessária. Sendo assim, os Românticos voltaram seus olhos para um passado onde pudessem cultivar, em uma terra sonhos esquecidos e perdidos, o estímulo desejado.
Foi assim que a Idade Média83 passou a inspirar os poetas Românticos. De
acordo com Agrawal (1999), a busca pelo renascimento dos valores medievais foi um caminho seguido em conseqüência do cansaço com o Neoclassicismo. Surge então, no seio do próprio Romantismo, um movimento estético que, ao final do século XVIII, vasculha a história medieval, e acabou tornando-se importante para a estética que iria
82My heart leaps up when I behold
A rainbow in the sky:
So was it when my life began,
So is it now I am a man,
So be it when I shall grow old
Or let me die!
The child is father of the man: And I could wish my days to be Bound each to each by natural piety.
83 A Idade Média, segundo Wolff (1988), tem início com a desintegração do Império Romano do
florescer no século XIX, ficando conhecido como “Medieval Revival” (Renascença Medieval).
Esse movimento tornou-se, na verdade a espinha dorsal do Romantismo, pois muitas de suas características são apreendidas pelos poetas Românticos. O medievalismo, porém, contribuiu não apenas para a literatura, foi um movimento amplo e atingiu diversas áreas, como a arquitetura e a religião.
O interesse pela Idade Média começou a florescer na Europa de maneira gradual. De acordo com os teóricos sobre o Romantismo, dentre eles podemos citar Agrawal (1999), Fay (2002) e Faflak (2012), por volta de 1750, o mundo ocidental, de maneira geral, vivia um intenso interesse pelas artes do passado. Foi uma era de florescimentos, tanto na pintura, quanto na escultura e na literatura. A aristocracia, por exemplo, começou a planejar casas e prédios com traços que lembravam a arquitetura medieval, como o estilo Gótico.
O Medieval Revival intentava a recriação artística pela emoção e pela reconstrução filosófica do intelecto perdido da Idade Média. Os primeiros poetas influenciados por esse movimento começam a refletir sobre a natureza, as coisas triviais do dia a dia, os costumes, o folclore, os mitos e as antigas baladas. Os poetas sentiam-se atraídos pelo oculto, pelo sobrenatural, pelas superstições medievais.
Um dos primeiros trabalhos literários, de acordo com Fay (2002), que nasceu como fruto do Medieval Revival é “Castle of Indolence”, em 1748, escrito por James Thomson. O poeta recria e dá vida ao glamour da Idade Média, com um herói que luta contra a opressão, representa os valores cavalheirescos e a bravura, em um enredo envolto por um clima mágico banhado pelo sobrenatural, tendo como cenário um antigo castelo. Thomson, dessa maneira, reúne em seu poema o alicerce da poesia Romântica medievalista.
Segundo Agrawal (1999), o espírito da Idade Média manifestou-se de maneira histórica nos romances através dos ideais medievais, do sentimentalismo, da língua, e a mimetização dos costumes. Na literatura Inglesa, o medievalismo começou a ser usado de maneira vigorosa por volta de 1760.
O tipo de literatura medieval mais popular nos países que compunham o Império Britânico, principalmente, Irlanda e Escócia, deu-se através da valorização da literatura de tradição oral, que ficou cristalizada em baladas populares e contos folclóricos.
A balada popular uma é canção simples, animada, em curtas estrofes (...). Na maioria das vezes, uma tragédia de amor [...] O corpo da poesia popular é moldada nessas baladas narrativas, permitindo uma valiosa ilustração das serestas84 inglesas, que foram sobreviventes da era medieval (AGRAWAL,
1999, p.21-22)85
Além de cantar sobre a vida de figuras conhecidas como Robin Hood, as baladas, organizadas em quatro estrofes, estavam recheados com elementos sobrenaturais e mágicos. As baladas Românticas ganharam um tratamento medieval com influência de elementos oriundos da cavalaria, do galanteio, do cavaleiro errante, e especialmente os contos folclóricos.
