• No results found

2. TEORI

2.3 R OBOTIC P ROCESS A UTOMATION (RPA)

Ao contrário de uma tendência de outras organizações evangélicas, os pastores da Universal não possuem formação em teologia. Para o principal líder da Iurd, o bispo Edir Macedo, a formação teológica é desnecessária. Em A libertação da teologia, o papa da Universal afirma que "todas as formas e todos os ramos da teologia são fúteis". Macedo é ainda mais incisivo ao condenar "o cristianismo de muita teoria e pouca prática; muita teologia, pouco poder; muitos argumentos, pouca manifestação; muitas palavras, pouca fé"130.

Logo, tem-se um conjunto de pastores e bispos doutrinados de uma forma bastante peculiar, desprezando os preceitos da teologia. Qual seria então os critérios de promoção entre os próprios pastores? Quem teria as condições de ocupar os cargos de destaque da Iurd? Um dos principais requisitos, sem dúvida, é a habilidade em se comunicar. Ser jovem também é fator positivo, já que é comum se ver pastores nomeados131 ainda adolescentes. Ricardo Mariano, sociólogo especialista no movimento iurdiano, sugere também uma resposta:

Quanto à mobilidade na hierarquia eclesiástica, há forte correlação entre capacidade de arrecadação de recursos e promoção. Os mais bem-sucedidos na coleta financeira e no crescimento da membresia dos templos sob sua direção tendem a obter acesso a programas de rádio, espaço na tevê e ter suas reivindicações atendidas. Logo são removidos para dirigir templos maiores (MARIANO, 1999, p. 63)

Embora a direção da Iurd não negue que existe muita rotatividade entre as lideranças religiosas, o bispo Macedo confirma que é direito do pastor uma moradia, assistência médica, plano odontológico, lazer (geralmente em sítios da igreja), além de uma ajuda de custo mensal. Esse pagamento não é normatizado e semelhante entre cada liderança. Para o bispo, “Há pastores e pastores, bispos e bispos. A maior injustiça é a igualdade. Os que mais se esforçam, jejuam, lutam pelo povo, crescem”132.

130

Mariano, 1999, p. 65

131

Os pastores nomeados são uma espécie de pastores auxiliares. Ao contrário dos pastores consagrados, eles não precisam ser casados e não podem realizar batismos nem casamentos. (MARIANO, 1999, p. 63)

Os comandantes da Universal não negam que são rigorosos com a conduta de seus pastores. Deslizes, seja na administração do templo, seja na vida pública, são alvos de punição. “O povo, os obreiros e os demais pastores fiscalizam. Recebemos denúncias por e-mails, cartas, telefonemas. E quando comprovadas, somos radicais, o pastor é imediatamente desligado”133, conta o bispo Edir Macedo. Assim, para ele, a arrecadação de dízimo não é fator principal em uma trajetória bem sucedida de sucesso profissional de um líder iurdiano.

Mas a atitude de fornecer uma contribuição mensal destinada à instituição religiosa não é facultativa. Embora uma pesquisa de opinião apresentada por Campos134 mostre que 12.5% dos fiéis iurdianos não contribuem com o dízimo, os pastores demonstram em seus discursos a obrigatoriedade de se “ofertar à Deus”, como uma necessidade para obtenção de graças divinas. Perceba como o discurso iurdiano coloca a figura do divino como uma entidade endividada com o fiel devoto e dizimista:

Segundo os pressupostos de Macedo (O Globo, 29.04.90), é inadmissível Deus deixar de cumprir o que Ele um dia teria prometido. “A Bíblia tem mais de 640 vezes escrita a palavra oferta. Oferta é uma expressão de fé. Se Deus não honrar o que falou há três ou quatro mil anos atrás, eu é que vou ficar mal”. Temos aqui, não mais um ser humano endividado, mais sim um “deus endividado”. Essa dívida com Deus começa quando o filho de um iurdiano ainda é um recém-nascido. Para as crianças não há o batismo, mas sim o “dízimo mirim”, uma oferta dada pelos pais para garantir o crescimento da criança com saúde e prosperidade. (CAMPOS, 1997, p. 371)

É também dada como justificativa recorrente da constante exigência do pagamento do dízimo a repetição de um pensamento atribuído ao santo de devoção católica São Francisco de Assis. Diz a tradição cristã que São Francisco negou a condição social privilegiada que possuía e distribuiu os bens que herdara de seu pai aos menos favorecidos economicamente. Porém, na ótica iurdiana, a doação não é voltada para o próximo, mas sim direcionada diretamente aos interesses divinos, ou

133

Tavolaro, 2007, p. 213.

seja, ao pagamento do dízimo às lideranças religiosas. Com o lema, “É dando que se recebe”, arrecada-se muito dinheiro e se promete inúmeras graças.

