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7. LIMITATIONS

7.2 R OBUSTNESS ANALYSIS

Os meios possuem, conforme Pross (1989), o papel de interpretação do calendário, termo grego que designa o “livro de contas” e de compromissos sociais. A organização do tempo representa um controle social das atividades cotidianas e da vida pública. “Quem controla o calendário controla indiretamente o trabalho, o tempo livre e as festas” (LE GOFF, 1992, p. 494). Mesmo tendo, por vezes, proximidades com a ordenação da natureza, como o claro e o escuro (dia e noite), trocas climáticas (férias de verão) e mudanças de estação (primavera, outono, inverno e verão), o tempo é orientado simbolicamente a partir da ordem sociopolítica. Na Idade Média, o poder eclesiástico predominava no calendário. Na contemporaneidade, o ritmo da produção industrial se sobrepõe na organização do tempo oficial. Há, entretanto, diferentes temporalidades vivenciadas numa mesma época que se relacionam aos diversos sentidos sociais que circulam nos territórios, nas relações hegemônicas e na contra-hegemonia.

Para Rogério Haesbaert (2007), o território se constitui por uma combinação de dimensões funcional e simbólica. A primeira representa a exploração de recursos naturais para a satisfação de necessidades ou acúmulo de riquezas. Já a dimensão simbólica cria vínculos entre os lugares e as pessoas que se apropriam de significados como reconhecimento mútuo, pertencimento e abrigo. O processo identitário configurado sobre os territórios, definido como territorialidade, serve como estratégia para criar e manter controle sobre parte de uma superfície, sobre as conexões, a disciplinarização dos espaços e a organização do tempo. Enquanto a territorialidade envolve predominantemente aspectos simbólicos, podendo existir até sem território (como a terra prometida dos judeus), o território só existe nas dimensões material e simbólica, não existindo assim território sem espaço físico e sem territorialidade.

Para o geógrafo brasileiro Milton Santos (1994, p.8), o território habitado, espaço banal de encontro de todos, “cria novas sinergias e acaba por impor, ao mundo, uma revanche”. As apropriações pelos diversos grupos desenvolvem diferentes significados e usos, possibilitando a existência e coexistência no “espaço do acontecer solidário que define usos e geram valores de múltiplas naturezas pressupondo coexistências" (SANTOS, 2000, p. 122). Geram-se assim os inevitáveis laços horizontais de coabitação, solidariedade e convivência. O território é também, de acordo com Santos, lugar de verticalidades, de controle remoto pela ordem global, onde se realiza o acontecer da produção agrícola ou urbana racionalizada funcional; o complementar da relação entre cidade e campo e entre cidades e o hierárquico da racionalização das atividades que se faz sob um comando, uma organização. O geógrafo denomina o controle de lugares remotos de “globalitotalitarismo”.

As relações entre os territórios criam territorialidades contíguas que possuem aspectos de vizinhanças sucessivas e territorialidades em rede pela ligação a pontos distantes e trocas informacionais. Ambas as relações desenvolvem territórios compartilhados e multiterritorialidades. Os territórios compartilhados, segundo Santos, são vários papéis específicos vivenciados em espaços limitados, possibilitando no cotidiano cooperações e conflitos. A vivência destes papéis é possível pelos múltiplos sentidos que podem receber um mesmo território. Já os diversos pertencimentos por diferentes territórios geram, conforme Haesbaert, a multiterritorialidade.

(...) o homem por ser um animal político e um animal social é também um animal territorializador (...) a relação entre o indivíduo ou o grupo humano e o território não é uma relação biunívoca. Isto significa que nada impede este indivíduo ou este grupo de produzir e de ‘habitar’ mais de um território (HAESBAERT, 2007, pag. 35)

Os meios de comunicação possibilitam as conexões entre os lugares que criam a multiterritorialidade. Os sentidos sobre os territórios, construídos em determinados universos culturais trazem consigo significados e formas de se organizar no tempo, ritos e ritmos sobre o cotidiano. As temporalidades estão inevitavelmente localizadas nas territorialidades.

No campo de pesquisa, pude notar diferenças entre os tempos da academia, marcados com um certo rigor; os tempos dos intelectuais e comunicadores entrevistados, raramente pontuais; e os lentos tempos das comunidades indígenas organizados

inclusive com fusos diferenciados. Nos Municípios Autônomos em Rebeldia Zapatista, as comunidades seguem o fuso da Frente de Combate Sul Oriental, duas horas a menos do que a hora oficial do México e três horas a menos do que a hora de verão. Esta última, por exemplo, não é seguida por nenhuma comunidade indígena que transitamos, pois eles diziam continuar na “hora velha” ou “hora de Deus”. No entanto, além dos fusos diferenciados, há ritmos sociais diversos. Em San Cristóbal de Las Casas, uma cidade onde se encontram indígenas e mestiços, mas que segue o calendário industrial - mesmo não possuindo indústrias - dificilmente encontrei pontualidade, inclusive no comércio que atende aos turistas. Como nos orientou o antropólogo Valentin Val, auxiliar desta pesquisa, quando alguém desta cidade marca algum compromisso às 9 horas, significa que pode ser a partir das 9 horas, ou seja, entre 9h e 9h59min.

Já em San Isidro de La Libertad, além desta pouca pontualidade, há uma divisão do ano, diferente da urbanidade marcada principalmente pelo ano novo, carnaval, semana santa, férias de verão, natal e revellión. A comunidade divide seu ciclo anual na festa da Santa Cruz (dia 5 de maio), único dia que se pode consumir bebida alcoólica no Centro dos Autônomos; as plantações de verão (julho); a limpeza da terra (setembro); a colheita (novembro) e a festa do Natal (dezembro). Nesta época, as pessoas realizam atividades diferenciadas, não só sobre os territórios que circulam, mas trocam a relação lenta com o tempo por um ritmo mais acentuado. Assim como em San Cristóbal de Las Casas, os domingos são os dias que se diferenciam da semana em San Isidro de La Libertad, não só porque muitos não trabalham, mas porque celebram a palavra na capela. No entanto, diferente da cidade marcada principalmente pelo lazer e o descanso, na comunidade autônoma é o dia que as pessoas se reúnem na assembleia para discutir o contexto local e, por vezes, regional e nacional, seguido de uma refeição coletiva.