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Ulpiano de Meneses (2012), em seu texto História e imagem: iconografia/iconologia e além, apresenta a imagem como coisa material, como artefato, considerando a imagem como
uma existência, com uma “vida” pregressa, que tem início antes de se tornar um documento
recolhido e salvaguardado em um museu, arquivo ou coleção. De acordo com Menezes (2012), entretanto, a vida pregressa das imagens não termina no momento em que são arquivadas, recebendo o estatuto de documento histórico. O processo de constante ressignificação dessas fontes, fundamental às imagens visuais, continua ativo e deve ser levado em consideração. Historicizar as fontes imagéticas, mesmo depois de catalogadas e disponibilizadas para estudo, permite maior compreensão de seu potencial de representação em relação a uma sociedade e ao tempo. A imagem, considerada como documento, mais do que contribuir para representar o passado, serve, efetivamente, para resignificá- lo/(re)construí-lo.
Na mesma lógica, Jean-Claud Schmitt (2007) define que o historiador deve estudar as obras na profundidade sincrônica de sua base social, cultural e ideológica, objetivando
identificar as motivações de sua produção, sua função na sociedade e a quem estão direcionadas. Além disso, convém construir a história da obra, preocupar-se com sua trajetória, com sua diacronia, defrontando-se “[...] com o delicado problema de uma periodização, propor uma cronologia” (SCHIMITT, 2007, p. 47).
A imagem não só é instituída historicamente, como é, também, instituinte. Daí, para um verdadeiro dimensionamento histórico, a necessidade de estudar o circuito da
imagem: sua produção, circulação, apropriação, em todas suas variáveis
(MENESES, 1996, p.154, grifo nosso).
Seguindo a proposta de Meneses, nesse momento apresenta-se a trajetória do Livro das fortalezas e suas diferentes utilizações, referências e reedições, desde o século XVII. Compreende-se que, a partir dessa época, pode-se identificar seu “ressurgimento”,
considerando sua “vida” pregressa após o livro ter sido depositado na Torre do Tombo, como
documento pertencente à Coroa portuguesa.
Em 1642, um século e meio após o Livro... ser produzido, ele voltou a aparecer pelas mãos de Brás Pereira de Miranda, fidalgo que copiou e aquarelou parte das vistas do códice A, intitulando seu trabalho de Fronteira de Portugal fortificada pelos reys deste reyno, tiradas estas fortalezas no tempo del Rey Dom Manoel20 (sem indicar autoria ou proveniência
do original). A primeira referência histórica da importância dessa obra, enquanto documento
de “Estado”, encontra-se nas Noticias de Portugal Offerecidas a El Rey N.S. Dom João o IV
(1655, p. 64), de Manuel Severim de Faria, na qual relata que D. Manuel havia mandado “[...] tirar em planta e montea todos os lugares fortes do Estremo de que se fizeram dois livros
depositados por sua ordem na Torre do Tombo, onde ainda estão”21. Em 1776, o guarda mor
da Torre do Tombo, João Ramos de Azeredo Coutinho22, identificou, em um inventário, o Livro de Duarte de Armas. Sua primeira ficha bibliográfica, o Inventário dos documentos da antiga Casa da Coroa, de 1776, liv. 299-A/Sala dos Índices (Arquivo Nacional da Torre do Tombo – ANTT), assim o descreve:
20 Disponível na Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa, microfilme cota IL 192, manuscritos reservados.
Sua ficha bibliográfica traz a seguinte descrição: “Trata-se de uma cópia do “Livro das Fortalezas”, manuscrito
do Arquivo Nacional da Torre do Tombo (Casa Forte Ms. 159), desenhado por Duarte de Armas. Constituído por 55 desenhos aguarelados, representando diversas fortalezas fronteiriças de Portugal continental”.
21 A partir dessa informação, pode-se identificar que o Códice A e o Códice B foram concluídos e depositados na
Torre do Tombo, permanecendo o B lá depositado, pelo menos, até 1655.
22“No final do século XVIII, o guarda-mor, João Pereira Ramos de Azeredo Coutinho, mandou elaborar um
inventário do Real Arquivo para facilitar as pesquisas, por um lado, para tomar conhecimento dos seus fundos, por outro. Este inventário foi dividido em seis partes distintas, abarcando todas as colecções e fundos que
integravam o Arquivo da Casa da Coroa, cabendo ao Corpo Cronológico a parte IV do dito inventário”
Hum livro tambem de folio escrito em pergaminho com 139 folhas, que contem as Plantas das Fortalezas situadas no extremo deste Reyno e o de Castella, feito por Duarte de Armas. Tem seu Indice ou Alfabeto no principio. Armario XV da Caza da Coroa.