Segundo Simmons (2011), as condições sociais do período e da região (geográfica) em que as baladas foram produzidas encontram-se nelas expressas. Além da vida do fora da lei, especialmente do lendário Robin Hood, constitui-se como assunto das baladas o sobrenatural, juntamente com a magia, e o encantamento.
Originalmente, na Idade Média, as baladas eram entoadas por uma harpa, geralmente cantadas pela figura de um andarilho, ou bardo. No Romantismo, essa visão “romantizada” de mundo é ressuscitada e passa a influenciar a escrita de diversos poetas. Uma das baladas mais importante da literatura inglesa, segundo Fay (2002), pode ser considerada Reliques of Ancient English Poetry, de Thomas Percy, em 1765.
Foram influenciados pela estética medievalista Keats, Colerige ,Wordsworth, Byron, Scott, os artistas pré-Rafaelitas, dentre outros. Simmons (2011) afirma que se não fosse a influência medieval em trabalhos como: Lyrical Ballads, ou Kubla Khan (1797), muito possivelmente, nunca teriam sido escritos.
Ainda conforme Fay (2002), em um primeiro momento, os poetas românticos ingleses tentaram reproduzir um medievalismo historicizado, no qual se mimetizava a
84 O termo usado por Agrawall (1999) é minstrelsy, que não é exatamente “seresta”, mas segundo o
Merriam-Webster online é um tipo de canção entoada na Idade Média. Sendo assim, a tradução proposta por nos é por aproximação.
85 The popular ballad is a simple spirited song in short stanzas (…) It is most often a love tragedy [...] A
body of popular poetry is shaped in these narrative ballads, affording a valuable illustration of English minstrelsy, which was extant in medieval times (AGRAWAL, 1999, p.21-22)
reprodução do romântico, do herói, da cavalaria, e do espírito da época. Com o avanço do movimento, houve exaltação do esplendor perdido, a busca pelos mitos e contos folclóricos. Em uma terceira etapa, já na Era Vitoriana, por volta do século XX, às duas primeiras concepções foram unidas a idealização e idolatria da hierarquia social, assim como o espírito estético e o amor à pátria.
Cada poeta, porém, olhava para a Era Medieval de maneira diferente. Byron, por exemplo, foi influenciado por uma estética medieval de um período histórico mais próximo da Renascença que, segundo Simmons (2011), dá ao poeta uma visão da Idade Média mais historicizado. Já Wordsworth virava-se para o passado buscando reescrever o presente, geralmente tomando como tema a Alta Idade Média.
Os poetas que se deixaram influenciar pelo medievalismo demonstravam, em sua escrita, de acordo com Simmons (2011), uma extravagante explosão de emoções e ações que tomavam como ponto de partida o passado medieval, mas que era idealizado em uma poesia que olhava para frente, que buscava o progresso. Os textos Românticos medievalistas intentavam criar situações universais que falassem para todos. As palavras ganharam traços simbólicos e alegóricos, transpassadas pela subjetividade. A estética medieval estava presente no estilo, na língua utilizada pelos poetas, na estrutura dos textos, e nos temas.
Obras como Le Morte D’ Arthur (1485), de Sir Thomas Malory, e The Faerie
Queene (1590) de Spenser, eram obras guias para os Românticos. Foi através dessas
influências que Scott escreveu o que é considerada uma das maiores obras medievais do Romantismo, Ivanhoe, em 1820. Essas obras destacadas reacenderam os valores medievais de homem perfeito, de herói, da luta com dignidade, trouxeram de volta o Código Cavalheiro, o amor simples, a paixão, o civismo, e o orgulho.
