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5. DISKUSJON – KVALITATIVE DATA

5.7 O MGJØRING AV ERFARINGSGRUNNLAG TIL RETNINGSLINJER

Cunha e Cintra (1991, p. 106-107) podem ser mencionados como um dos gramáticos que nos serviriam de exemplos para ilustrar as insuficiências apresentadas pela tradição gramatical no tocante aos estudos das unidades compostas. Esses autores encaram a composição como um processo de formação de palavras que encerram “sempre uma ideia única e autônoma, muitas vezes dissociada das noções expressas pelos seus componentes”.

O questionamento em torno da concepção adotada por tais gramáticos recai na noção de “ideia única e autônoma” que não permite identificar, de forma precisa, nenhuma unidade gramatical, uma vez que é, por si só, passível de múltiplas interpretações. Quanto ao fato de a interpretação dos compostos em sua totalidade vir dissociada das noções expressas por seus componentes, trata-se de um fato comum às unidades morfológicas complexas em geral. Seria o fenômeno de lexicalização. Para Villalva (2000), “a perda da composicionalidade semântica resulta de processos de lexicalização e relaciona-se, globalmente, com os fenômenos de polissemia que podem afetar qualquer unidade lexical”. (VILLALVA, 2000, p. 345). No intuito de melhor compreender o raciocínio da citada autora, vejamos alguns exemplos da Língua Portuguesa. Nos casos abaixo, tem-se que as formas (1a) e (1b) são consideradas compostas ao passo que as formas (1c) e (1d) não são.

(1a) pés de galinha (1b) amor perfeito (1c) pernas de galinha (1d) amor platônico

Do ponto de vista estrutural, nota-se identidade entre os pares (1a) – (1c) e entre os pares (1b) e (1d). A lexicalização semântica que ocorre nos pares (1a) e (1c) justifica sua inserção no conjunto de palavras compostas. Nesse sentido, a tradição gramatical

limita a descrição dos compostos à descrição dos compostos lexicalizados, confundindo desse modo, composição e lexicalização.17

A compreensão da composição como um processo de lexicalização remete à distinção entre justaposição e aglutinação que só dá conta de dois graus ou tipos de lexicalização. Nunes (1975, p. 388-389) considera que a aglutinação é o processo geral de composição, em Português. Em sua opinião, a composição perfeita (aglutinação) dá origem a uma palavra “com um só acento e sempre com uma ideia singular” (ex: morcego, vinagre), enquanto a justaposição, considerada composição imperfeita, dá origem a compostos do tipo papa-figos, verde-mar, cabra-cega, pontapé, cujos constituintes conservam acentuação própria. Na verdade, constata-se que os compostos por justaposição sofrem apenas uma lexicalização semântica, enquanto que, nos compostos por aglutinação, a lexicalização não é só semântica, mas também formal, ou seja, a estrutura morfológica do composto é perdida.

Said Ali (1964, p. 260) argumenta a favor da ideia de que a análise da composição numa dada língua não deve considerar “palavras compostas pré-existentes à formação do dito idioma, ou importadas de outra língua, dando a impressão de palavras simples”. O autor defende seu ponto de vista analisando a forma vinagre que, nos dicionários de Língua Portuguesa, é registrada como um empréstimo do Catalão, dada a inexistência do adjetivo agre na Língua Portuguesa. Segundo a posição do autor, é preferível que a distinção entre aglutinação e justaposição seja substituída pela oposição entre compostos lexicalizados e não-lexicalizados, ou seja, entre os compostos que perderam e aqueles que preservam sua estrutura interna e uma interpretação semântica composicional.

