2. TEORI
2.5 M ODERASJONSEFFEKTER
Os primeiros questionamentos que guiaram nosso olhar durante as observações foram os seguintes: A brincadeira está presente na creche pesquisada? Qual a concepção de brincadeira que os profissionais envolvidos apresentam? Como a brincadeira é utilizada na creche? Durante as observações e as entrevistas, estas perguntas foram, aos poucos, sendo respondidas.
Realizamos, inicialmente, uma primeira entrevista, visando coletar alguns dados referentes à concepção de brincadeira que a gestão apresentava.
A diretora da creche possui, em sua formação inicial, Graduação em Pedagogia e Pós-graduação em Psicopedagogia. Em sua própria opinião, ambos os cursos focaram muito a teoria, deixando de lado as experiências práticas, além disso, completa dizendo que, em sua graduação, a creche não fora um tema estudado. No que se refere à brincadeira, compreende que este tipo de atividade é um elemento que deva estar presente nas propostas docentes por contribuir com o
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desenvolvimento amplo das crianças. Ela deixa claro que as crianças precisam ser motivadas a patamares mais elevados de desenvolvimento e que, para isso, cada professor precisa estar atento às suas crianças e ao que podem fazer para levá-las a avançar cada vez mais. Porém, observa que, de um modo geral, as professoras nem sempre acatam suas orientações. Justifica este obstáculo ao fato de estarem naquela função provisoriamente, já que anseiam atuar como “professoras de verdade” em salas de aula e com conteúdos escolares.
A coordenadora da creche possui como formação inicial a graduação em Engenharia Cartográfica. Em 1994, prestou concurso público municipal em Álvares Machado para o cargo de encarregada de creche, para esta função não foi exigido qualquer tipo de formação específica para o trabalho em creche. Assumindo o cargo no ano seguinte, iniciou a sua trajetória em creche. Percebendo a sua própria falta de formação na área e as grandes dúvidas que pairavam sem as devidas respostas, ingressou em um curso de Pedagogia.
“Meu interesse em fazer o curso de Pedagogia, era a Habilitação em Educação Infantil que viria depois. Eu já conhecia o curso e, com a formação em Engenharia eu não poderia fazer, por isso, precisava fazer Pedagogia antes. Durante a graduação em Pedagogia, eu parei no meio, porque o curso da Unesp tem um foco muito grande para o ensino fundamental, então me perguntava o que estava fazendo ali. Mesmo assim, concluí a graduação e iniciei a habilitação em Educação Infantil”.
Em sua opinião, a habilitação ainda não deteve o foco necessário para a creche. Para a coordenadora, somente uma disciplina que abordava os projetos e os estágios é que pôde satisfazer, razoavelmente, a sua expectativa.
Em relação às brincadeiras em sua formação, a coordenadora relembra que, durante a Pedagogia não houve nenhuma disciplina que abordasse o tema. Já na habilitação, houve duas disciplinas, uma teórica e uma prática. Mas que, também, eram direcionadas para crianças de pré-escola e não para creches. No entanto, mesmo não cursando disciplinas especializadas em brincadeiras na creche, confessa que conseguiu enxergar possibilidades naquelas apresentadas para a pré- escola. A coordenadora entende a brincadeira não como um fim, mas como um meio de desenvolvimento infantil. Entende que, quando a brincadeira é utilizada para o aprendizado de regras e de comportamento, a função lúdica desta atividade é
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perdida. Neste sentido, entende que, se houver investimentos na ludicidade da criança, outros ganhos virão, consequentemente, como por exemplo, a coordenação motora, os limites, a disciplina e o ato de se posicionar socialmente.
A coordenadora não apresenta, em sua formação, qualquer outro tipo de curso direcionado especificamente às brincadeiras. Confessa que sempre procura se atualizar, porém, não há, na região, cursos que foquem a brincadeira para a formação continuada dos professores de creche.
Para a sua atuação como coordenadora do corpo docente da creche, confessa que cria muita coisa de sua própria cabeça, valendo-se do que observa no cotidiano da creche. Neste contexto, com a falta de formação inicial e continuada, somente a tentativa e o erro é que ajudam nos acertos.
