CAPÍTULO 5. ANÁLISIS DE DATOS Y DISCUSIÓN DE RESULTADOS
5.2.2 Análisis e interpretación de datos
5.2.2.1 Observación no participante. Interacciones asíncronas
“We still haven not left the era of the screen” (MANOVICH, 2001: p.115).
Walter BENJAMIN falava com veemência acerca da relação das ruínas com a história, com o passado. Para este autor, a experiência era sempre o patamar em que o contacto com o passado era feito mediante a ruína. Havia uma mediação, a ruína era o que mediava, o que restava para fazer a ligação entre este mundo actual e o anterior. E é esta zona de resto, que é chocante, que
nos desperta a imaginação, o sentido de exploração; um tipo de exploração que o ciberespaço também exige, porque o lugar-máquina das tecnologias de comunicação é o nosso habitat para tudo. GIBSON diz que o ciberespaço, na vertente de Internet:
“(. . . ) It’s become the place where we look for everything. We’re doing something new here. It resembles some things we’ve done before, but it’s...it’s different. I think it is probably as big a deal as the... the creation of cities” (NEALE: 2003).
Neste ponto é que o ciberespaço é precisamente pura revolução: é o local onde podemos fazer tudo. Só que as cidades já representavam isso no mundo físico pré-electrónica. Era o espaço urbano que tinha todas as condições (boas e más) de vida inexistentes noutros locais. Hoje, passando da fase de procura de comida à fase de procura de informação, o ciberespaço, em jeito de Google, é o “espelho, espelho meu” que contém todas as respostas, aquilo que nos devolve a imagem do real que temos hoje. O real é composto de um presente veloz, um futuro hiper-plástico e um passado em ruínas.
Certos artistas como Chico McMURTRIE fazem esculturas com resíduos, com restos de máquinas, com o que está desligado, no sentido de afirmar a per- feição dos constructos mecânicos; o que MAcMURTRIE apelida de a “Raça da Máquina”. De facto algo resta, e restou porque ficou inerte perante a velo- cidade injectada no espaço de comunicação. Filmes como Taxandria (Raoul SERVAIS, 1995) mostram-nos o que resta, o que ficou, o que se encontra des- conexo e exige uma mediação no presente hipersónico. Até GIBSON afirma que “I’ve sort of been looking at, you know, where this whole crazy thing came from. All these cities...” (NEALE: 2003). Por assim dizer, há uma es- tupefacção relativamente à criação das cidades, porém toda obra de GIBSON é atravessada e compenetrada pelo imaginário urbano. Aliás, a ideia de cibe- respaço como território a urbanizar, com sítios à venda e para aluguer, com zonas perigosas e livres, é uma metáfora de mundo electrónico como mundo urbano. Até mesmo antes de GIBSON, LISBERGER já o tinha feito em Tron. No entanto, se recuarmos mais no tempo, duas décadas antes de Tron, ou de qualquer comentário actual de Paul VIRILIO ou BAUDRILLARD, o grande McLUHAN dizia, em The Medium is The Massage, que surgiriam, com a nova dimensão eléctrica das então emergentes tecnologias de informa- ção, verdadeiras cidades de circuitos. O futuro seria de facto a ligação, o
que não se conseguia prever nos anos 60 era o “como”. Na perspectiva de McLUHAN o que restaria das cidades seria uma espécie de museificação. Ele afirmava que a configuração das antigas cidades se reduziria à das feiras, fi- cando idêntica à dos parques temáticos. A consequência da dimensão eléctrica seria que os espaços urbanos deixariam de ser ícones da tecnologia, ficando então resignados à condição de monumentos da era industrial dos transpor- tes ferroviários. E na perspectiva das gerações futuras alguém se encarregaria de reconstruir esses espaços, se houvesse interesse nisso, em aproveitar e em estimar ruínas. Acrescenta McLUHAN que:
“The circuited city of the future will not be the huge hunk of the concentrated real estate created by the railway. It will take on a totally new meaning under conditions of very rapid movement. It will be an information megalopolis” (2001: p.72).