Contrariamente à perspectiva de Said Ali (1964), Nunes (1975, p. 389) defende que “não existe diferença entre um nome composto e um simples, pois, se aquele fundiu numa só diversas idéias, dando preferência à que entre as outras sobressaía por forma tão visível que para o nosso espírito tomou a primazia, também este teve a sua origem na mesma circunstância, isto é, nasceu da preferência que demos a um dos variados

17 Said Ali (1931, 1964, p. 258), considerando que “muitas das atuais palavras compostas, antes

de se fundirem semanticamente para representar uma ideia simples, tiveram um período de existência bastante longo em que não se distinguiam de outros grupos sintáticos”, afirma que “ocorrem naturalmente combinações que se acham ou parecem achar-se na fase de transição, isto é, em via de se tornarem palavras compostas. Dificultam sobremodo a análise, não sendo de admirar que a seu respeito reine desacordo entre linguistas, classificando uns como verdadeiras palavras compostas o que a outros se afigura como meros grupos sintáticos do tipo comum”.

aspectos sob que o objeto se nos apresentava ou foi por nós encarados”. Em resumo, o autor considera como compostos formas lexicalizadas, ou seja, palavras que perderam a sua estrutura interna.

Villalva (2000) assume uma postura diferenciada da de Said Ali (1964) quanto ao tratamento do composto, sugerindo que os compostos sejam identificados como unidades morfológicas constituídas por um número mínimo de duas variáveis lexicais, nomeadamente palavras. Nessa linha de raciocínio, a composição procederia à junção de, pelo menos, duas variáveis, por oposição aos processos de afixação que consistem na junção de uma constante e uma variável, conforme o esquema a seguir:

COMPOSIÇÃO

[[x]] [y]]

AFIXAÇÃO

[a [x]] (prefixação) [[x] a] (sufixação)

Pelo esquema acima proposto, nota-se que a composição se distingue da afixação no que diz respeito ao tipo de constituintes que servem de base para a formação da nova unidade lexical. Scalise (1994) pondera que “uma diferença fundamental está no fato de que a derivação é concatenação de uma forma livre e de uma forma fechada ao passo que a composição é concatenação de duas formas livres.”18 (SCALISE, 1994, p. 21, tradução nossa). Para Rio-Torto (1998), a composição pode englobar sequências de formas presas na construção dos “compostos eruditos”, conforme pode ser visto nos exemplos em Língua Portuguesa herbívoro, agricultura, oleoduto.

Diante desse conjunto de posicionamentos teóricos acerca da diferenciação entre derivação e composição, convém pensar que enquanto a derivação se caracteriza pela junção de uma base e de um afixo (forma mais ou menos livre e outra presa), a composição baseia-se na junção de pelo menos duas raízes, que podem ou não ser autônomas.

18 una diferencia fundamental es el hecho de que la derivación es una concatenación de la forma

libre y en una cerrada mientras que la composición es una concatenación de dos de forma libre. (SCALISE, 1994, p. 21).

Rio-Torto e Ribeiro (2011) argumentam que os afixos mantêm uma posição fixa no interior da palavra, de modo que formas como inovação e desintegrar constituem construções gramaticais ao passo que *ção + inova19 e *integração + des são construções tidas como agramaticais, além do que os afixos não podem se combinar na formação de novas formas vocabulares, como *des + ismo, *em + ção, *re + mento.

No terreno da composição, a combinação das bases é mais flexível mesmo quando se trata de constituintes que são raízes. Algumas raízes neoclássicas aparecem em posição inicial (caligrafia), em posição final (inseticida) ou podem ocorrer nas duas posições (filantropia / cinéfilo, pedicure / ortopedia). Há, também, palavras que apresentam flexibilidade no interior da palavra composta: disco rígido / cheque disco, escola-piloto / navio-escola. Logo, na tentativa de especificar as diferenciações entre composição e derivação, nota-se que os dois processos apresentam pontos de divergência e convergência e, por isso, não constitui tarefa demasiado fácil definir, de forma muito clara e precisa, as fronteiras entre as palavras formadas por processo de derivação e composição.

No que concerne à tipologia dos compostos, Rio-Torto e Ribeiro (2011) apresentam dois grupos de compostos em Língua Portuguesa. O primeiro grupo abrange os compostos morfológicos constituídos por uma raiz neoclássica cuja ligação com o outro constituinte se dá por meio de uma vogal de ligação, como pode ser visto nos exemplos aqüífero, bibliófilo. Geralmente, a vogal de ligação é –i quando o segundo elemento do composto é de origem latina (aqüífero) e –o quando se trata de outras situações (bibliófilo). No entanto, nem sempre, essa regra se aplica de forma absoluta: oleoducto e gasoducto trazem a vogal –o, sendo –ducto uma forma de origem latina. Nos compostos neoclássicos, a flexão ocorre no final do composto com escopo sobre toda a palavra (aqüífero(s), bibliófilo(s)).

