4. EMPIRISK METODE OG SKATTEMODELL
4.6 M ODELL FOR BESKATNING
Para analisar comparativamente os limites cronotópicos da fábula de tradição oral de Icolo e Bengo e de Bragança, conforme o nome indica, há que ter em conta os aspetos tempo “cronos” e espaço “topos”. Essa análise envolve as dominantes espácio-temporais, que se encontram ligadas às imposições de proveniência histórico e geo-cultural que se projetam sobre o texto narrativo, mediatizadas pelos seus específicos códigos técnico-literários254.
Tendo em conta a aglutinação de duas categorias no termo cronótopo achou-se conveniente, por uma questão metodológica, analisar as fábulas de cada literatura primeiro quanto ao espaço físico, verificando as suas semelhanças, e, em seguida, centrando-nos no tempo.
Entendido como o domínio específico da história, o espaço integra, em primeira instância, os componentes físicos que servem de cenário ao desenrolar da ação e à movimentação das personagens: cenários geográficos, interiores, decorações e objetos255. É
nesta vertente que se entende o espaço, embora não se negue o facto de que o termo pode ganhar outros sentidos, mesmo dentro do âmbito da narrativa.
Observa-se que nas duas literaturas a descrição do espaço, na maioria das histórias é breve, mesmo havendo necessidade de mudanças de locais por parte de algumas personagens. Os espaços são maioritariamente abertos, como se vê nos seguintes exemplos:
Numa mata, junto do rio vivia um Coelho que um dia resolveu
mostrar que era muito esperto. Foi pela mata e se encontrou com o Elefante com quem conversou256.
E davam grandes passeios. Num desses passeios, fez-se-lhes noite no bosque e tiveram de arranjar onde dormir. Encontraram então um velho carvalho, onde o cão logo achou
uma toca para se meter, preferindo o esquilo subir à árvore e acomodar-se num galho257.
Na fábula da literatura oral angolana e portuguesa, a componente espacial física onde normalmente se desenrola a ação, mesmo em muitos casos não sendo identificadas transmite a ideia de extensão, ou seja, uma zona ampla, geralmente, recatada. Por causa deste pormenor, o espaço da fábula de tradição oral é designado por rural ou campestre. Não se descarta o facto de que isto está muito associado ao tipo de personagem que preenche esta narrativa.
Para a identificação do espaço recorrem-se aos nomes comuns bem como aos advérbios de lugar. Na fábula de tradição oral, os lugares onde as personagens se movimentam aparecem
254 Carlos Reis e Ana Lopes. Dicionário de narratologia, s.v. “cronótopo”, pp. 83-84. Acrescento nosso. 255 Ibidem, s.v. “espaço”, p. 129.
256 “O coelho, o elefante e o hipopótamo”, in anexo 1. Fábulas de tradição oral de Icolo e Bengo. 257 “A esperteza do esquilo”, in anexo 2. Fábulas de tradição oral de Bragança.
indicados de duas maneiras. A primeira e a mais usual, é realizada de forma direta. Aqui as referências espaciais são construídas por nomes próprios e advérbios de lugar:
Havia dois carneiros que eram irmãos e andavam num lameiro que era deles258.
Era um lobo e um gavião. O gavião andava lá no alto e o lobo
cá por baixo à procura dumas ovelhas que ele sabia que
andariam ali perto259.
Meu amigo, procura ainda fora. Se não conseguires, então voltas aqui para falares comigo […] mas como o Leão sabia que a Toupeira vivia por debaixo da terra, chegou perto e pôs- se a chorar260.
Já na segunda maneira, a referência espacial é apresentada de maneira indireta. Deste modo, cabe ao ouvinte situar aproximadamente o local onde os factos decorrem. Portanto, as referências espaciais estão sempre destacadas na fábula de tradição oral angolana e portuguesa, nunca estão ausentes, quer a referência se faça de maneira direta quer indireta. Uma outra semelhança reside na maneira simples e discreta como o espaço é normalmente apresentado, ou seja, descrito. Esta sobriedade abrange também a referencialidade dos espaços, isto é, fica-se sempre sem saber em que zona geográfica específica as personagens se defrontaram, são julgadas ou injustiçadas. A ausência de referencialidade leva a perceber que esta não é uma característica pertinente nas fábulas analisadas.
Ainda no que diz respeito ao lugar onde as personagens exercem o seu papel, na fábula de ambas as literaturas, a indicação dos pontos geográficos jamais ocupa grande espaço na narrativa, a ponto de deixar a narrativa laboriosa.
Normalmente, o narrador prefere fazer a descrição espacial de forma panorâmica e sem grandes detalhes. Em muitos casos, entretanto, deixa-se que o recetor complete por si vários aspetos a que a fábula de tradição oral faz alusão. Entretanto, a primeira maneira de interação e crescimento social entre os seres. Portanto, a categoria espacial das fábulas das duas literaturas está estreitamente ligada aos princípios sociais e culturais de cada povo. Portanto, não restam dúvidas de que o espaço no âmbito da fábula de tradição oral desempenha um papel importante para significação desta narrativa, que por meio dela se pode entender a conjuntura social de qualquer povo.
