1ª Etapa: nesta etapa foram realizados os seminários de apresentação e discussão do projeto de pesquisa com os sujeitos, a seleção e formação do grupo de pesquisa e a elaboração do cronograma de operações a serem realizadas. Também foram apresentados os temas trabalhados nos seminários, através da técnica de grupos focais, que geraram o roteiro para os relatos das histórias de vida. Elegeram-se três temas no intuito de elucidar os aspectos significativos para o objeto enfocado, os quais foram os seguintes:
a) o que me faz interpretar o mundo da forma como eu interpreto? (lembrando que esta primeira diretriz norteou as falas sobre a vida como estudante, a adolescência, as experiências familiares, nos grupos e movimentos sociais, de onde o grupo resgatou memórias de lições importantes para as suas concepções de mundo);
b) qual é o trabalho do pedagogo na escola de educação profissional? (nesta diretriz solicitou-se ao grupo que falasse diretamente sobre o seu papel, sua atividade e a importância que ele atribui à sua prática no universo da ação institucional do Departamento Regional do Ceará); c) qual o significado da educação profissional? (solicitou-se ao grupo que
falasse da sua concepção de educação profissional, até mesmo se descolando um pouco dos conceitos teóricos e tentando elaborar algo próprio, a partir do sentido que a educação profissional tem para cada um).
O intuito com a realização dos seminários com os grupos focais sobre os temas norteadores foi o de realizar uma análise primária do grupo, de sua história, do sentido que tem sobre a sua prática com base na realidade vivida; a identificação de suas posturas em relação com a prática escolar vivenciada no cotidiano da instituição de educação profissional e de seus significados; atitude de negação/afirmação da prática escolar; percepção sobre os problemas traduzidos
para a formação do trabalhador e da trabalhadora a partir de uma concepção cuja característica é marcada pelos valores do mercado; inventário das formas como o ideário pedagógico da nova pedagogia do trabalho interfere na prática escolar e nos fazeres da equipe pedagógica; saberes e racionalidades fundantes do seu agir, seus fazeres, atuais ou presentes. Após essa etapa dos seminários passou- se para os relatos das histórias de vida dos cinco sujeitos que compõem a amostra.
2ª Etapa: momento dos relatos das histórias de vida. O material coletado nesta etapa deu os elementos para a análise dos discursos, o qual buscou levar os sujeitos a “falarem acerca das razões e sentidos que fundamentam suas ações e
seus discursos; trata-se de levá-los a justificar seu agir ou desvelar os saberes que justificam suas falas” (THERRIEN; DAMASCENO, 2000, p.22).
Nessa fase houve maior preocupação com o processo de coleta do que com o produto propriamente dito. A pesquisadora centrou o foco de atenção nos sentidos que os sujeitos dão às coisas, à sua vida e à prática. Desta forma, as questões norteadoras que foram levantadas inicialmente nos seminários foram redescobertas e ressignificadas nos relatos das histórias de vida, pois também serviram como referência para delimitar os referidos relatos. Neste momento ocorreu uma grande imersão na realidade pesquisada, para compreender e interpretar o cenário onde os sujeitos manifestam suas ações educativas.
Cada uma das histórias de vida foi extraída de uma ou mais entrevistas denominadas entrevistas prolongadas, nas quais a interação entre pesquisador e pesquisado se deu de forma contínua e de modo a estimular o entrevistado a explorar o seu universo cultural, sem questionamento forçado.
Os momentos das entrevistas foram concebidos como encontros do grupo de pesquisa, cujas marcas principais foram a empatia, a intuição e a imaginação. Nos momentos das entrevistas propriamente ditas ocorria uma troca mútua de
percepções, sentimentos, emoções. Todas as entrevistas se constituíram como formas especiais de conversação e, neste sentido, interativas. Entrevistador e entrevistado foram, nesse momento, co-produtores de conhecimento. A participação, nesse nível de interação, envolveu também todos os cinco pedagogos que compõem a amostra em uma atividade de produção de sentido, atividade na qual o processo de produção de sentido foi tão importante para a pesquisa como é o sentido produzido para o aprimoramento pessoal e profissional de cada um.
3ª Etapa: organização e análise dos dados. A análise das histórias de vida implicou, inicialmente, a decomposição do todo (transcrição), para, a seguir, ser somada às outras informações já colhidas referentes aos grupos focais, aos dados institucionais extraídos da análise documental e de outras fontes.
