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Pudemos perceber também que o processo de urbanização da cidade de Mossoró, cujo ritmo foi ditado à medida que chegavam e se consolidavam na cidade as atividades econômicas que constituem seu tripé de sustentação, o sal, o petróleo e a fruticultura, pois atraíam pessoas em busca de trabalho que aqui fixaram residência (ROCHA, 2005), trouxe consigo mazelas sociais, cujo ônus parece concentrar-se nas populações urbanas periféricas. Sobre esse processo de urbanização, um entrevistado diz:

A gente morava em São Rafael [...] lá foi coberto d’agua, aí eu vim para cá [Mossoró] em [19]72 [...]. Aqui é bom, aqui é bom... mais ou menos. Aí, daí para cá Mossoró foi crescendo, o povo deixando os sítios, deixando os lugares pequenos e só se aglomerando [...] para você ver como tá hoje em dia Mossoró: marginalização, a rua, o fluxo de carro muito grande, grande...de moto, grande demais, não tem espaço nem pra gente andar, nem a pé, nem nada. Eu vou na rua [centro da cidade] e vou de ônibus e vou com medo. Deixo em casa a carteira, deixo em casa os documentos, deixo em casa o relógio, porque já fui vítima já. Já fui vítima já, aqui, perto daqui! (ENT 26, p.103-104).

O processo de urbanização da cidade foi acompanhado pelo crescimento da violência urbana, como reitera o mesmo entrevistado em outro momento e, também, outros sujeitos da pesquisa.

Já ontem houve um tiroteio aqui, já agora houve ali, aqui é direto. Isso aí a polícia não tem culpa não, a polícia faz o trabalho dela, só vem depois do acontecido [...] Aí aqui a gente paga, nós somos uns prisioneiros, na rua a gente anda aí assombrado. Você ficar aí fora de noite? Mamãe mora aqui só, meu pai faleceu. Ela vive aí trancada, direto [...]Mossoró tá entregue às baratas. [...] Porque aqui a gente não pode sair para canto nenhum. O meu lazer é pescar, não posso ir. Porque se for, pode deixar o caixão em casa. É pescar, aí pronto. Aqui nós somos uns prisioneiros. O marginal é quem vive solto na rua aí, nós vivemos como uns prisioneiros (ENT 26, p.101-104).

Uma das entrevistadas expõe a gravidade do problema e o impacto da violência na qualidade de vida e na saúde da população:

E outra coisa que nós necessitamos muito é como se fosse assim de uma paz, nós estamos precisando assim de uma paz muito grande porque se a gente tá em casa, tá preocupado, porque tão arrombando as casas agora à noite, com o povo dentro de casa, isso aí a gente fica muito preocupado, porque se a gente sai é preocupado, se tá dormindo não dorme sossegado, se vai ao centro é preocupado, isso aí necessitava assim uma ação [...] acho impossível isso, isso aí precisava muito de uma coisa que evitasse isso porque o cidadão não pode ter paz? Só quem pode ter paz é esse povo [que] vira e revira e agente fica na mal porque não tem uma pessoa pra dizer assim “eu vou acabar com isso” ou diminuir. Isso aí prejudica muito a gente, muito mesmo porque a gente vive sem paz, é... aí fazendo campanha de paz, que paz? Que cada vez tá pior, não existe essa paz! Não existe pra gente não. Isso aí é o que mais tá perturbando a gente porque a gente vive num lugar que a gente tá vivendo uma vida agoniada, não sabe como viver. Isso aí até prejudica a saúde da gente porque fica dormindo preocupado, isso aí tá prejudicando também (ENT 22, p.86).

Um idoso, ao falar da violência, estende o problema para outros bairros que não foram campo de investigação, mostrando que a violência não se restringe ao espaço urbano dos locais investigados:

Feliz daquele que sai de casa, vai lá na rua e chega em casa em paz, porque é atacado na rua, aqui no centro! Só se vê as conversas: “tomaram a bolsa de fulano”... O rojão aqui tá pesado [...] Eu tenho um conhecido que mora lá no Belo Horizonte, mesma na rua dos marginal, dos maconheiro, vou de bicicleta e boto minha carteirinha de ônibus no bolso, porque se tomarem a bicicleta e deixarem eu vivo, eu vem nos ônibus né!? Se eu tiver trinta ou quarenta real aqui, fica trancado em casa. A gente aprende às custas da gente! [...] Deu no rádio... deram uns tiro num, mataram outro, lá no auto da conceição. Todo dia matam gente aqui, todo dia! Deus me livre (ENT 23, p.89).

Alguns desses sujeitos mostram como a violência compromete diretamente a questão da acessibilidade geográfica às Unidades Básicas de Saúde, pois a exigência de ir para uma fila de madrugada, a fim de “pegar uma ficha” para o médico, expõe diretamente os moradores à violência das ruas num horário crítico.