Em 1843, o Livro... ainda se conservou na Casa da Coroa, conforme referiu o Abade de Castro (em sua obra Investigação ao castello situado na serra de Cintra, Lisboa, 1843, p. 5), que o designou mais tarde, em 1860, por Livro de Duarte d’Armas, em Notícias de alguns livros iluminados que se guardam no Archivo Real (Lisboa, 1860, p. 10). Sousa Vitérbo, no vol. I, do Dicionário histórico e documental dos architectos, engenheiros e constructores portuguezes ou a serviço de Portugal, (Lisboa, 1899, p. 45-46), informa que, em 1839, D. Francisco de S. Luís (na obra Lista de alguns artistas portuguezes colligida, pelo autor, de escriptos e documentos, no decurso das suas leituras), desenvolveu a primeira descrição detalhada do códice A, popularizando o nome pelo qual ficou conhecido: o Livro das fortalezas.
O códice B, sob o código MSS/9241, na Biblioteca Nacional de Madrid, contendo apenas 57 vistas, de 29 fortalezas, foi revelado em 1910 por Manuel González Simancas, em sua obra Plazas de guerra y castillos medioevales de La frontera de Portugal – Estudios de Arquitectura Militar (na Revista de Archivos, Bibliotecas y Museos, tomos XXII a XXV, Madrid, 1910/11). Cristóvão Aires de Magalhães Sepulveda, em 1913, no vol. VII da História orgânica e política do exército português (Lisboa, 1913, p. 273-355), confronta os dois exemplares do Livro das fortalezas, fazendo a análise do códice B a partir do estudo de Manuel Simancas (1910). Em 1921, o códice B foi ampliado, com mais 14 folhas, oriundas da mesma coleção, mas que até então estavam incluídas em outro manuscrito; logo, atualmente, o códice B ainda está incompleto, pois contém 71 folhas com as vistas de apenas 37 fortalezas23. A parte restante desapareceu, incluindo as folhas dos índices e a nota introdutória. Em 1922, Teixeira de Carvalho elaborou um estudo crítico-bibliográfico sobre a obra de Duarte de Armas, apresentado na Colleção de memória relativas à vida dos pintores e escultores, architetos e gravadores portugueses e dos estrangeiros que estiverão em Portugal, publicado em Coimbra.
Em 1931, por encomenda da Biblioteca Nacional de Lisboa, realizou-se a reprodução fotográfica, em duplicado, do códice A, gerando duas coleções (Códices 10456 a 10464), em
23 Desde Assumar a Caminha, excluindo Montalvão. Todas apresentam duas vistas diferentes, exceto Assumar,
um total de nove volumes (álbuns): a primeira coleção com cinco volumes e a segunda com quatro, contendo fotos em preto e branco (PB), medindo 155X225mm, coladas sobre cartolina. Em 1943, o general João de Almeida publicou a Reprodução anotada do Livro das fortalezas de Duarte de Armas, que colaborou para a divulgação efetiva da obra; todavia, as vistas das povoações ficaram muito reduzidas (120X170mm) e sem a maioria das legendas. Alfredo Pimenta, em 1944, em sua brochura Duarte de Armas e seu Livro das fortalezas, tentou descobrir quando o escudeiro de D. Manuel elaborou o Livro..., com base na análise do período de tempo, durante o qual cada um dos alcaides, inscritos nas legendas das respectivas vistas, teria desenvolvido suas funções nesse cargo. Armando Cortesão e Avelino Teixeira da Mota, em 1960, no vol. I, da Portugaliae Monumenta Cartographica, realizaram uma contextualização e análise do conteúdo da obra e incluíram várias estampas das vistas dos códices A e B24.
Em 1997, a Casa do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em parceria com as Edições INAPA, publicaram a versão fac-simile integral do Livro das fortalezas, de Duarte de
Armas (código de referência PT/TT/CF 159), com uma “introdução” riquíssima em
informações sobre o histórico, organização e conteúdo da obra, produzida por Manuel da Silva Castelo Branco. Em 2008, o site do Arquivo Nacional da Torre do Tombo disponibilizou como parte de seus fundos virtuais (abertos ao público), uma versão digital integral, em alta resolução, do Livro das fortalezas situadas no extremo de Portugal e Castela por Duarte de Armas, escudeiro da Casa de D. Manuel I25.