Os compostos frasais ou sintáticos constituem o segundo grupo. Incluem sequências de palavras cuja estrutura interna obedece a regras sintáticas típicas de estruturas frasais. Compostos como caminho de ferro (estrutura NprepN), ferro de engomar (estrutura NprepV), vai e vem (estrutura VV), dia santo (estrutura NA) representam esta tipologia de compostos. Alguns compostos com a estrutura VN, que incluem um nome no plural funcionando como complemento do verbo, seguem as regras sintáticas próprias da frase.

- Abre-latas: Ele abre latas com facilidade. - Guarda-joias: A mulher guarda joias em casa.

A diferenciação entre um tipo de construção e outro não pode se restringir apenas a aspectos de ordem gráfica. Embora admitam as construções graficamente hifenizadas como compostos plenos e, consequentemente, com direito a entrada autônoma na macroestrutura dos dicionários em geral, nota-se que os principais dicionários de Língua Portuguesa consideram a existência de um grande número de sequências fixas, isto é, combinações de palavras cristalizadas ou em vias de cristalização, que funcionam como compostos não-hifenizados, como é o caso de sala de jantar, pedra preciosa, corredor de fundo. Tal constatação revela a fluidez das fronteiras entre essas construções.

Não convém limitar a noção de nome composto aos casos em que o significado do produto se revela não composicional, tornando-se necessário conceber a composicionalidade semântica numa ótica escalar. Dados como rosa-dos-ventos, pé-de- moleque, matéria-prima apresentam um comportamento sintático bastante particular. São estruturas que rejeitam qualquer especificação ou complementação que incida apenas sobre um dos constituintes de sua estrutura, aspecto que claramente as distancia das sequências sintagmáticas comuns. No próximo item, será discutida a diferença entre palavras complexas com estrutura composicional e palavras complexas lexicalizadas.

3. Palavras complexas com estrutura composicional e palavras complexas lexicalizadas

No estudo destinado à distinção entre palavras simples e complexas, Villalva (2008) empenha-se em estabelecer a diferença que existe entre palavras complexas com estrutura composicional e palavras complexas lexicalizadas. A composicionalidade é encarada como um princípio semântico, segundo o qual o significado de toda a palavra complexa é determinado pelas propriedades e significados dos constituintes que participam de sua formação.

Partindo da análise da palavra complexa gorduroso, a autora tenta explicar seu raciocínio. A palavra em causa apresenta a seguinte estrutura composicional: trata-se de um adjetivo masculino derivado do radical do nome gordura, por meio do sufixo de adjetivação denominal – os (o/a), que forma adjetivos parafraseáveis pela expressão

‘que contém x’, em que x identifica a forma derivante; gordur- é o radical nominal de gordura, que, por sua vez, deriva do radical do adjetivo gord (o/a), por intervenção do sufixo –ur(a), que dá origem a nomes de qualidade parafraseáveis pela expressão ‘nome da propriedade que é x’, e x remete para a forma derivante. Análises dessa envergadura permitem compreender que “são as palavras composicionais que permitem identificar as propriedades dos constituintes morfológicos e estabelecer configurações gramaticais para a formação de novas palavras”. (VILLALVA, 2008, p. 30).

A lexicalização, por sua vez, seria um processo de perda da composicionalidade, que atua sempre que pelo menos um dos constituintes morfológicos sofre alterações de natureza semântica ou formal ou é desconhecida para os falantes. Nesse sentido, pode- se afetar a interpretação da palavra, sua forma, suas propriedades gramaticais ou uma conjugação de todos esses fatores. Abaixo, seguem exemplos de cada processo.

A lexicalização semântica consiste na intervenção de operações de extensão ou substituição do significado original da palavra. Como exemplo, tem-se a palavra sombrinha, que corresponde ao diminutivo de sombra. Trata-se de uma palavra lexicalizada quando se refere a um “objeto utilizado para produzir sombra” e que acaba por denotar um objeto de proteção do sol.