Uma das retomadas mais marcantes do Romantismo Medieval foi à busca pelo conceito de amor, que parecia encoberto com um denso véu durante o Neoclassicismo. A estética neoclássica, dogmática, inflexível, retórica, havia instaurado a regra racionalista como fundamento a construção artística. Os poetas Românticos tentam resgatar o sentimento que parecia estar perdido, dando novos contornos ao passado no qual se inspiraram.
Nessa perspectiva de atenção aos sentimentos, os poetas Românticos achavam- se responsáveis por traduzir o amor e torná-lo universal, disseminando-o, de maneira humanizada, em toda a sociedade. Com isso, o amor passa a ser idealizado na figura da mulher amada, e a natureza passa a ser humanizada, ganhando características femininas.
Segundo Fay (2002), o “Romantismo de amor” emerge com a influência das antigas cantigas folclóricas cantadas pelos bardos e Celtas, nas quais onde se entoavam canções para suas mulheres, que haviam ficado distantes por causa guerra. Alguns poetas Românticos, porém, cantavam o amor proibido entre o cavaleiro por outro homem.
Para alguns autores, assinala Simmons (2011), a mulher passa a ser o símbolo da pureza e da castidade, personificada, muitas vezes, na imagem da Virgem Maria, figura espiritualizada, reconhecida como a senhora da natureza, ou o espírito da floresta. Por outro lado, analisando poemas, é possível notar que as mulheres eram caracterizadas como heroínas independentes que não precisavam mais do vulto masculino ao seu lado para lutar por seus ideais: a mulher torna-se dona de seu próprio destino. Essa característica é herdada das mitologias, especialmente a Celta.
Sabe-se que a mitologia é não apenas a origem da literatura, mas permanece inspirando os autores, através dos séculos. No Romantismo não foi diferente, mais que isso, os escritores Românticos intentaram o resgate de mitologias, não mais a grega e a romana, mas as heranças místicas nacionais.
Com o desgaste natural, pelo uso excessivo das fontes mitológicas gregas e romanas, segundo Agrawal (1999), os poetas medievalistas Românticos passaram a buscar, no folclore de seus próprios países, a fonte mítica que serviria para trazer o novo e o frescor aos seus textos. “Eles encontraram o oeste da Inglaterra – País de Gales, Escócia e Irlanda – impregnados com romances medievais, lendas, e ciclos heróicos” 86
(AGRAWAL, 1999, p. 62).
Foi a partir dessa busca mitológica que os Românticos ingleses começaram a se interessar pelas lendas folclóricas deixadas pelos Celtas. Um dos primeiros poetas a
86 “They found the West of England – Wales, Scotland and Ireland – impregnated with medieval
voltar-se para o estudo desse povo, na Inglaterra, foi James Macpherson (1736-1796), que tornou popular as lendas folclóricas nas ilhas britânicas e no continente. Um dos seus trabalhos mais aclamados é Original Papers, containing the Secret History of
Great Britain from the Restoration to the Accession of the House of Hanover, escrito por volta de 1777.
Os poemas desenvolvidos a partir da mitologia Celta traziam elementos, que remetem ao sublime, alçado através de emoções e pensamentos evocados por uma prosa rítmica de estilo retórico e um sentimento de beleza e expressividade. “As proezas heróicas dos guerreiros Celtas, o solene e sublime aspecto da Natureza Celta, personagens masculinos e femininos em um profundo pathos, são todos descritos através de um discurso mágico” 87 (AGRAWAL, 1999, p. 67).
O interesse da maioria dos poetas recaiu no ciclo mitológico Celta Fenian, muito popular na Irlanda e Escócia. Dessa maneira, o herói bardo Ossian88 ganha destaque na poesia da maioria dos Românticos medievalistas. “os poemas Ossianicos apresentam uma encantadora imagem do passado heróico e romântico dos gauleses. A extraordinária coragem, seu valor, e seus feitos, assim como suas maneiras primitivas, crenças e modos de vida, são neles expressos” 89 (AGRAWAL, 1999, p. 85). Surgido
por volta do século III, Ossian é conhecido, segundo Agrawal (1999), como um Homero Gaélico, em suas histórias são relatados seus feitos e sua força.
