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CHAPTER 1. INTRODUCTION

1.3 O BJECTIVE AND SCOPE

Eu, Aiene Fernandes Rebouças, nascida em Areia Branca na data de 16 de setembro de 1956. Filha de pais com grau de escolaridade correspondente aos anos iniciais da educação básica (antigo primário) e com funções na família bem distintas: a mãe cuidava dos nove filhos e o pai sempre representava a figura do provedor, aquele que trabalhava muito para manter a família.

Iniciei os estudos na casa de uma professora alfabetizadora, próxima a minha residência, uma espécie de escola que ensinava as primeiras letras para que aos sete anos as crianças pudessem ingressar no 1º ano. Dona Helena era a professora que orientava o processo de alfabetização das crianças daquelas redondezas, em Areia Branca. Não me lembro de muitos detalhes dessa época, mas me recordo perfeitamente da “Cartilha de ABC” e da “Cartilha de Sarita” livro que complementava os estudos no processo de alfabetização.

Após esse período ingressei na escola, aquela com prédio de escola e jeito de escola. Bem diferente da casa de D. Helena, lá existia parquinho de ferro com balanços, uma gruta com a imagem de Nossa Senhora dos Navegantes e muitas freiras. Nessa escola, Educandário Nossa Senhora dos Navegantes, fiz a pré-escola e no final do ano tive direito a colação de grau, evento em que tive meu irmão Júnior como padrinho. Logo após a conclusão desse nível de ensino fui estudar no Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra.

Os primeiros anos no Grupo Escolar foram muito legais, eram muitos amigos e um espaço bem amplo para brincar, correr e conversar no horário do recreio. Neste grupo fiz todo o primário até o 4º ano. Tive boas professoras, dentre elas destaco minha tia Fátima, Professora Rosário Cabral, Aparecida Rodrigues. Delas recordo a exigência com as atividades, o zelo dos cadernos e livros, a perfeição das letras, todas elas eram portadoras de letras belíssimas. Isso estimulava os alunos a terem também letras bonitas. Os momentos de redação, nos quais poderíamos falar sobre nossos sonhos e tristezas, às vezes de viagens feitas ou fatos que ocorriam em nossas vidas familiares.

Outra lembrança interessante eram as aulas de história. Elas se constituíam de aulas bem centradas com leituras bem longas de textos narrativos, que geralmente vinham nos livros didáticos, acrescidos por exemplos da professora, dados especialmente, para complementar as ideias dos textos e auxiliar os alunos na compreensão do “ponto”, denominação dada aos textos do livro de História.

Uma experiência que também me marcou nessa época foi o exame de admissão. Este se constituía de um exame que media sua capacidade para ingressar no ensino ginasial, hoje denominado de anos finais da Educação Básica. Esse exame se caracterizava pelas provas bem

longas que traziam todo conteúdo estudado durante os quatro anos do primário, atualmente chamado de anos iniciais da Educação Básica. Caso o aluno não fosse bem sucedido nesse exame não estava habilitado a ingressar no curso ginasial e teria que repetir a 4ª série até o próximo exame de admissão.

Após ingressar no ensino ginasial meus pais acharam conveniente me levar para a cidade vizinha, Mossoró para que eu lá continuasse meu estudo. A família fez um esforço enorme para me matricular em uma das melhores escolas, na época, década de 60, o Colégio Ginásio Sagrado Coração de Maria, dirigido por freiras da congregação Filhas do Amor Divino. Era uma escola particular, cuja mensalidade era muito alta para o orçamento da minha família. Porém valia à pena tanto sacrifício para que eu pudesse ter bons estudos. A minha ida para essa escola deveu-se, ainda, ao desejo de minha mãe de ter alguma filha que se interessasse em servir a Igreja católica como freira. Esse desejo não comungava com o de nenhuma das suas filhas, nem em mim.

Reconheço hoje a organização da escola e os ensinamentos que recebi. A escola só recebia meninas, dava formação religiosa e também ensinava a ser excelente mãe e dona de casa. Bem coerente com o contexto da época – às mulheres uma formação sem muita preocupação de formar profissionais, mas educar as meninas para escolherem “bons maridos”, que garantissem a elas seu sustento e o de sua família.

