Magaldi (2006) afirma que a formação para a cidadania não pode mais dispensar uma consistente educação para as mídias, em especial para a televisão. Para a autora, é necessário educar para uma compreensão objetiva e crítica de sua linguagem e mensagens, para a identificação de como funciona enquanto mídia comercial, de como interage com as realidades socioculturais e políticas do Brasil e de todo o mundo. Na opinião de Magaldi (2006), seria muito desejável poder oferecer, aos mais variados públicos, programações voltadas para melhorar sua qualificação enquanto telespectadores.
Educar para a televisão consistiria em introduzir nas escolas um processo de aprendizagem de leitura e análise de comerciais, programas de TV, filmes e obras videográficas. Do mesmo modo que a leitura da linguagem verbal, essa aprendizagem exige, basicamente, uma prática devidamente apoiada e orientada. A leitura audiovisual mais qualificada expande a capacidade de compreender, distinguindo e ao mesmo tempo integrando conteúdos e formas. Apura a percepção visual e auditiva, permitindo identificar e apreciar a composição imagem – som – texto, que é a própria essencia dessa linguagem e fonte de sua atração (MAGALDI, 2006, p. 117).
Para Orozco (2001), alguns aspectos revolucionários da televisão lhe conferem um potencial educativo distinto, podendo ser considerada um paradigma educativo. Graças à universalidade do código visual, apresenta, ao mesmo tempo, o
significante e o significado da mensagem, tornando-a mais fácil e agradável ao receptor. Numa comparação entre a televisão e o livro, Orozco (2001) reforça essa natureza específica da TV, ao afirmar que, no caso do texto, a palavra é um signo que se refere a um significado outro, que não está nela. Portanto, só é possível construir sentido através de uma ação interpretativa do leitor. Já o audiovisual se conecta aos sentidos dos interlocutores, estimulando a visão e a audição.
Interatuar com uma fonte educativa que interpela aos sujeitos-audiência essencialmente através dos sentidos e emoções é uma transformação paradigmática importante nas teorias e entendimentos educativos e, particularmente, nas concepções e compreensões da aprendizagem contemporânea (OROZCO, 2001 apud FORT, 2005, p. 93).
É também Orozco (2001) quem afirma que a televisão aberta continua sendo um objeto importante para a análise e para a educação das audiências massivas, sendo sua desconstrução pedagógica o maior desafio educativo, visto que por meio de sua programação são reconstituídas as audiências latino-americanas cotidianamente.
Fuenzalida (2003) e Orozco (2001) são defensores de uma maior aproximação das tevês públicas da audiência, com a finalidade de identificar espectadores em potencial, a fim de conhecer as expectativas quanto à programação a ser proposta às tevês educativas. Ambos afirmam que é preciso ensinar as audiências a ler televisão. Se os receptores conhecem mais as regras da gramática televisa, podem exigir dos produtores de audiovisual e interagir mais com o meio.
Para Fuenzalida (2003), na América Latina, os modelos de televisão pública devem privilegiar, com mais ênfase, as minorias e também legitimar espaços sociais, uma opção que ainda não se consolidou. Ele reforça a importância de a tevê se constituir em instrumento para a construção de políticas públicas, voltadas à formação de uma atitude crítica e ativa por parte da audiência.
Nessa discussão sobre políticas de democratização da tevê pública, diversificação de conteúdos e o espectro das audiências, Fuenzalida (2003) sugere que, do ponto de vista econômico e tecnológico, a regionalização da TV é uma opção mais viável, em lugar da tradicional retransmissão de programas produzidos em estúdios centrais. A explicação estaria no fato de que a produção independente e
autônoma das estações de TV pode ampliar a criação cultural televisiva nacional na América Latina, que ainda apresenta um severo quadro de concentração metropolitana e de marginalização de extensas zonas geográficas.
Fuenzalida (2003) não vê, na proliferação de novos canais, o caminho para que as possibilidades culturais e comunicativas da tevê pública se estabeleçam, mas, aproveitando as já existentes, para incorporar conteúdos que vão ao encontro das necessidades e dos perfis locais e amplos das audiências.
Ao reforçar a importância de focalizar as necessidades do que chama sujeitos-audiências, Orozco (2001) afirma que a análise da programação deve ser acompanhada por estratégias pedagógicas e materiais didáticos que permitam a desconstrução do processo comunicativo. Na interpretação de Fort (2005), acerca desse pressuposto, não se trata de fazer novas produções televisivas, mas apresentar à audiência estratégias e recursos para, através de sua programação preferida, aprender conscientemente. A programação, portanto, servindo como contexto de aprendizagem e promovendo uma desconstrução televisiva que, desde as instituições educativas e culturais, deve focalizar os sujeitos-audiência no sentido em que estes possam exercer uma atitude mais crítica e ativa no ato de ver TV, ou no que alguns autores chamam de televidências.
Segundo Orozco (2001 apud FORT, 2005), exercitando essa percepção, as audiências seriam mais seletivas em suas televidências, poderiam explorar e explorar- se durante o ato de ver TV, aprender a linguagem da imagem que permita ver sua manipulações e estereótipos, escutar os silêncios da mídia em relação a fatos importantes, notar as suas formas de exclusão, além de distanciar-se da programação, para exercer a crítica.
A convergência pedagógica atual entre o televisivo e o educativo tem de se fortalecer e se ampliar. As audiências têm muito mais a ver na televisão e a educação tem muito mais a aprender com a televisão (OROZCO, 2001 apud FORT 2005, p.101).
O pensamento de Martin Barbero (2000) acerca dessa temática encontra pontos de convergência com Fuenzalida (2003) e Orozco (2001). Para Martin Barbero
(2000) a televisão pública precisa trabalhar na perspectiva de construir linguagens comuns, visto que sua função precípua é a construção audiovisual das bases comuns da cultura nacional, sobretudo porque sobre essas bases se articulam as diferenças regionais e locais, além da complexidade geopolítica e cultural da nação.
A televisão, segundo Martin Barbero (2000), será cultural quando for um cenário social de produção e apropriação de significados, de construção de imaginários, memórias e identidades sociais, na qual o educativo seja dimensão fundamental. A especificidade da tevê pública que, diferentemente da TV comercial, interpela mais ao cidadão que ao consumidor, deve oferecer uma imagem permanente de pluralismo social, ideológico e político, segundo a visão desses autores.