4. EMPIRISK METODE OG SKATTEMODELL
4.3 O PPDATERT BEREGNING AV DET NORSKE CANNABISMARKEDET
Relativamente às particularidades das personagens nota-se que na fábula das duas literaturas há semelhanças no que diz respeito às singularidades dos sujeitos que compõem a narrativa. As personagens são normalmente definidas com clareza, embora sem descrições extensas. Porque, como se vê, a fábula é uma narrativa curta e por isso os aspetos descritivos não têm muito espaço no corpo da narrativa.
Observa-se que, tanto na fábula da literatura oral angolana bem como na portuguesa, todas as personagens são construídas tendo como base um nome identificativo que na maioria
das denominações é de animal. São estes seres que, acima de tudo, permitem que a fábula seja reconhecida como um género da literatura oral.
É como se o nome de cada personagem fosse um código, ou seja, um regulador de atitudes e de comportamentos que os animais devem desempenhar dentro da narrativa. Claro que, não importa a tipologia da narrativa, não basta um nome para criar uma personagem246. A
designação individual de cada sujeito da narrativa serve de motivação para realizar, isto é, cumprir determinadas ações. Portanto, a forma como os agentes da narrativa são constituídos e organizados permite que eles sejam claramente conhecidos durante todos os episódios da fábula de tradição oral. Aqui, a nomeação de cada personagem está intimamente associada à ação que desempenha. Entretanto, a construção da personagem é capaz de criar uma imagem mental ao ouvinte, associando-se, geralmente, um caráter e procedimento ao nome da personagem.
A avaliação axiológica das personagens na fábula das duas literaturas é um outro aspeto onde se verifica outro grau de similitude. Os sujeitos da fábula de tradição oral, além do nome, são estruturados segundo um padrão moral: bom-mau; inteligente-menos inteligente; perspicaz-néscio; corajoso-covarde; justo-injusto; bondoso-maldoso; trabalhador-preguiçoso. Com isso, entende-se que, no âmbito da fábula, as singularidades das personagens, especificamente as morais, não deixando de lado as físicas, refletem-se no nome de cada entidade narrativa, e isto é evidente tanto na literatura oral angolana bem como na portuguesa. No que diz respeito à descrição das personagens, particularidade que trata de dar indicações explícitas de traços destes seres fictícios, repara-se que nas duas literaturas o termo descrição247 deve ser apenas encarado e entendido como a apresentação das caraterísticas ou
elementos que estão associados à natureza da personagem. Não se dá lugar a hipérboles, ou seja, não se vai além daquilo que aparentemente é, porque toda a estratégia utilizada neste domínio leva sempre em conta o caráter simples desta narrativa.
Entretanto, o enquadramento248 descritivo que se faz no espaço da fábula de tradição
oral é bastante pormenorizado, delimitado. Quer dizer, o narrador, na maioria dos casos, não atribui muitas características aos intervenientes da narrativa, muito menos, aos objetos que aparecem ao lado destes. No domínio desta narrativa, quer seja na literatura oral angolana quer seja na literatura portuguesa, a descrição das personagens é realizada em curtas passagens, em breves instantes da ação, sem que se note a paragem da diegese.
Ainda no âmbito da descrição da personagem, uma outra similitude entre as fábulas das
246 Cf. Philipe Hamon, apud Cristina Costa Vieira. “Para uma nova tipologia da descrição da personagem
narrativa”, in Revista de Estudos Literários, Carlos Reis e Maria Henriques (coord.). Coimbra: Centro de Literatura Portuguesa, Vol. IV, 2014, p. 128.
247 Entende-se aqui descrição como ilusão mimética construída não apenas pelo conjunto de elementos
textuais fornecidos pelo autor, mas o fruto de uma simbiose entre tais elementos e o leitor ao nível da sua mundividência e da sua “compétence intertextuelle”. Cf. Vincent Jouve, apud Cristina da Costa Vieira. “Para uma nova tipologia da descrição da personagem narrativa”, in Revista de Estudos Literários, p. 126.