A lexicalização formal incide sobre qualquer uma das propriedades dos constituintes da palavra. O caso mais comum diz respeito a palavras complexas cujos constituintes não correspondem a formas atestadas na Língua Portuguesa. Seria o caso de palavras introduzidas no Português pelo processo de empréstimos. Os exemplos a seguir apresentam formas atestadas, a base disponível e a forma composicional possível, que é agramatical.

a) governamental – govern(o) - *governal b) inimigo – amig(o) - *inamigo

A lexicalização formal pode atingir algumas palavras em seu domínio fonético, como pode ser notado nos casos seguintes:

a) bondoso – bondad(e) - *bondadoso b) caridoso – caridad(e) - *caridadoso c) maldoso – maldad(e) - *maldadoso

Em estágios anteriores da língua, as formas *bondadoso, *caridoso e *maldadoso eram estruturas portadoras de gramaticalidade. Ao longo do tempo, em virtude da intervenção do processo de haplologia, que consiste na supressão de uma das sílabas de um afixo foneticamente idêntica ou muito próxima da sílaba seguinte ou da anterior, tais formas sofreram modificações em seu nível formal, resultando desse modo, as estruturas bondoso, caridoso e maldoso. Portanto, no atual estágio da Língua Portuguesa, aquelas formas são apontadas como agramaticais. A lexicalização formal e semântica pode atuar, de forma cumulativa, sobre determinada palavra. É o que se verifica na forma “idoso”, em que, além da supressão de uma sílaba (idad+oso), se verifica um significado diferente de bondoso ou cuidadoso, pois idoso não é uma ‘propriedade de quem tem idade’, mas sim quem tem ‘muita idade’.

Villalva (2008) menciona que o fenômeno da lexicalização não se aplica somente ao caso das palavras complexas, uma vez que estruturas sintáticas como pés de galinha ou velho mundo também são alvo de lexicalização, neste caso, estritamente semântica. Por outro lado, palavras como demão, aguardente ou malmequer evidenciam que o processo de lexicalização pode atingir sua realização fonética (água ardente) e ortográfica (de mão, mal me quer).

A partir dos dados apresentados no intuito de melhor apreender o que vem a ser lexicalização, depreende-se que as palavras são lexicalizadas quando a relação entre uma sequência de sons e seu significado configura-se arbitrária, o que é também característica das palavras simples. Portanto, as palavras lexicalizadas são estruturas opacas ao passo que as palavras composicionais revelam estruturas transparentes cujo grau de composicionalidade é suscetível de ser explicitado mediante a análise morfológica, mecanismo inviável no caso de estruturas lexicalizadas.

Com o objetivo de uma compreensão mais clara acerca das unidades compostas de uma língua, faz-se necessário ter em vista, no mínimo, duas perspectivas de análise distintas tanto do ponto de vista externo quanto do ponto de vista interno. Partindo da perspectiva externa, é possível verificar que o funcionamento das unidades compostas é semelhante ao dos nomes simples. De uma perspectiva interna, constata-se que, ao contrário dos grupos nominais livres, os nomes compostos não apresentam liberdade em termos de organização e/ou alteração de seus constituintes. Logo, a caracterização de um nome composto impõe a observação de alguns aspectos:

1) A significação dos constituintes do composto e a sua significação como um todo;

2) As características sintáticas da estrutura em causa e o modo de organização interna da mesma;

3) O seu funcionamento e utilização no âmbito da frase e do discurso, acreditando que os nomes compostos funcionam na cadeia sintagmática como um nome simples, podendo ser utilizados exatamente nos mesmos contextos sintagmáticos.

A partir das ressalvas necessárias para uma adequada descrição da estrutura dos compostos, Gross (apud Ribeiro, 2006) defende que é imprescindível ter uma percepção não uniforme da composição, pois os compostos não evidenciam todos exatamente o mesmo comportamento e as mesmas características, pelo que se deverá considerar a existência de níveis de composicionalidade. Assentando-se na existência de níveis de composicionalidade, o autor apresenta alguns critérios para melhor descrever as estruturas compostas, como será visto no próximo tópico.

4. Critérios fixados por Gross