Com um toque de mestre, eis que McLUHAN nos diz tudo, pois é a visão urbana e boémia do ciberespaço de GIBSON que retoma a perspectiva territo- rial de McLUHAN, por oposição à da facção “NASA” (que entende o espaço como algo a conquistar de forma militar num planeta longínquo). Na afirma- ção de McLUHAN tudo de novo se desenha. A cidade de circuitos do futuro não empatará a sua energia nos volumes urbanos, dado que, pelo contrário, aproveitará o novo significado da velocidade, instituindo-se enquanto megaló- pole de informação. Contas feitas, McLUHAN visionou o ciberespaço. Toda a dimensão de Las Vegas e de Nova Iorque que GIBSON identifica no ciberes- paço, com pitadas de hologramas de Tóquio, é na verdade um prolongamento do que McLUHAN referiu. GIBSON esculpiu e poliu o conceito. Mas fê-lo bem, embora toda a sua visão seja no mínimo concomitante ou, melhor ainda, comprometida com as imagens que LISBERGER e DALEY nos fornecem em Tron, quando referem por exemplo que:
“A paisagem (...) transformou-se em algo com torres angu- lares, edifícios, iluminações, energia reticulada, maciços, formas semelhantes a montanhas e rios de refulgência, e lugares queima- dos e estéreis sugerindo desertos. Todo o conjunto se definia em formas de rede, parecendo-se mais que tudo, com um mundo de circuitos” (1982: p.53).
Impensavelmente, no ciberespaço e no espaço da cidade real há algo de deserto sugerido em ambos os domínios. Na cidade as ruas podem ficar de- sertas ou não se conhecer ninguém na multidão, mas o mesmo ocorre no cibe- respaço. A dimensão do lugar-máquina é ainda mais esmagadora que a de um espaço real, no sentido em que se tem ligação ao mundo inteiro em simultâneo. É muita informação para captar, não há mediação possível. O ciberespaço é um campo de mediações-máquina, um lugar-máquina como a Matrix criada pelos irmãos WACHOVSKI, uma cidade ligada por máquinas, feita para má- quinas. GIBSON diz que o ciberespaço é uma dimensão de “complexidade impensável” em Neuromante, ainda que outros romances seus se sugira coi- sas diferentes. Em Idoru, por exemplo, Laney é uma personagem que anda à procura de padrões nos fluxos de dados do ciberespaço; e em Mona Lisa Overdrive (1988) Gentry pretende descobrir a verdadeira forma do ciberes- paço. Mas bastaria ler somente McLUHAN para se descobrir que o lugar da tecnologia surge como reacção à ruína urbana, à cidade perigosa, tornando-se uma metáfora e simultaneamente uma tecnologia de eleição.
O espaço urbano de cidades como Detroit provam que a realidade está a desaparecer para o ciberespaço, o outrora invisível ciberespaço implementa uma “estética da desaparição” (VIRILIO), absorvendo os fluxos que as cida- des antes detinham em exclusividade. Por este motivo é que certas cidades se tornam puras ruínas, espaços esquecidos como os do filme Taxandria. GIB- SON critica em concreto Detroit, referindo que esta é uma completa cidade fantasma, pelo que adianta que:
“Someone proposed several years ago that the place simply be allowed to fall apart, and that it would be The American Acro- polis"(NEALE: 2003).
Parece-me bastante crítico, no entanto não deixa de ser verdade que, com a Revolução Electrónica (BURROUGHS) tudo pareça inerte, quando compa- rado com as velocidades dos dados “ciber”. Em Detroit, a cidade regressa ao campo, porque aquilo que levou as pessoas a erigir aquela cidade já não se justifica, a concentração é dispensável. Toda a área urbana se assemelha a um cemitério industrial. O mesmo se passa em relação a alguns centros industri- ais na Europa urbana. Há alguns anos atrás, GIBSON e STERLING pensaram que na Internet não iria existir a oportunidade de enriquecer, pelo que esta se
tornaria uma espécie de ruína esquecida, um gigante site fantasma das corpo- rações. Verdade seja dita, a história encarregou-se de limpar e manter os sites corporativos, deixando no subsolo do ciberespaço apenas os sites gratuitos e feitos por amadores. Hoje o ciberespaço é tão corporativo que nos deixa a sonhar somente com um mundo não-mediado, um mundo sem as ligações das corporações. Regressou-se de novo à fase de sonhar com um território virgem por explorar...