Nesse colégio fiquei estudando dois anos semi-interna e os demais apenas um turno. Havia aula todos os dias das 7 da manhã ao meio dia e as atividades iniciavam com a missa às 6 horas da manhã, logo em seguida café e aula. Duas vezes por semana tinha aulas de Educação Física e esporte, havia também aulas de arte e de bordado, trabalhos manuais. As aulas se caracterizavam pelo ambiente silencioso e onde ecoava a voz do professor ou professora explicando as tarefas e ensinando os conhecimentos, logo em seguida vinham os exercícios, questionários e os pontos para serem argüidos no dia marcado pelo professor da disciplina.

Uma das tarefas que me mais marcou o meu tempo nesta escola eram as provas orais e os dia de argüição. A professora chamava pelo nome na ordem alfabética e ordenava que a gente falasse o ponto que tratava, por exemplo, da Proclamação da República, ali a gente ia falando e ela acompanhando pelo livro texto. Quando faltava algum trecho ela lhe alertava e às vezes dizia que era preciso repetir a tarefa. Tanto nesses momentos como em outras aulas o silêncio era profundo e poucos alunos se arriscavam falar. Falar apenas o necessário, quando fosse solicitado ou o professor ordenasse.

Nesta escola fiz até a sétima série, quando interrompi meus estudos para casar. Casei de surpresa com apenas cinco meses de namoro e bem jovem, ainda não tinha dezoito anos. Só volto a retomar meus estudos em 70, agora em uma escola da rede pública, no município de Parelhas. Lá fiz a sétima série e no final do ano vim morar em Natal e fiz minha matrícula na Escola Estadual Padre Miguelinho, no Bairro do Alecrim. Nessa escola também tive excelentes

professores dentre eles um professor de Matemática que me ensinou a gostar dessa disciplina. Eu aprendi tanto os conteúdos dessa área que ele me denominou professora de reforço e eu assumi essa tarefa junto aos meus colegas de turma. Essa facilidade na disciplina passou a ser um indicador do que eu deveria ser – Professora de Matemática – todos os colegas assim me chamavam e eu correspondia criando alternativas e caminhos para ajudar os que tinham dificuldade em aprender determinados conteúdos da Matemática, como: polinômio e as expressões algébricas.

Ao concluir a 8ª série, hoje denominada 9º ano eu fiz outro intervalo nos estudos, porque com três crianças pequenas era muito difícil conciliar todas as atribuições da casa e ainda me dedicar aos estudos. O sonho ficou guardado por cinco ou seis anos. Ainda fiz minha matrícula no Lia Campos uma escola estadual que oferecia o supletivo de 2º grau, mas não deu para continuar, até que em 1983 inaugura bem próximo a minha residência, no Conjunto Pirangi, uma escola pública que oferecia o Ensino Médio, na modalidade científico, e também o Magistério.

Pensei que essa seria uma oportunidade ímpar e não pensei duas vezes, fiz minha matrícula no curso Magistério, nível médio. A duração do curso era quatro anos. O primeiro ano era denominado unificado. O aluno estudava todas as disciplinas do núcleo comum: Matemática, Física, Química, Biologia, Português, Inglês, História, Geografia... Só a partir do 2º ano era que começava a estudar as disciplinas específicas do curso que tinha optado. No meu caso o Magistério.

O curso Magistério teve a duração de quatro anos e nele eu estudei Filosofia, Sociologia, Didática, Psicologia, conteúdos que eu achava muito complexos, principalmente a Filosofia, mas com a continuação das aulas fui me interessando e tive um bom desempenho, sendo a 2ª colocada com a melhor média de aprovação na conclusão desse curso, em 1986. Agora eu gostaria de dar o segundo passo chegar a Universidade fazer um curso superior. Meu sonho era fazer Direito ou Psicologia, mas não me achava devidamente preparada para enfrentar a concorrência nesses cursos. Então voltei à Escola Lia Campos e me escrevi para cursar as disciplinas que eu sentia não ter muito domínio para me manter estudando e poder enfrentar o vestibular.

Nesse ínterim a Secretaria de Educação do Estado abre concurso para professor primário e oferece um número de vagas bem significativo. Inscrevi-me e consegui todos os livros da programação para estudar e me preparar para conseguir uma vaga. Fiz as provas e fui bem sucedida, ficando em 28º lugar, o que me colocou na relação dos primeiros convocados em maio de 1988. Nessa mesma época a Secretaria Municipal de Educação de Natal também faz concurso público e eu novamente sou aprovada em 20º lugar sendo convocada a tomar posse em menos de três meses. