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5. DISKUSJON – KVALITATIVE DATA

5.6 O VERORDNET

Em sua obra, Problemas de Linguística Geral II, Emile Benveniste (1989) dedica um capítulo à discussão em torno do lugar que o processo composicional ocupa tanto na prática descritiva quanto na classe de palavras. O autor menciona que qualquer estudioso, preocupado com as particularidades formais do composto, situa a composição nominal no reino da Morfologia. Questões como elementos constituintes do composto, flexão e tipologia constituem temas que cuja investigação é do domínio da Morfologia.

Porém, há outras questões, como função, necessidade e a possível fonte dos compostos, que os estudos morfológicos nada esclarecem. Por que a língua haveria de manter, ao lado de signos simples, unidades compostas por dois signos juntos? Martins (1995) argumenta que as respostas para tais indagações não seriam fornecidas pela Morfologia, mas esclarecidas segundo a proposta de Benveniste.

Benveniste (1989) acredita que a língua “não é um repertório imóvel que cada locutor só teria que mobilizar para os fins de sua expressão própria.” (Benveniste, 1989,

apud Martins, 1995, p. 88). Conforme depreendido do pensamento do autor, apesar de o usuário não perceber, a língua é, por si mesma, o lugar de um trabalho incessante que age sobre o aparelho formal, transforma suas categorias e produz novas classes. Logo, uma vez constatada essa propriedade evolutiva do sistema linguístico, a classe dos compostos configura-se como o resultado do processo transformacional, pois a teoria defendida pelo linguista em questão é a de que os compostos são estruturas sintáticas. Na perspectiva de Benveniste, assim como na abordagem de Bloomfield no que se refere ao processo composicional, fica evidenciada a impossibilidade de separar a morfologia da sintaxe uma vez que a criação das unidades compostas se dá a partir de enunciados maiores.

No momento em que a oração é transformada em compostos e os termos da oração tornam-se membros do novo vocábulo, a predicação é colocada em suspenso, e o enunciado se torna virtual. Isso quer dizer que o composto é uma unidade cristalizada que mantém implícitos traços sintáticos e semânticos, sendo estes recuperados no momento da construção do enunciado que serviu de base para a construção da estrutura compósita. Sendo assim, convém reconhecer que a origem dos compostos é sintático- semântica e sua análise é morfossintática.

Benveniste diz sobre duas grandes classes de compostos. A primeira corresponde àqueles cuja relação está contida entre os dois elementos e lhes é equivalentes. O segundo grupo envolve aqueles em que a relação ultrapassa os dois termos de modo que há modificação nessa relação. O primeiro grupo é dividido em três tipos: o primeiro tem uma estrutura binômica em que ocorre a junção de dois substantivos equivalentes. Seria o que chamamos de composto copulativo. Nesse tipo, cada um dos elementos que integram o composto é responsável pelo conjunto, pois estão em relação paratática. Essa tipologia é muito produtiva em Português. Rádio- relógio, aparelho que funciona como rádio e relógio, constitui um bom exemplo. O segundo tipo, que também envolve a junção de dois substantivos, se diferencia do primeiro porque designa um só objeto e não dois ao modo de rádio-relógio. Nesse caso, o primeiro elemento fornece a informação e o segundo atua como especificador ou qualificador. Na Língua Portuguesa, um bom exemplo é piano-bar, que denomina uma espécie de bar onde se toca piano. Bar funciona como núcleo, o elemento que é determinado, especificado, qualificado pelo determinante piano. Há aqui uma relação subordinativa.

Em relação ao terceiro tipo, Benveniste classifica-o como composto de dependência. É o caso dos compostos em Língua Portuguesa cabo-de-guerra, carro-de- boi, olho-de-sogra, categoria também bastante recorrente em nossa língua. Supõe-se que a maioria dos compostos se originou conforme esse processo, havendo a elipse da preposição tempos depois. Seria o caso de guarda-da-marinha, transformado em guarda-marinha. O quarto tipo define o composto em que se tem um membro nominal e outro verbal. Benveniste traz um exemplo do grego: hippó-damos = que doma os cavalos.

A segunda grande classe é do tipo bahuvrihi16 (Benveniste, 1989), que se explica como portadores de uma dupla predicação, de qualidade e de atribuição. Conjugam uma função sintática com uma função semântica, ao mesmo modo do composto exocêntrico porque a união dos dois elementos ocasiona a criação de novas relações com o que está fora do composto. Seriam os exemplos em Inglês blue-eyed (azul + olho) = “de olhos azuis” e em, Português, guarda-sol = “proteção do sol”.

Benveniste inicia seu artigo lançando uma série de questionamentos em torno da função, necessidade e fonte dos compostos, questões que escapam ao domínio de investigação empreendido pelos estudos morfológicos. Ao apreciar as considerações que o linguista tece sobre a estrutura composicional, fica claro que a melhor forma de responder às perguntas em princípio formuladas torna-se viabilizada quando considerada a relação do composto com a sintaxe.

A composição é entendida como um dos processos de formação de palavras mais produtivos em Língua Portuguesa, ao lado da derivação que também se desponta como outro processo muito significativo. Uma observação mais apurada desses dois mecanismos, que favorecem a criação de novas unidades lexicais e, consequentemente, a ampliação do estoque lexical de uma língua, revela tanto diferenças profundas quanto relações bastante estreitas entre si na função de formar palavras segundo as necessidades de comunicação impostas ao usuário no seu cotidiano. Basílio (2004) se manifesta sobre as relações de divergência e convergência entre composição e derivação:

o processo de derivação obedece às necessidades de expressão de categorias nocionais, com contraparte sintática ou não, mas de caráter

16 Um composto bahuvrihi (termo do sânscrito) é um tipo de composto que denota um referente

fixo e, via de regra, de teor geral. Já o processo de composição obedece à necessidade de expressão de combinações particulares.” (BASÍLIO, 2004, p. 27).

No item a seguir, traçaremos um panorama sobre os pontos de convergência e divergência entre a composição e a derivação.