248 Um dos sete parâmetros apresentado por Cristina Vieira no âmbito da narrativa para servir a uma nova
tipologia da descrição da personagem narrativa. Cf. Cristina da Costa Vieira. A construção da personagem
duas literaturas é relativa ao uso quer de descrição direta quer indireta. No primeiro caso, cabe ao narrador dar alguns detalhes sobre as personagens, mas no segundo caso, a responsabilidade descritiva é concedida ao ouvinte, cabendo a este ter um papel mais participativo na representação e significação das personagens. Portanto, pode verificar-se que, não importa a tipologia da narrativa, toda personagem é, normalmente, dotada de caracterização direta e indireta. Como diz Philippe Hamon, “tout personnage […] d’un récit n’est peu- être que la somme, la resultante d’un certain nombre «d’effets descriptifs» dissemines dans l’enoncé”249.
Por outro lado, não há uma regra fixa neste corpus que regule o número exato de personagens que devem participar numa fábula, pois ele é muito variável. No entanto, infere- -se que esta é uma narrativa livre, quanto à ordenação e seleção de personagens, dependendo muito da organização geral das sequências. Nota-se esta variedade no número de personagens nos seguintes exemplos:
Era uma vez, a Cobra fez amizade com o Crocodilo, o Crocodilo fez amizade com o Rato e o Rato fez amizade com o Pássaro250.
Então o galo andava contente porque andava sempre em volta da eira onde havia grão, e ia pra lá comer, e, portanto, gostava daquele tempo. Gostava mais do que das noites do Inverno. Mas o gato não. Esse passava pior251.
Presencia-se ainda na fábula de tradição oral de Icolo e Bengo e de Bragança, que as personagens, normalmente, cumprem apenas um papel, o que se atende à simplicidade do género. Cabe apenas a cada uma concentrar-se e executar a função que lhe compete, evitando- -se repetições ou trocas sucessivas de funções no desenrolar dos eventos. Por exemplo, na fábula da literatura oral de Icolo e Bengo a lebre desempenha unicamente a função de arrogante quando aceitou o desafio da tartaruga, e esta o de ser manhosa e persistente no decurso do desafio à corrida252. O mesmo ocorre na fábula de tradição oral de Bragança, o lobo
desempenha o papel de ingénuo, de maneira diferente a raposa é matreira consegue não só influenciar, mas ludibriar o lobo253. Em raros casos, quando se dá a repetição é apenas de
natureza mecânica, nunca se inicia uma outra sequência.
Normalmente, a comunicação, isto é, o diálogo entre as personagens, faculta que uma aprenda ou aceite o que a outra propõe. Verifica-se nesse âmbito uma associação entre os seres que preenchem a narrativa. Consequentemente, é a partir da interação entre as personagens que cada uma consegue definir melhor o seu estatuto no domínio dos programas narrativos.
Falar de personagem no parâmetro da fábula de tradição oral, por um lado, envolve destacar particularidades primordiais destes seres que encontram a sua essência à medida que cumprem as suas funções, inseridas sempre no discurso de um narrador. Por outro lado, envolve também identificar a relação que a personagem estabelece com o espaço, o tempo e ainda o
249 Philippe Hamon. Introduction à l’analyse du descriptif. Paris: Hachete, 1981, p. 111.
250 “O crocodilo, a cobra, o rato e o pássaro”, in anexo 1. Fábulas de tradição oral de Icolo e Bengo. 251 “O gato e o galo”, in anexo 2. Fábulas de tradição oral de Bragança.
252 Vide “A lebre eo cágado”, in anexo 1. Fábulas de tradição oral de Icolo e Bengo. 253 Cf. “O lobo e a raposa gaitera”, in anexo 2. Fábulas de tradição oral de Bragança.
modo como ocorrem os diálogos e os monólogos. Estes elementos narrativos complementam a construção da personagem da fábula de tradição oral de Icolo e bengo e de Bragança.