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O MRÅDESBESKRIVNING

In document Mangslid Samrådshandling (sider 23-28)

Além da tentativa de proximidade física, o teatro popular caracteriza-se também pela busca desta proximidade através do seu conteúdo. De acordo com autores como Schechter (2003), Boal (2005), Brecht (1948) e Little (2004), para ser popular, o teatro deve tratar de assuntos concernentes à sociedade (ou grupo social) na qual se insere, de uma forma inteligível para esta sociedade (ou grupo), causando interesse, identificação e um possível desmembramento em outras representações ou ações no âmbito social. Dito de outra forma, não basta levar a representação teatral às ruas para que esta seja popular, é preciso que ela faça-se entender e tenha capacidade de mobilizar os seus espectadores: “Popular significa [ser] inteligível para as

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grandes massas, adotando e enriquecendo as suas formas de expressão” (Brecht apud McGrath, 1991: 63).

Diversos elementos são utilizados pelo teatro na busca por comunicar e fazer-se entender, sendo a linguagem falada um dos mais importantes. No caso, por exemplo, das peças encenadas em latim na França medieval, fica claro que estas, mesmo que fossem realizadas nas praças e tratassem de assuntos de interesse dos servos feudais, jamais poderiam mobilizar as castas mais baixas da sociedade, pois a grande maioria desta população era analfabeta mesmo na sua língua-mãe, e menos de 1% da população era capaz de entender a língua oficial das liturgias católicas (Schechter, 2003). Definia-se assim, neste exemplo, através da linguagem, o público para o qual estas representações eram destinadas: os nobres e clérigos que tinham acesso à educação erudita e eram versados no latim. Outros aspetos, é claro, influíam na definição do potencial popular destas representações, mas o caráter linguístico era determinante e serve, aqui, para demonstrar a importância da linguagem na definição da audiência teatral.

Outra passagem da história medieval, desta vez na Alemanha, é um bom exemplo da estreita ligação entre o teatro e a linguagem. Após séculos de tentativas de unificação que forjasse uma nação germânica, unindo povos de diversas províncias que falavam diferentes dialetos, foi apenas em 1534 que o país deu início à sua unificação linguística, com o surgimento da língua alemã. Porém, esta unificação, de acordo com o pensador Johann Wolfgang von Goethe, só veio a ser consolidada aos poucos, e só foi possível graças a teatro: “A dicção do palco forneceu uma base padrão na qual uma literatura poderia ser construída” (Londré, 141).

No exemplo francês, vemos a linguagem como uma característica distanciadora das audiências teatrais. No exemplo alemão, esta surge como agregadora social, utilizando-se do teatro como importante meio de expressão. Em ambos os casos, porém, a linguagem é determinante para o entendimento e a identificação potencialmente proporcionados por uma encenação teatral, sobretudo no caso do teatro popular.

Outros elementos, além da linguagem falada e escrita, são também importantes ferramentas na construção do discurso popular. No caso do teatro, o gesto ganha destaque como ferramenta de comunicação e já foi objeto de estudos para vários teóricos como Dario Fo, Jerzy Grotówski,

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Barthes e Brecht: “O gesto e o movimento do ator são para Brecht o fundamento da linguagem visual do espetáculo” (Peixoto, 1968: 71).

O teatro é, antes de tudo, um processo de comunicação entre duas partes. O uso de símbolos e convenções, junto à fala, no contar de uma história, deve ser cuidadosamente empregado, visando o pleno entendimento entre o público para o qual o espetáculo é destinado. Símbolos são estruturas de significado partilhado dentro de um contexto cultural. Desprezar este contexto na utilização destas estruturas é comprometer a eficiência do processo comunicativo, prejudicando a sua inteligibilidade e a identificação por parte da audiência.

Diferente do chamado ‘teatro experimental’ ou ‘teatro contemporâneo’, onde a fruição da experiência (o ‘happening’) costuma ser prioritária, em detrimento da clareza do significado, no teatro popular, ainda segundo os pontos de vista dos teóricos acima citados, o entendimento é tão importante quanto a experiência da performance, e devem caminhar juntos na produção de um significado. Logo, a utilização dos símbolos e convenções neste tipo de teatro deve respeitar o contexto no qual ele é produzido, para possibilitar a melhor fruição por parte da audiência. Isso não significa que devem ser utilizados apenas ‘lugares-comuns’ na construção do discurso popular para que ele seja inteligível. Isto seria subestimar a capacidade da audiência em inferir e interpretar, exatamente o oposto do que o teatro de caráter popular propõe-se a fazer. O que deve-se ter no horizonte é a importância da partilha de significados, quando processos interpretativos são acionados. Por exemplo, quando, em cena, fala-se em ‘coroa’, é preciso ter em mente que, para determinado público isto pode significar a dignidade de um povo, enquanto para outro simbolizará um instrumento de opressão. É neste sentido que torna-se imprescindível para o teatro popular estar em sintonia com o seu contexto social (Salverson, 1997).

Frequentemente ligado às tradições culturais de uma comunidade, o teatro de linguagem popular, no seu esforço por tornar-se inteligível e próximo, deve desenvolver-se junto com esta sociedade, sob risco de, ficando estacionado no tempo, ter comprometida a sua pertinência social. Uma das mais antigas tradições do teatro popular japonês, o teatro de bonecos bunraku é um exemplo da importância da inteligibilidade e proximidade de conteúdo das produções do teatro popular na manutenção do seu vínculo com a audiência. Fundado em 1684, o bunraku é conhecido como um dos maiores e mais notáveis patrimônios da cultura popular oriental.

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Porém, atualmente, depois de mais de três séculos de práticas, ele perdeu muito da sua popularidade e enfrenta sérias dificuldades para manter-se ativo:

“O bunraku atraía grandes audiências no século XVIII pois encenava peças de apelo imediato. O problema da apreciação do bunraku hoje é que as peças pertencem a um Japão que, ou não existe mais, ou está enterrado tão profundamente que é difícil de ser descoberto (…) muitos jovens japoneses declaram não poder entender nem a linguagem poética antiga das peças, nem a sua filosofia fora de moda” (Donald Keene apud Schechter, 2003: 36).

Outro exemplo do reconhecimento da importância da identificação da sociedade com as representações teatrais produzidas surge-nos do Canadá. De acordo com The Canadian Conference of the Arts, o teatro próximo e significante para a sua audiência é uma ferramenta essencial para a manutenção de todo o gênero teatral. Em relatório publicado em 1997, a CCA revelava o afastamento do público canadense dos teatros e apontava a necessidade de um teatro capaz de aproximar artistas e comunidade como única forma de sobrevivência da arte teatral no país. “A menos que os trabalhos das organizações artísticas estejam enraizados e façam sentido para a sua comunidade, a sua sobrevivência é precária” (Little, 2004: 31), sentencia a CCA.

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