Você chega pra marcar uma ficha é a maior cachorrada, você vai marcar um exame, você chega lá [aí dizem] “venha amanhã”, aí você vai no outro dia, se acorda de madrugada pra ir aí chega lá, a atendente que marca os exames chega bem sete, oito horas da manhã, oito e tanto, aí abre a janelinha aí [diz] “venha amanhã” quatro , cinco vezes durante a semana botando o pessoal pra andar à toa. Porque não diz logo a verdade, no dia certo?: “Rapaz, venha tal dia que não estamos marcando exame”.Aí fica botando o povo pra andar à toa, o povo se acorda de madrugada, arriscando a própria vida, você sabe como é Mossoró né!? Chega lá, fica até sete e meia, oito horas da manha, a pessoa chega, [dizem] “venha amanhã de novo”. Ficam fazendo de você o que? (ENT 16, p. 43).

Pra falar com ele aí [o médico da UBS], tem que pegar uma ficha de madrugada. Mas se você for para lá de bicicleta, você um relógio tem que deixar em casa, um celular velho tem que deixar em casa, porque se você andar com eles os delinquentes, meliantes, lá toma, chega lá aí “ei, aí pega por fila [a fila na calçada da UBS]. Tem o que nos bolsos? Deixe eu ver! Vai e toma”. Já aconteceu agora, levaram a televisão de lá [da UBS], a televisão que tinha lá de LCD. Lá tem essas câmeras, olho vivo, e não valeu de nada. Os cabras levaram a televisão de lá de LCD, até hoje, o cabra levou brincando. E aí pronto. A saúde daqui é assim, entregue às baratas (ENT 26, p.100).

De quatro horas! [da madrugada]. E do jeito que tá, a gente que não pode nem sair de casa [como é que faz?]. Um dia desse um casal que saiu pra pegar a ficha o cara deu uma “carrera” neles. É impossível isso! Porque não deveria melhorar isso? Porque sai de quatro horas, se quiser pegar uma ficha, se chegar mais do que isso, não tem mais ficha. Então isso, deveria ter uma melhora também, por acaso, um vai pegar uma ficha aí vem os “bonito” e faz o que quer com ele né!? Dando “Carrera” atrás do povo, se não querem fazer nada, mas tão fazendo graça né!?Isso aí deveria ter uma melhora também, entregar essas fichas mais tarde um pouquinho, porque de quatro horas não tem cabimento. Aí fica impossível porque de quatro horas é cheio dos “boy” aí. (ENT 22, p. 87)

Aí pra o centro de saúde [pegar uma ficha]. Tem que passar uma noite de sono pra pegar uma ficha... e às vezes o médico não vem. (ENT 23, 90)

Nesse contexto, o problema da violência se constitui, simultaneamente, como problema de saúde, pois, se por um lado, através dela, as pessoas têm sua vida e sua saúde ameaçadas, por outro, o risco da violência reduz a acessibilidade aos serviços de saúde. Mas, pelo que pudemos constatar, a violência também se articula com muitos outros problemas sociais vividos nas periferias da cidade. Uma mãe, ao falar do filho desempregado, mostra sua luta e seu medo, para que ele não adentre o mundo do crime. Segundo ela, é essa a realidade do jovem em Mossoró hoje:

Esse meu filho está com essa cirurgia para fazer, ele não tem o ginásio e não tem o 2º grau, tem vários currículos pelas firmas. [...]Aí pronto fica sem trabalhar, se ele trabalhasse pelo menos, ele me ajudava muito, mas não. Pega um biscate aqui, outro ali, outro acolá, mal dar para pagar o papel de luz, o papel de água. [...] Não tem mulher, é uma pessoa só e eu tenho que ajudar para não ver ele com certas qualidades, metidos com certas coisas né, porque hoje em dia os jovens a maioria todo mundo sabe como é que está sendo né, a mãe tem que tá em cima, tem que tá: meu filho tá faltando isso, tá faltando aquilo, para não ter que mexer em nada de ninguém e eu vivo assim essa batalha, sem saber o que fazer (ENT 17, 49).

Na continuidade do diálogo, ela expõe a tentativa e insucesso de conseguir um trabalho para ele, junto aos políticos da cidade. Ao fazer isso, coloca em evidência as estratégias utilizadas pelos políticos naquela periferia para obter votos nos pleitos eleitorais.

Vida boa ele não tem, porque não tem nem emprego para viver. Agora, [ele] é trabalhador! Mas não tem [emprego]. Falei com Dr Leonardo [deputado estadual], prometeu a ele um emprego nem que seja de varrer a rua, eu disse “Dr Leonardo não tem problema não, para quem não tem o primeiro grau como foi pedido a ele, até no carro de lixo, ele pegar o lixo no meio da rua, porque é trabalho, todo trabalho é digno, todo trabalho é honesto”. [O deputado] prometeu mas... fala com fulana, fala com cicrana, fala com Claudia Regina [vereadora] que a gente deve falar com essas pessoas do pistolão né. Hoje em dia, um jovem para trabalhar tem que ter um pistolão. Bote um jovem pra trabalhar para não ver um jovem numa esquina, não ver um jovem pegando no que é dos outros! (ENT 17, 49).