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A economia da cidade de Mossoró tem nas atividades salineiras, petrolíferas e no agronegócio da fruticultura irrigada seu tripé de sustentação há, pelo menos, três décadas. São atividades cujas dinâmicas econômicas extrapolam o cenário municipal e estadual e, por sua imbricação com a pauta de exportação do Brasil, interligam a economia da cidade com a economia nacional e a internacional (ROCHA, 2008).

O sal é uma commodity de baixo valor agregado, sendo o Rio Grande do Norte produtor e distribuidor de 95% do sal que é consumido no Brasil. Em Mossoró, esse ramo da economia gera empregos através do processo produtivo do sal, nas salinas e moageiras, e principalmente no setor de serviços e comércio por meio do transporte do sal em caminhões que circulam no polo salineiro que é formado pelas cidades de Mossoró, Areia Branca, Macau e Grossos. Mossoró contribui com aproximadamente 27% da produção nacional e é o maior distribuidor de sal do país, de modo que circulam diariamente em suas rodovias 300 carretas com esse produto (ROCHA, 2008).

A dinâmica do mercado salineiro de Mossoró está atrelada ao crescimento econômico da indústria nacional, já que o consumo do sal marinho ocorre em diversos setores da economia, como o da indústria alimentícia, da alimentação humana direta, da

agropecuária, de papel e celulose, da indústria química, entre outras, conforme dados do Sindicato da Indústria do Sal no RN, no ano de 2009 (ROCHA, 2008).

Quanto à indústria do petróleo, o Rio Grande do Norte é o maior produtor terrestre deste mineral do país e Mossoró é a cidade que concentra o maior número de poços de produção. A cidade sedia instalações da Petrobrás desde 1980, como ponto de apoio ao desenvolvimento das atividades de exploração de petróleo e gás natural da Bacia Potiguar, formada pelos estados do RN e Ceará, mas quase totalmente localizada no primeiro estado. Em 2003, a produção atingiu 83.000 barris/dia de óleo, 3.700 m³/dia de gás, 569 toneladas de GLP (gás de cozinha) e 3.836 barris/dia de diesel, além da produção de nafta (ROCHA, 2008).

Essa atividade tem grande impacto na economia municipal, seja em virtude dos royalties do petróleo pagos ao município e aos proprietários particulares de terras onde há poços perfurados e em atividade, seja em virtude da participação dessa indústria na arrecadação de impostos, seja através dos investimentos realizados, ou ainda em virtude da cadeia de serviços que gera em torno de si, como alimentação, oficinas de manutenção, postos de abastecimento, telecomunicações, transportes, hospedagem, entre outras dinâmicas que são geradas no interior da cidade (ROCHA, 2008).

A fruticultura irrigada é a outra atividade que dinamiza intensamente a economia local. Seu desenvolvimento na cidade é oriundo dos incentivos do governo brasileiro mediante políticas públicas que, a partir da década de 1960, destinaram-se à “modernização” do nordeste, viabilizando a acumulação de capital nas regiões do país consideradas atrasadas. Nesse contexto, a fruticultura foi a atividade estratégica adotada para o desenvolvimento do semiárido, onde se situa Mossoró (ROCHA, 2008).

Em meados de 1960, uma política agrícola com a orientação de intensificar a interação entre a Agricultura, a indústria de Bens de Capital e a Indústria de Processamento; o que determinou a constituição dos Complexos Agroindustriais Brasileiros (Kageyamaet al., 1990; Belik, 1992; Graziano da Silva, 1996 apud ROCHA, 2008, p. 134)

A partir de então, um conjunto de programas, planos e projetos com essa orientação foi implementado nas décadas seguintes, materializando uma política de irrigação para o nordeste: o I Plano Plurianual de Irrigação (PPI), em 1971, o Programa de Desenvolvimento de Áreas Integradas do Nordeste (POLONORDESTE); o Plano Estadual de Irrigação; o Programa de Irrigação do Nordeste (PROINE) e o Programa Nacional de Aproveitamento Racional de Várzeas Irrigadas (PROVARZEAS), em

1986. Acrescentam-se ainda a criação de linhas de crédito e financiamento como o PROTERRA, o Programa de financiamento de Equipamentos de Irrigação (PROFFIR), os Polos de Desenvolvimento Integrado e muitos outros programas (ROCHA, 2008).

