Reagan queria vencer a Guerra Fria. A perspectiva de vencer a guerra nuclear era através da preempção, do ataque surpresa. Foi este contexto que levou ao episódio do vôo KAL-007; um Boeing 747, com 269 pessoas a bordo, que foi abatido sobre a Sacalina em 01/09/1983.
Em 1983 os soviéticos estavam fazendo testes de ICBM’s86 na Península de Kamchatka. Os estadunidenses queriam obter a “assinatura” do míssil através de telemetria. De modo análogo ao que acontece com o radar, a radiação emitida pelo míssil é armazenada na memória dos computadores dos AWACS, bombardeiros, caças, e mísseis para permitir seu futuro rastreio e interceptação — o que produz um tiro com “alta probabilidade de atingir o alvo” (HTKP − Hard Target Kill Probability).
Conforme Gollin & Allardyce 87o Boeing 747 da KAL foi enviado para o espaço aéreo soviético como uma “diversão”, para que uma aeronave Elint tomasse sua rota e captasse a assinatura do teste de Kamchatka. O expediente deu certo. Os soviéticos pensaram que o 747 era um avião espião e o abateram. Sobreveio uma onda de indignação mundial com a derrubada do KAL-007 − o que colocou a URSS na posição defensiva88.
86 ICBM Intercontinental Ballistic Missile. Acrônimo de míssil Balístico Intercontinental.
87 GOLLIN, James e ALLARDYCE, Robert. Desired Track: The Tragic Flight of KAL Flight 007.
1994. American Vision Publishing. ISBN 1-883868-01-7.
88 Veio então a justificativa ao armamentismo estadunidense o que na URSS leva à ascensão de
Entretanto, além do engodo criminoso e do terrível drama humano, há história de uma batalha. Foi possível saber dela graças aos documentos russos entregues ao ICAO89 para o seu
relatório de 1993. Eles foram reproduzidos no livro de Michel Brun90. Trata-se das
transcrições de rádio das conversas entre os pilotos soviéticos na madrugada de 01/09. No livro elas são cotejadas com as escutas japonesas e as gravações das conversas russas feitas pelos estadunidenses (provavelmente NRO)91. As transcrições nos dão evidência de um combate aéreo, cuja intensidade é confirmada pelas comunicações entre os pilotos, as manobras dos aviões (altitude e distância) e as evidências físicas arroladas por Brun; destroços de diferentes tipos.
Em conjunto estes elementos são suficientes para comprovar que houve um encontro de proporções entre aeronaves russas e americanas, que teria durado quase três horas (2h51min), envolvendo baixas de ambos os lados. Para Brun foram abatidas dez aeronaves americanas com tripulações somadas a 30 pessoas92. Ele descreveu a batalha da perspectiva da época; que sempre é datada, hoje graças à publicização das tecnologias digitais, cabem matizes.
O contexto estratégico diz respeito ao significado do episódio para o fim da guerra fria. Também serve como exemplo da importância estratégica da região para guerra local na Coréia. Importam à este trabalho duas outras razões. A batalha da Sacalina inaugura o uso em combate das ESM93 e do JSTARS como mecanismo de guiagem de armas e das sondas
supersônicas que pré-figuram tanto os atuais UAV’s quanto os mísseis hipersônicos.
O panorama tático da batalha tem importância para toda hipótese de guerra local. Existem inúmeros fatos ligados à Sacalina que ainda não foram devidamente elucidados94.
Ainda assim, contando apenas com os dados disponíveis e a despeito de todas as limitações, é imperiosa a avaliação tática, para compreender a correção de forças na guerra local dos dias de hoje.
89 ICAO — International Civil Aviation Organization.
90 Cf.: BRUN, Michel. Incident at Sakhalin The True Mission Of Kal Flight 007. Four Walls Eight
Windows, New York/London, 1995, pp. 251/266. ISBN 1-56858-054-1. Livro disponível on-line formato PDF; http://www.aeronautics.ru/archive/pdf/literature/Incident%20at%20Sakhalin.pdf (20/08/2006).
91 NRO — National Reconnaissance Office. Nesta, como em todas as versões da transcrição, Brun
detectou falsificações e cortes. Importa é que todas as versões minimizam, ao invés de exagerar, o choque.
92 Cf.: BRUN, 1995: 256 e 264.
93 ESM — Electronic Warfare Support Measures. Meios ou medidas de suporte à guerra eletrônica. 94 Como, por exemplo, o que aconteceu aos corpos e bagagens. O que permanece um mistério até hoje.
Contexto Estratégico: O Ponto Cego dos Radares da URSS
Em 1956, Eisenhower concertava com a URSS uma solução para a invasão franco- anglo-israelense no Egito. Enquanto isso, o Comandante do SAC, Curtis LeMay, dava mostras de possuir sua própria política externa, enviando os B-47 Stratojet95 em plena luz do meio-dia para sobrevoar ameaçadoramente Vladivostok, principal base aeronaval soviética no Extremo Oriente, situada na fronteira com a China. O perímetro defensivo soviético no Extremo Oriente têm seu limite sul composto pelo porto de Vladivostok, as bases aéreas situadas na Sacalina, o cordão das ilhas Curilas e as bases da península de Kamchatka (Petropavlovsk).
