A cada grupo de seis a sete famílias visitadas era realizada uma sistematização parcial do que foi compreendido durante as visitas e, posteriormente, ocorria uma devolução pela equipe a estas famílias, totalizando quatro devoluções parciais. As devoluções eram momentos de reencontro da equipe com as famílias visitadas e o momento de socializar experiências, realizar visitas ao lote da família que abrigava o encontro e refletir sobre alguns temas importantes.
Para as devoluções foram realizadas sistematizações parciais das visitas ao grupo de famílias. Desta forma, os membros da equipe se reuniam e discutiam sobre o que mais chamou a atenção durante as visitas. A metodologia utilizada nesta discussão foi uma adaptação do Círculo de Cultura do Paulo Freire (1967). Durante a sistematização, houve a presença de uma facilitadora, representada por uma professora da UFV que conduzia a discussão. Era proposto por ela que cada pessoa presente
23 levantasse uma palavra que resumisse o grupo de famílias visitadas e as palavras sugeridas se tornaram as palavras geradoras. A partir destas palavras, iniciava-se a discussão em torno de suas implicações e, a partir disso, geravam-se temas representativos da experiência com as visitas.
O critério para escolha das palavras geradoras era a possibilidade de síntese representada por elas e que significado teriam no momento da devolução as famílias. Muitas palavras geradoras continham um mesmo sentido e, desta forma, foram reunidas em grupos temáticos. Em cada sistematização, as palavras foram agrupadas em torno de três temas e as informações obtidas e análises realizadas sobre estes temas foram devolvidas, durante as visitas, na forma de instalações pedagógicas.
As instalações consistiam na criação de situações que retratavam o cotidiano de vida do grupo de assentados e estas situações funcionavam como desafios à interpretação de seu significado pelos próprios assentados. Representavam situações- problemas, codificadas, guardando em si elementos que seriam descodificados pelos grupos, com a colaboração da equipe de estudantes (FREIRE, 1967). Estas foram criadas de forma que facilitasse a compreensão de todos os envolvidos e tinham como objetivo retratar a realidade do assentamento como também propor uma reflexão coletiva sobre os problemas levantados.
A propriedade escolhida para a realização da devolução deveria fazer parte do grupo de famílias visitadas e ser capaz de apresentar experiências interessantes de trabalho no lote, as quais poderiam ser compartilhadas com os demais assentados. No dia determinado para o encontro, a equipe chegava pela manhã e iniciava a preparação das instalações, a partir do uso de recursos locais como, por exemplo, solo, plantas, frutos, madeira e lixo encontrado nos quintais para confecção das mesmas.
A questão ambiental esteve representada em todas as devoluções, pois foi a forma mais simples e didática de apresentar as características locais e suas implicações a comunidade do assentamento. Através de uma maquete construída no local (Figura 3) foi possível demonstrar aspectos ambientais do assentamento como moradias, quintais, áreas de pastagem, lavouras, instalações animais, cursos d’água, presença do lixão, que se localiza nos arredores, queimadas, voçoroca, dentre outros.
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2.6.1. ENCONTROS DE DEVOLUÇÃO
A metodologia proposta durante as devoluções seguiu a abordagem utilizada nos intercâmbios agroecológicos utilizados pelo Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata (CTA-ZM). Os intercâmbios são baseados na metodologia, com adaptações, do Movimento de Camponês a Camponês (SOSA et al., 2011) e consistem na realização de visitas entre agricultores e demais instituições, com o objetivo de conhecer na prática as experiências e melhorias obtidas pelos agricultores. Faz parte do processo de motivação e socialização do conhecimento, assim como do compromisso para sua aplicação em outras propriedades (SOSA et al., 2011).
Inicialmente, a família que abrigava o encontro relatava um pouco de sua história e como foi o processo da conquista da terra. Posteriormente, os participantes do dia realizavam uma breve caminhada pela propriedade sede do encontro, coletando algo durante a travessia que tivesse chamado atenção. Logo depois era formada uma roda para facilitar o debate sobre os materiais coletados e o significado de cada escolha. O momento seguinte era as visitas às instalações pedagógicas. Cada instalação recebia um grupo de pessoas por vez e estas debatiam entre si o que foi compreendido sobre a instalação. Em seguida, os grupos circulavam entre as demais instalações e ao final da visualização de todas as instalações, uma discussão geral era realizada. Quando Figura 3. Maquete ambiental criada durante as devoluções ao assentamento Olga Benário. Visconde do Rio Branco, MG.
25 se encerravam as interpretações elaboradas pelos assentados, a equipe complementava as informações e discutia coletivamente quais os objetivos das instalações. Em alguns momentos, o grupo propôs ações no assentamento que buscavam promover melhorias locais e soluções para os problemas levantados.
No momento final do encontro, era proporcionado um lanche aos participantes e esta ocasião favorecia novas trocas de experiências e conversas entre equipe e a comunidade. Na Tabela 1 abaixo uma síntese da metodologia conduzida durante as devoluções parciais.
26 Tabela 1. Metodologia desenvolvida durante as devoluções parciais no assentamento Olga Benário, Visconde do Rio Branco (MG)
O que foi feito? Como foi? O que se discutiu?
1. Mística de abertura Apresentação dos participantes, mística da teia e música Canção da Terra. Quem sou eu? De onde sou? O que faço?
2. História da família Relato de vida da família que abrigava a devolução parcial. Histórico da conquista de terra até os dias de hoje no
assentamento.
3. Caminhada Caminhada conduzida por membro da família que abrigava a devolução ao
longo de seu lote. Ao longo da caminhada, cada participante recolhia material representativo e o grupo discutia em roda o significado da escolha.
4. Maquete ambiental * Maquete construída no local demonstrando aspectos ambientais do
assentamento como moradias, quintais, áreas de pastagem, lavouras, instalações animais, cursos d’água, lixo, lixão localizado nas proximidades e queimadas.
Como manejar as pastagens, evitar jogar lixo no quintal, reivindicar soluções para o problema do lixão, evitar queimadas e como proteger as nascentes.
5.Instalações pedagógicas Cada instalação recebia um grupo de pessoas por vez e estas debatiam entre elas o que foi compreendido da apresentação. Em seguida os grupos circulavam entre as demais instalações e no final da visualização de todas elas, uma discussão geral era realizada.
1°devolução: trabalho e biodiversidade.
2°devolução: relação campo-cidade e inovação/libertação do opressor.
3°devolução: funções /papéis da sociobiodiversidade, princípios da cooperação e o dilema da galinha .
4° devolução: agroecologia/quintais e sonhos.
6.Mística de encerramento Agradecimentos, orações e lanche coletivo. Troca de experiências, de mudas e sementes; avaliação da
atividade; sugestões e relatos de vida.
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