“Uma ADI que trabalhava com o MI (crianças com 1 e 2 anos de idade), tentou ensinar ‘morto-vivo’ para as crianças, mas elas não aprendiam. Eu entendi que era preciso trabalhar antes da brincadeira, noções de em cima e embaixo, em pé e agachado, para depois brincarem. São conceitos básicos que levarão para a ludicidade. São em momentos assim que eu tento intervir nas ações dos professores. Eu gostaria que elas fossem mais além, que tentassem mais”.
Apesar de suas indicações, as professoras ainda resistem muito, optam por fazer aquilo que lhes permite ter mais controle sobre as crianças, ou seja, ficar dentro da sala, desabafa a coordenadora:
“Para elas (as professoras), sair da sala, juntar as crianças, separar materiais, reorganizar o agrupamento para voltar para a sala e a sujeira, são empecilhos para propostas diferenciadas.”
A coordenadora relata, ainda, que é muito comum presenciar professoras realizando brincadeiras que seriam próprias para crianças da pré-escola, com as crianças da creche. Segundo ela, as professoras não entendem que as crianças estão em patamares diferenciados de desenvolvimento e que, por isso, não compreendem, por exemplo, a razão pela qual foram tiradas das brincadeiras. Para ela, é preciso fazer adaptações das brincadeiras, a fim de que as crianças mais novas possam desfrutá-las.
Tanto a diretora da creche como a coordenadora, admitiram que, durante as HTPC (Horas de Trabalho Pedagógico Coletivo), a brincadeira não é discutida
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teoricamente. Há relatos de tentativas de estudos, porém, não são valorizados por alguns membros do grupo. No dia a dia da creche, as duas percorrem os agrupamentos observando o trabalho que está sendo realizado. Quando possível e necessário, fazem algumas indicações sobre o trabalho das professoras, mas, na maioria das vezes, estas indicações são descartadas.
A rotina – aqui entendida como uma estrutura pedagógica que norteia o trabalho cotidiano nas instituições de Educação Infantil (BARBOSA, 2006) – elaborada pela gestão da creche considera veementemente a brincadeira. A rotina de recreação da creche foi estabelecida de forma tal que todos os agrupamentos de crianças possam aproveitar as oportunidades oferecidas.
Quadro 1 - Rotinas da creche
8h30min às
9h30min Berçário I Berçário II Maternal I Maternal II Maternal III
Segunda Tanque de areia Motoca TV / conto / banho Piscina de bolinha Binquedoteca / capela
Terça Piscina de bolinha Tanque de areia Binquedoteca / capela TV / conto / banho Parque / banho
Quarta TV / área externa e brinquedos Binquedoteca / capela Piscina de bolinha / banho Motoca Piscina de bolinha
Quinta Cavalinho / piscina de
bolinha TV / passeio
Tanque de
areia / banho Binquedoteca / capela Tanque de areia / banho
Sexta Binquedote-ca / capela Piscina de bolinha Motoca Parque / banho Conto / Música / TV Fonte: O autor.
Observamos, entretanto, que no dia a dia da creche, grande parte das educadoras, em momentos recreativos como estes da rotina, permanece sentada enquanto as crianças brincam livremente. Não há qualquer tipo de intervenção, elas apenas olham as crianças para que não briguem ou se machuquem.
Podemos inferir até este ponto que, tanto a diretora da creche como a coordenadora, dentro de suas limitações de formação, entendem a brincadeira como uma atividade que deva fazer parte do cotidiano da creche. E, por parte destas funcionárias não há qualquer tipo de impedimento para que as crianças corram, gritem e se sujem durante brincadeiras propostas pelas educadoras.
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Ambas as funcionárias esperam por resultados positivos desta pesquisa. Para elas, é interessante ter alguém dentro da instituição realizando uma pesquisa científica que aborda um tema referente à creche.
5.2 A Brincadeira na Concepção e na Prática da Professora Participante da