Os heróis da mitologia Celta dividem dores e alegrias com os outros seres, como os espíritos, por exemplo. Vários heróis dos contos de Ossian são intensamente humanos, mostrando sua ternura em ocasiões sombrias e tristes. Os poemas Ossianicos, geralmente, humanizavam a natureza, utilizando para isso sentimentos humanos.
Os Celtas, segundo Agrawal (1999), tinham um profundo e verdadeiro amor pela natureza, gostando de admirar seus cenários e as visões propiaciados por ela, principalmente as montanhosas. Era uma natureza, solene, de modos calmos, e sublime.
87 “The heroic deeds of the Celtic warriors, the solemn and sublime aspects of Celtic Nature, the male
and female characters and the deep pathos of their lives- all are described with a magical speech” (AGRAWAL, 1999, p. 67).
88
Personagem do Ciclo Fenian
89 “the ossianic poems present a delightful Picture of the heroic and romantic past of the Gaels. The
extraordinary courage, valour, and deeds of the Gaels, as well as their primitive manners, beliefs and modes of life, find eloquent expression in them” (AGRAWAL, 1999, p.85)
Natureza o lugar selvagem, solitário e imponente, reflexos da força da mãe-natureza, que, por sua vez, proporcia uma imaginação estranha, que só poderia ser expressa literariamente.
O amor dos Celtas pela natureza se mostrava ainda nas descrições feitas sobre os brejos, os pântanos escuros, as fissuras nas rochas, as cavernas, os corregos ocultos, os gritos uivantes dos ventos, as tempestades, o gemido dos furacões, as nuvens pesadas, os trovões longos e barulhentos, os mares temebrosos, as altas montanhas envoltas em névoa, dentre outros. Essas imagens produzem efeitos assustadores.
A influência do Medieval Revival estendeu-se até a Era Vitoriana (1837-1901). Ganhou complexidade e passou por três fases, que são, segundo Agrawal (1999): religiosa, estética e literária. A fase religiosa buscou o revigoramento da tradição Católica dentro do medievalismo, sua contribuição para as artes e para a Idade Média como um todo. Hugh Walker (1855-1939), um dos responsáveis por lutar pela restauração da influência Católica, dizia que a Igreja de Roma era parte integrante física e espiritual do movimento medieval, e não poderia ser deixada de lado.
Esteticamente, buscou-se o alvorecer da pintura pré-Raphaelita e suas características medievais aos moldes exatos de um período anterior ao pintor italiano Raphel (1483-1520), como a exaltação da natureza, a inspiração nos mitos e no folclore. Na verdade, o movimento pré-Rafaelita foi um dos últimos suspiros do movimento Romântico, segundo Agrawal (1999), antes do Modernismo começar a tomar forma sólida.
Ainda conforme Agrawal (1999), na literatura, o expoente mais claro do movimento medievalista Romântico, durante a Era Vitoriana, é Yeats, na Irlanda. Os trabalhos do poeta mostram o revigoramento das tradições Celtas em poemas, peças, e textos filosóficos. Yeats buscou no folclore do país a influência que precisava para levar a frente à Renascença Celta, com outros nomes como Lady Gregory.
O que Yeats herda é, então, um Romantismo que floresce no reinado da Rainha Vitória. Enquanto esteve no trono inglês, a soberana deu a Inglaterra um período de prosperidade econômica com tempos grandiosos para a indústria inglesa, que trabalhava a todo vapor, a ciência avançava em passos largos. Porém, as dificuldades sociais, como
aquelas do começo do século, e do período Romântico, ainda estavam vivas. Na Irlanda, a situação era ainda mais penosa. Nesse contexto, Deus virou peça de dúvida, criando um clima de saudosismo quase melancólico e o pendor ao passado dominou o presente.