Vejamos agora na análise cronotópica o elemento temporal com um lugar importante para a significação da fábula. Quer estejamos no campo da literatura oral angolana quer na portuguesa, o tempo na fábula é vista como um elemento de ordem. É esta categoria que realmente trata de dar a ordem, ou seja, a sequência, a frequência e a duração das ações narrativa. É a ordem temporal que ativa a sucessão lógica dos acontecimentos integrados no enunciado narrativo. Afirma Genette:
258 “O lobo e a partilha do lameiro”, in anexo 2. fábulas de tradição oral de Bragança. 259 “O lobo e o gavião”, ibidem.
Toda narrativa é uma sequência duas vezes temporal…: há o tempo da coisa contada e o tempo da narrativa […] A dualidade temporal aqui tão vivamente acentuada, e que os teóricos alemães designam pela oposição entre erzählte Zeit (tempo da história) e Erzählzeit (tempo da narrativa), é um traço caraterístico não somente da narrativa cinematográfica como também da narrativa oral261.
Segundo esta assertiva, pode afirmar-se que as fábulas das duas literaturas podem ser analisadas segundo o tempo da história (elemento primordial que nos dedicamos em analisar) e o tempo do discurso. A preocupação principal é de analisar, exclusivamente, o tempo da história, não por ser menos problemático, mas pelo facto de que o tempo do discurso varia de acordo com o ritmo que cada recetor dedica ao mesmo.
O tempo da história refere-se, no entanto, ao tempo dos episódios narrativos à medida que estes são organizados rigorosamente. E, por meio desta particularidade temporal, consegue-se datar de forma aproximada as ações umas em relação às outras. E isso é bem evidente a nível da fábula de tradição oral das duas literaturas. Verifica-se que há semelhança no modo como os enunciados obedecem uma hierarquia temporal, deixando-se guiar numa velocidade acelerada. Todas as ocorrências destas fábulas fluem de forma linear, sem que se verifiquem constrangimentos. Na fábula das duas literaturas utilizam-se saltos temporais ou elipses para acelerar o epílogo. Vejam-se os seguintes exemplos:
Passou um tempo, o cão envelheceu e morreu.
Certo dia, a sogra do caçador estava a pilar mbombo e os animais rodearam-na, chamando-se uns aos outros262.
Um dia, depois de algum tempo passado, Deus veio verificar se
todos os animais se lembravam dos nomes. E todos eles se lembravam, menos um: o burro263.
Desta maneira, nesta narrativa de tradição oral cada particularidade do evento narrativo é tratada em seu acontecido tempo.
O que ocorre na categoria espacial também se verifica na modalidade do tempo quanto à simplicidade. Entretanto, na maioria dos casos, nota-se que são as categorias gramaticais que indicam as realizações de ordem temporal da narrativa. Por este facto, conclui-se que o tempo é uma categoria da narrativa que recorre diretamente às implicações linguísticas. Os verbos, os advérbios e as locuções adverbiais de tempo são as principais referências quando se pretende identificar as partículas que orientam o escoamento temporal das fábulas da literatura oral de Icolo e Bengo e de Bragança:
261 Gérard Genette. Discurso da narrativa, trad. Fernado Cabral Martins. Lisboa: Vega Universidade, 1972,
pp. 31-32.
262“O caçador e o cão”, in anexo 1. Fábulas de tradição oral de Icolo e Bengo. 263“As orelhas do burro”, in anexo 2. Fábulas de tradição oral de Bragança.
Bem, lá fui ao casamento. Ao outro dia lá fui. E ia por um caminho e nisto apareceu-me um lobo e eu vi nele mesmo que me queria comer. Eles são muito lambões pela carne… já estava a aguçar-se todo264.
Certa altura, a dona de casa foi ver a ratoeira, não encontrou
o Rato, encontrou a cobra, mas a Cobra não estava morta […]
passou alguns dias, a dona da casa não melhorava e as visitas
continuaram: houve necessidade de abater também a Cabra265.
Lá o Cágado foi andando lentamente até chegar à meta, cortou
a fita e ganhou. A Lebre, toda convencida, quando acordou pôs- se a correr e não encontrava o Cágado pelo caminho. Depois de
tanto correr, já próximo da meta, constatou que o Cágado já lá estava266.
As ações respeitam uma velocidade temporal acelerada. Entretanto, há uma frequência que doseia o equilíbrio temporal. E, estas particularidades, sem dúvida, são traços da fábula de tradição oral. Essa frequência é, em ambas literaturas, singulativa, ou seja, a ação é narrada uma única vez, como é próprio das narrativas curtas. Por fim, a duração da narração da ação é obviamente curta.
Na análise de base estrutural comparativa da fábula de tradição oral angolana e portuguesa não foram apenas identificadas semelhanças, pois se destacam também dissemelhanças, embora estas fossem notadas em pequenos detalhes, que merecem também toda a nossa atenção. Entretanto, seguem-se os aspetos dissemelhantes que foram detetados entre as fábulas das duas literaturas em análise no que tange ao nível estrutural.