Nesse processo histórico, Mossoró se consolidou como Polo Fruticultor, o que, longe de ser um evento isolado, integrava um movimento do Estado brasileiro de intensificar suas práticas territoriais, por meio de estratégias de Integração Nacional, na tentativa de expandir as fronteiras econômicas do país. As políticas governamentais consolidaram o agronegócio em Mossoró, por meio da isenção de impostos, da intervenção no Mercado de Terras com favorecimentos das empresas de maior porte ou do investimento em infraestrutura, como estradas, energia e perfuração de poços para o abastecimento de água (ROCHA, 2008).

Com isso, Mossoró passou a destacar-se como o maior produtor de melão do país, comercializando seus produtos no mercado nacional e internacional, como os Estados Unidos e a Comunidade Econômica Europeia, sendo reconhecido como área agrícola de modernização e desenvolvimento intenso na região Nordeste. Nesse cenário, a fruticultura local e regional configurou-se como

uma atividade orientada para e pelo mercado externo, a qual se volta, em todas as etapas de sua produção e comercialização, às exigências globais. Tirando proveito também de uma vantagem de Mercado, haja vista que, se a Europa quiser comprar melão, no período de 15 de setembro até 15 de janeiro, terá apenas uma opção no mundo: o Nordeste do Brasil. Mas este mercado impõe critérios, exigências ditas globais, que o Mercado Local haverá de cumpri-las, caso queira integrá-lo (ROCHA, 2008, p. 161).

Conforme informações do município, em 2004 a região de Mossoró produziu 194 mil toneladas de melão, sendo que 84,5% dessa produção, o equivalente a 164 mil toneladas, foram exportados. O restante (30 mil toneladas) atendeu ao mercado interno brasileiro. As exportações de melão movimentaram um volume de recursos da ordem de US$ 64 milhões. O setor é, segundo a prefeitura de Mossoró, um dos grandes geradores de emprego na cidade e na região. De acordo com o Comitê Executivo de Fitossanidade do Rio Grande do Norte (COEX), atualmente a fruticultura irrigada gera 24 mil empregos diretos e outros 60 mil de forma indireta (PREEFITURA MUNICIPAL DE MOSSORÓ, 2010).

Conforme afirma Rocha (2008), nesse contexto, verifica-se entre as décadas de 1970 a 1990 investimentos públicos e privados constituintes de espaço capaz de suportar as exigências do mercado, no intuito de se tornar um território de produção e

consumo globalizado, expresso na modernização agrícola, com a construção de perímetros irrigados, de infraestrutura associada aos transportes, aos recursos hídricos e à criação e ampliação de vias de acesso e circulação.

Todos esses processos produtivos são reconhecidos geradores de emprego, mobilizando uma quantidade considerável de mão-de-obra quando contabilizados em empregos diretos e indiretos, ainda que historicamente a necessidade de trabalhadores em cada um destes processos produtivos venha diminuindo como resultado da reestruturação produtiva, especialmente a partir da década de 1970.

Como se vê, os processos produtivos que constituem o tripé de sustentação da economia local estão diretamente vinculados ao capital nacional e internacional, seja diretamente, recebendo investimentos e servindo de local de acumulação destes capitais – como no caso da fruticultura e até mesmo do sal – seja indiretamente, gerando capital para o Rio Grande do Norte, que detém o monopólio sobre a exploração de petróleo, considerado um produto indispensável para o Estado brasileiro, na implementação desuas políticas econômicas e políticas públicas em geral.