A partir desse processo foi feita a categorização dos dados por semelhança de conteúdo. Os blocos categoriais fundamentais ou unidades de significado definido são: a formação e as concepções de mundo; o cotidiano da escola de educação profissional – os sentidos do trabalho da pedagogia; os significados
implícitos e explícitos da educação profissional; e as identidades que emergem do discurso.
Para tratar o material coletado, utilizou-se a análise da enunciação. De acordo com Bardin (1997), a análise da enunciação parte de uma concepção de discurso como palavra em ato, considera a produção da palavra como um processo.
(...) na altura da produção da palavra, é feito um trabalho, é elaborado um sentido e são operadas transformações. O discurso não é transposição transparente de opiniões, de atitudes e de representações que existam de modo cabal antes da passagem à forma linguageira. O discurso não é um produto acabado mas um momento num processo de elaboração, com tudo o que isso comporta de contradições, de incoerências, de imperfeições (BARDIN, 1997, p.170).
Ainda segundo a autora, a análise da enunciação leva em consideração que, nas entrevistas, a produção da palavra é ao mesmo tempo espontânea e constrangida pela situação. Atenta para as condições de produção da palavra conformada pelos três polos de um discurso - locutor, objeto do discurso e interlocutor - apoia-se em três níveis de aproximação: as estruturas formais gramaticais, o arranjo do discurso e os elementos formais atípicos, como os silêncios, as omissões, os ilogismos. A concepção da comunicação como processo e o desvio das estruturas e dos elementos formais são duas grandes características que diferenciam a análise da enunciação de outras técnicas de análise de conteúdo.
Assim sendo, a entrevista aberta é o material privilegiado da análise da enunciação, e essa análise apoia-se basicamente na análise da lógica do discurso, ou seja, na dinâmica da entrevista e nas figuras de retórica. Figuras de retórica, tais como o paradoxo e a metáfora, são indicadores preciosos para a compreensão e interpretação do discurso.
Outro elemento importante nesse tipo de análise é o fato de que cada entrevista é tomada na sua totalidade, compondo um discurso único e singular. Cada entrevista é importante, diz Portelli (1997), por ser diferente de todas as outras.
Cabe, ainda, uma observação relacionada aos limites da transposição das falas - perpassadas por sentimentos e emoções - nas palavras que as transcrevem. Este limite é apontado por Queiróz (1988) de forma muito clara quando diz da dificuldade de transformar o “indizível” em “dizível”. Considera a
autora que a passagem da “obscuridade dos sentimentos para a nitidez do
vocábulo” é um primeiro enfraquecimento da narrativa, uma vez que a palavra não
deixa de ser um “rótulo classificatório” utilizado para descrever uma ação ou uma
reinterpretação do relato oral, o entrevistador, da mesma forma, reinterpreta aquilo que lhe foi narrado.
Pode-se, assim, tentar fazer o discurso escrito o mais fiel possível ao discurso falado. Fica, no entanto, muito presente que, assim como os sonhos têm a ver com o sonhador, e as narrativas nos remetem ao narrador, nelas igualmente revela-se aquele que as interpreta e busca captar-lhes forma e sentido.
Na tentativa de minimizar a interferência na reinterpretação dos discursos a autora fez a validação de todo o material interpretado. Ou seja, devolveu as vídeogravações e o material já transcrito e interpretado para a crítica dos entrevistados sobre os resultados analíticos da conversação.
Essa estratégia foi importante para que os interlocutores confirmassem sua compreensão a respeito dos significados das expressões utilizadas pelo entrevistado. Em outras palavras, foi um momento de checar se entrevistador e entrevistado atribuíam o mesmo significado àquilo que estava sendo dito, o que contribuiu para fortalecer a interpretação e dar maior sustentação à análise. Constituiu-se, também, num momento de grande importância, tanto ética quanto formativa, pois o pesquisado teve contato com um sentido elaborado de suas narrativas e, ao confrontá-lo, isso pode ter trazido um sentido novo à sua existência vivida. Nessa fase ocorreu uma tomada de consciência frente à totalidade de impressões fragmentadas de seu passado.
Somente após a aprovação dos narradores (pedagogos), as sínteses finais de cada relato de história de vida foram incorporadas ao texto final da tese.
3 REFERENCIAL TEÓRICO DE ANÁLISE
3.1 Pedagogia do Trabalho, Qualificação e Educação Profissional: as