A escolha de LeMay não foi gratuita: em Vladivostok, ficavam fundeados os navios da frota do Extremo Oriente. Entretanto, a supressão do porto só seria efetiva se fossem neutralizadas as bases aéreas soviéticas da Península de Kamchatka e na ilha Sacalina. Então, se abre a baía banhada pelo Mar de Okhotsk e, com ela, as vastidões da Sibéria à penetração dos bombardeiros do SAC vindo dos EEUU. O Mar de Okhotsk é conformado a leste pela península de Kamchatka, a oeste, pela ilha de Sacalina e fechado ao sul pelo cordão representado pelas ilhas Curilas. A península de Kamchatka e a Ilha Sacalina são como duas sentinelas que vigiam os acessos à baia do Mar de Okhotsk. É nelas que as defesas antiaéreas e radares soviéticos se embasam. Uma vez transpostas, o invasor julga não encontrar outro obstáculo, senão à distância, até chegar aos principais centros industriais, urbanos e instalações missilísticas da URSS.
Durante a Crise dos Mísseis em 1962, LeMay afrontou o presidente, então John Fitzgerald Kennedy, de forma ainda mais acintosa. Enquanto Kennedy negociava com Krushchev uma solução pacífica para a retirada dos mísseis soviéticos da ilha de Cuba, LeMay fazia testes de bombas de hidrogênio e, mais uma vez, provocou os soviéticos no seu ponto mais fraco, fazendo com que um avião espião U-2 penetrasse na Sibéria enquanto 54 bombardeiros B-52 juntavam-se aos 12 que estavam habitualmente em vôo96. Além disso, decretou DEFCON-2 (Condição de Defesa Número 2). A sugestão era clara: o U-2 estava fazendo um reconhecimento tático de batalha e a massa de 66 bombardeiros sugeria uma agressão em andamento. Os soviéticos não caíram na provocação. A crise foi solucionada, mas, mais uma vez, ficou plasmada a vulnerabilidade das defesas da URSS no Extremo Oriente.
95 Cf.: PATTON, Phil. Dreamland. São Paulo, Conrad Editora do Brasil, 2000, pp. 13 e 97. 96 Cf.: PATTON, 2000: 136-137.
Em 1982, no mesmo ano em que transcorreram a Guerra das Malvinas e a Batalha do Bekaa, os soviéticos foram mais uma vez postos à prova: desta vez, na Península de Kamchatka. Um grupo de batalha reforçado, integrado por dois super-porta-aviões, penetrou no Mar de Okhotsk, onde ficavam sediados os submarinos soviéticos SSBN, que eram o coração do dispositivo de dissuasão estratégico no Extremo Oriente. Os soviéticos nada fizeram.
Em abril de 1983, caças partiram do Midway e do Enterprise invadindo o espaço aéreo soviético na altura das Ilhas Zeleny e Curilas. “Eles penetraram mais de trinta quilômetros (dezenove milhas) para dentro do território russo, e por treze minutos conduziram manobras práticas de bombardeios em alvos terrestres”97. Nenhuma reação.
No mês de junho de 1983, foi a vez de um grupo de batalha composto desta vez por três super-porta-aviões, acompanhados por bombardeiros B-52, caças F-15 vetorados por AWACS, entrarem no Mar do Okhotsk, dentro da área soviética. Na ocasião, a frota adotou atitude de batalha: estabeleceu silêncio de rádio, desligando inclusive os sistemas elétricos passíveis de monitoramento, enquanto adentrava na baía. Mais uma vez, o comportamento sugeria a iminência de uma agressão. A atitude adotada pelos estadunidenses, de apagar as luzes, é incomum. O procedimento é evitado, até para prevenir colisões. Navios deste porte, em silêncio e na penumbra, sugerem a intenção de um ataque surpresa. Mas, mais uma vez, nada foi feito.
Os russos suportaram estoicamente as evoluções dos aviões americanos sobre suas bases sem decolar um único interceptador. Porém, o comandante foi repreendido por sua atitude e a URSS tomou medidas para preparar-se. Tratava-se de fazer frente à um cenário de guerra preemptiva contra a URSS. O propósito dos aviões da USAF e da U.S. Navy dentro do espaço aéreo soviético naturalmente era o de destruir os radares fixos da URSS. A invasão do espaço aéreo permitiria a destruição dos ICBMs soviéticos antes do lançamento. As armas anti-radiação haviam acabado de demonstrar sua capacidade de supressão de radares no Bekaa (1982). O desfecho das violações teve lugar no fatídico 01/09, quando foi abatido o 747 sul-coreano.
97 BRUN, Michel. Incident at Sakhalin The True Mission Of Kal Flight 007. Four Walls Eight
Windows, New York/London, 1995. Livro disponível em formato PDF; on-line: http://www.aeronautics.ru/archive/pdf/literature/Incident%20at%20Sakhalin.pdf (Acesso em 20/08/2006).
Importa dizer que ainda hoje esta região constitui-se no ponto cego dos radares russos e na porta de entrada para destruição dos mecanismos de alerta antecipado e defesa antiaérea. Como salientam Lieber e Press, “a Rússia, essencialmente cega a um ataque vindo do Pacífico, teria grande dificuldade de detectar a aproximação de mísseis cruzadores furtivos de baixo vôo vindos dessa direção”. Adiante acrescentam: “o verdadeiro plano dos Estados Unidos pode prever um primeiro ataque ao sistema de comando e controle russo, a sabotagem das estações de radar da Rússia ou outras mediadas preemptivas – atitudes que fariam a verdadeira força americana ser ainda mais letal”98.
Simplificando; um ataque convencional que neutralize os sistemas de alerta antecipado, forçaria a Rússia a uma resposta nuclear99 ou aguardar a possibilidade de um ataque nuclear preemptivo que pode eliminar todo seu arsenal sem qualquer possibilidade de defesa. Isto permanece tão válido nos dias de hoje como foi em setembro de 1983.
Tática: A Batalha de 01 de setembro