Mas o difundido vigor econômico da cidade não se esgota no tripé sal/petróleo/fruticultura. Trechos de uma reportagem jornalística do Rio Grande do Norte, publicada em 2008, expressam bem as relações mais recentes do capital com esse lugar:

O crescimento de Mossoró é destaque nas principais publicações do país. Depois de virar matéria na revista Você S/A, da editora Abril, agora a cidade vira manchete nas páginas da revista Istoé/Dinheiro, edição passada. Com o título "Corrida para o interior", reportagem [...] mostra porque Mossoró se transformou numa das cidades de porte médio brasileiras mais atraente para investimentos no país. É para cá que os investidores estão vindo, de olho em um mercado de consumo promissor.

Para justificar a força econômica de Mossoró, a Isto é cita como exemplos a construção do Mossoró West Shopping, do Campus da Universidade Potiguar (UnP) e a loja do Atacadão (Grupo Carrefour), empreendimentos localizados no prolongamento da Rua João da Escóssia, bairro Nova Betânia, obra realizada pelo Governo Mossoró da Gente. A Prefeitura Municipal acreditou na expansão da área, investindo em obras estruturantes.

A posição de Mossoró no cenário econômico nacional não se deu por acaso. Para atrair os investidores, o Poder Público Municipal investiu em obras de infraestrutura, como destaca a revista Isto é: "Para se ter uma ideia de como o crescimento de Mossoró vem se dando de forma rápida e sustentável, há pouco mais de um ano a Prefeitura Municipal investiu em obras de infraestrutura (iluminação, água e energia) em uma área urbana da cidade”. O que antes era um matagal transformou-se rapidamente numa das áreas urbanas mais promissoras da cidade, atraindo outros investimentos, como loteamentos para construção de condomínios residenciais, alguns com 400 unidades habitacionais. A Isto é cita a expansão imobiliária vivenciada por

Mossoró para destacar um dos setores onde estão as melhores oportunidades para se fazer negócios, gerar empregos e renda no Município.

No setor da construção civil, sobram postos de trabalho, já que o desemprego é zero no setor. O presidente do sindicato das indústrias do setor disse à Isto é que até o final de 2008 mais de 500 unidades habitacionais estarão sendo entregues no setor, boa parte composta por condomínios verticais fechados. A produção de petróleo, de sal marinho e de frutas irrigadas também contribui com o desenvolvimento de Mossoró.

Fica bem evidenciado acima o importante papel do Estado como indutor do crescimento econômico de Mossoró. É com recursos públicos que as obras de estrutura e infraestrutura são financiadas, para atrair e viabilizar os investimentos do capital. De igual modo acontece também com outro ramo econômico em Mossoró, o chamado turismo de eventos. Mediante uma agenda de eventos culturais e de negócios que atraem turistas do Nordeste e de todo o país, a Prefeitura Municipal estimula a rede hoteleira a construir novos hotéis na cidade.

Além disso, a Prefeitura participa diretamente do processo, através de incentivos concedidos pelo Programa de Desenvolvimento Econômico (PRODEM). No caso do Hotel Ibis, por exemplo, o governo municipal doou o terreno e assegurou incentivos fiscais, garantindo a implantação do empreendimento (Mossoró, 2011).

O PRODEM também tem sido utilizado para atrair empresas para o distrito industrial da cidade, que obteve um crescimento no número de empresas nos últimos três anos, passandode 03 para 34. Sobre este fenômeno, assim se manifestou a chefe do executivo municipal em 2012:

“Graças aos incentivos do PRODEM, e a uma política de governo focada na expansão industrial e no desenvolvimento da cidade, estamos possibilitando a geração de emprego e renda para milhares de mossoroenses e, assim, melhorando a vida dessas pessoas” (PREEFITURA MUNICIPAL DE MOSSORÓ, 2012)

Com esse conjunto de atividades econômicas, está minimamente caracterizada a economia local, a qual articula novos e velhos ramos econômicos que guardam, para seu nascimento e reprodução, estreita relação com as políticas públicas do Estado.