Além de pastores que não possuem habilidades suficientes para comover a multidão de fiéis e consequentemente obter sucesso financeiro em prol do templo, as mulheres também não são bem vistas à frente dos templos. Embora existam, as pastoras não recebem o mesmo prestígio dedicado aos seus colegas de profissão do sexo masculino. A Iurd possui uma postura machista e acaba por conduzir suas pastoras a seguirem seu caminho de pregação em outras denominações evangélicas. Em entrevista à revista Veja datada de 06 de dezembro de 1995, a esposa do bispo Edir Macedo declara que para seu marido a mulher não pode atrapalhar o homem. "O Edir acha que mulher não pode mandar em casa, que deve ser discreta na hora de se vestir, que deve falar pouco, que deve ser boa mãe e boa dona-de-casa". A orientação que se faz às mulheres da Universal é que elas sejam submissas e obedientes a seus maridos135. Para o bispo Macedo a submissão feminina deve ser encarada como algo natural, amparado por preceitos bíblicos. Os pastores e bispos, bem como os fiéis, são orientados a se colocaram como “os lideres” no relacionamento conjugal. “Quando a mulher manda no marido, o pastor não cresce. Ela domina e não dá certo. (...) O mais bonito na mulher é a sua simplicidade, a elegância de sua discrição”136, assim aconselha Edir Macedo.

É importante notar que existe uma rotatividade entre os líderes do templo. A estadia de um pastor em uma comunidade não excede os dois anos. Esta é uma estratégia da direção da Iurd, uma tentativa de evitar uma maior proximidade entre pastor e fiéis para que o primeiro não tenha tempo para formar um grupo dissidente da Universal.

A vida dos pastores não é fácil. Em média, um pastor participa de quatro a cinco cultos por dia, além de prestar atendimento aos fiéis antes e depois dos encontros. A dedicação tem de ser intensa e as pressões dos superiores fazem parte do dia-a-dia. É comum notar a existência de ex-pastores, ou seja, fiéis que

135

Mariano, 1999, p. 61.

abandonaram o ministério eclesiástico e voltam a participar dos cultos como fiéis obreiros.

Também é comum acontecer a expulsão de uma liderança religiosa por má conduta. O regimento dos pastores e bispos é rígido e erros considerados graves não são perdoados. Veja o relato a seguir, de Douglas Tavolaro. O biógrafo de Edir Macedo conta o episódio do desligamento de um bispo, convertido há quase vinte anos, que cometeu adultério. Em uma sala fechada, no Rio de Janeiro, em que a platéia era formada exclusivamente por lideranças iurdianas e suas esposas, o bispo Romualdo Panceiro, a maior autoridade da Iurd no Brasil quando o bispo Macedo não está no país, comanda uma reunião. No altar estão o bispo Panceiro e o bispo adúltero. Enquanto reina um clima de tensão tanto na platéia quanto no altar, Panceiro diz, se referindo ao seu colega que havia traído sua esposa:

Eu trouxe você aqui para olhar na cara desses pastores. Durante esse tempo todo você pregou a fidelidade para eles, não foi? Dizia que era importante ser fiel a Deus e à sua mulher. Dizia que a salvação de sua alma dependia dessa fidelidade, não foi? Porque é o que a Bíblia diz, é o que nós acreditamos, é o que nós vivemos. Você cobrou isso deles. E agora? (...) Por favor, nos dê licença. Essa reunião é somente para homens e mulheres de Deus, pastores da Igreja Universal. A partir de hoje, você não é mais nada na igreja. (TAVOLARO, 2007, p. 105-106)

Assim, é diminuído em uma unidade o número de 9.660 pastores e bispos que comandam a Igreja Universal do Reino de Deus, em 4.748 templos espalhados por todos os estados brasileiros e pelo mundo137.

137 Tavolaro, 2007, p. 243.