5. QUANTITATIVE METHODS
5.3 O PERATIONALIZATION OF VARIABLES
9.3.1. Núcleo Bandeirante
No Núcleo Bandeirante, os locais mais indicados pelas pessoas que freqüentam a beira do rio correspondem aos dois espaços abertos identificados pela análise sintática (ver Figura 6.5). A área 1 – em frente à Vila Divinéia – possui alguns atributos de urbanidade: existe uma via local longitudinal entre os lotes e o espaço das margens; há um caminho de pedestres que leva até a área e faz a conexão ao outro lado do Riacho Fundo (na Vila Metropolitana), pela ponte Boca Louca; os lotes não estão de costas para a área (embora as frentes sejam voltadas para vias perpendiculares ao rio). Por outro lado, este espaço não é integrado à malha viária principal – só é possível chegar lá de carro por meio de vias locais, internas à Vila – e a visibilidade do rio é prejudicada pela existência de uma série de barreiras.
A área 2 – em frente ao Setor de Oficinas – também apresenta atributos de urbanidade: é confrontada por uma via longitudinal, que se liga ao sistema viário principal por meio das Vias NB1 e NB2; várias pontes de pedestres estabelecem a ligação com a outra margem do Riacho Fundo, onde se situa a Vila Cauhy; todos os lotes do Setor de Oficinas se voltam para o rio (embora o lote do Fórum fique de costas para ele); é a área que melhor permite alguma visibilidade do leito d’água. Entretanto, a destinação dos lotes do entorno – para oficinas e pequenas indústrias – faz com que as pessoas procurem a área apenas para este fim. Apenas os usuários locais, ou os que atravessam para a Vila Cauhy chegam à beira do rio. Além do
uso não ser propício à valorização dos espaços de beira-rio, as atividades ligadas às oficinas se estendem ao espaço público, comprometendo a qualidade cênica do local.
A configuração espacial dessas duas áreas encontra rebatimento no contado dos moradores das redondezas com o rio. Dentre os entrevistados do Setor de Oficinas (próximo à área 2, que permite alguma visibilidade para o Riacho Fundo), a maioria (62%) disse que vê o rio todos os dias e apenas 12,5% disseram que o vêem raramente. Já na Vila Divinéia (próximo à área 1, onde a acessibilidade física e visual para o Riacho Fundo é mais limitada), as opiniões se dividem: 50% dos entrevistados disseram que vêem o rio todo dia ou pelo menos uma vez por semana e 50% que o vêem raramente.
Diante da questão sobre onde ficam as áreas de lazer, dentre as pessoas que indicaram a área da Vila Divinéia, 71,8% moram perto: praticamente todos os entrevistados da Vila Divinéia e alguns que moram do outro lado do rio, na Vila Metropolitana. Nenhum dos entrevistados indicou a área em frente ao Setor de Oficinas, não considerado como “área de lazer”.
De fato, o espaço em frente ao Setor de Oficinas não possui qualquer tratamento que o caracterize como área de lazer – não existe arborização, mobiliário urbano, nem equipamentos de recreação. O espaço da Vila Divinéia é a única área de beira-rio pública, de lazer, no Núcleo Bandeirante. Entretanto, a pouca integração global ao conjunto urbano, faz com que sua apropriação tenha um caráter local. A Associação de Moradores da Vila Divinéia é atuante, buscando a mobilização dos moradores e da Administração Regional para iniciativas e intervenções de melhoria das condições locais e de proteção ambiental (plantio de árvores, limpeza do rio e das margens), promovendo atividades e eventos, incentivando a utilização da área.
Quando foi perguntado aos entrevistados aonde costumam ir, as áreas 1 e 2 foram as que obtiveram o maior número de respostas. Dos entrevistados que disseram que freqüentam a área da Vila Divinéia, 57,1% moram nesta vila e 28,6% moram na Vila Metropolitana (perto do rio, na outra margem). Dentre as pessoas que indicaram o trecho localizado entre o Setor de Oficinas e a Vila Cauhy, 50% moram na Vila Cauhy e 37,5% no Setor de Oficinas. Estes resultados confirmam minha suposição inicial de que, no Núcleo Bandeirante, a baixa integração global dos dois espaços abertos de beira-rio faz com que a relação com os cursos d’água tenha caráter eminentemente local.
O espaço às margens do Córrego Vicente Pires, onde hoje está instalado o clube do SESI, por ter fácil acesso viário (pela Avenida Central) e ser constituído (os lotes vizinhos se voltam
291 para ele) antigamente possuía atributos de urbanidade. A sua privatização e cercamento alterou completamente a configuração espacial. Não se observa, neste caso, a existência de familiaridade e relações com o local por parte dos entrevistados que moram por perto. Diante da questão sobre onde ficam as áreas de lazer na cidade, a maioria dos entrevistados do Núcleo Bandeirante (22%) indicou a área do SESI, mas apenas 16,2% dos que deram esta resposta moram perto. Quando perguntado o local que freqüentam, nenhum dos moradores das imediações indicou essa área. Alguns destes moradores comentaram seu desgosto com a privatização do espaço: “Antigamente era aberto para a comunidade; a gente ia lá direto”.
9.3.2. Pirenópolis
Os diversos espaços abertos de beira-rio de Pirenópolis (ver Figura 7.4) apresentam distintos desempenhos de urbanidade. Alguns deles possuem mais atributos de urbanidade, em especial o coração do beira-rio (área 1), conforme comentado no item 9.2. Outros espaços públicos de beira-rio que apresentam bom desempenho de urbanidade são: área 4 – quarteirões a montante do coração, até o Cai N’água – onde existe boa integração ao sistema viário principal e uma via longitudinal ao rio, os lotes lindeiros constituem os espaços da margem e a vegetação existente não chega a formar uma barreira visual para o rio; área 8 – Lajes – onde os espaços das margens são constituídos pelas frentes dos lotes e são contornados por uma via local longitudinal, embora a área tenha baixa integração global, em termos físicos (o acesso só é viabilizado por vias locais) e visuais.
Pela análise dos questionários, essas áreas são freqüentadas por moradores de todas as partes da cidade. Apenas nas Lajes verifico que há um maior percentual de freqüentadores que moram próximos: das pessoas que disseram que freqüentam a área, 60% moram nas Vilas Matutina e Pequizeiro; a baixa integração física da área lhe confere um caráter de acessibilidade mais local.
Outros espaços abertos apresentam baixo grau de urbanidade (no que concerne aos aspectos de constitutividade, acessibilidade física e visual)4: área 5 (Vila do Couro), onde os lotes voltam as costas para o espaço das margens, o acesso à área se dá apenas por uma via local e a visibilidade é parcial; área 6 (praça ao lado da Ponte Nova), de fácil acesso físico (pela via que leva à ponte) e visual, porém contornada por espaços cegos (desconstituída); área 8 (em frente à Vila Pequizeiro), onde os lotes vizinhos voltam as costas ou divisas laterais para o
4 Vale lembrar que esses espaços (bem como as áreas 1 e 2 do Núcleo Bandeirante, tratado no item anterior), por
espaço das margens, o acesso físico é dificultado e a vegetação mais densa impede a visibilidade do rio.
Em todo o trecho a montante dos quarteirões do centro histórico (área 4) – onde se localiza a Cachoeirinha (área 3) –, a urbanidade se manifesta apenas pelo fato de haver espaços abertos (embora estreitos) ao longo das margens, conectados pela trilha de pedestres. São, entretanto, espaços desconstituídos (contornados pelas cercas das propriedades vizinhas), inacessíveis por vias de veículos e de baixa integração visual global. Apenas na área da Passagem Funda (área 2) existe acesso de veículos (por uma via local, interna ao assentamento), havendo estabelecimentos voltados para o espaço das margens (bar/restaurante e um camping), de forma que possuem algum grau de constitutividade. Dentre os entrevistados que disseram freqüentar a área em frente à Passagem Funda, todos moram próximos (50% na Passagem Funda e 50% em bairros das imediações), o que reflete o fato de esta ser a área de beira-rio de menor integração física e visual global.
Na questão sobre se o acesso à beira-rio é fácil ou difícil, alguns dos comentários feitos pelos entrevistados expressam a diferença entre os espaços abertos urbanos e os espaços privatizados, localizados a montante da área urbana: “Fácil, dentro da cidade. Fora da cidade, as pessoas cercam até a beira”.
Alguns dos comentários são elucidativos sobre a diferença de desempenho, quanto à sensação de segurança, entre os espaços de beira-rio que têm maiores e menores atributos de urbanidade: “Em lugares mais afastados fica perigoso. Logo você já vê ali, numa moitinha, alguém fumando maconha”; “Lá na Prainha não dá medo”; “O único lugar que pode ter problema é depois da Ramalhuda, que é fechado, tem mata, pode alguém atacar. Aqui, que é tudo aberto, todo mundo tá olhando”.
9.4. OUTROS INDICADORES DE DESVALORIZAÇÃO DOS CURSOS D’ÁGUA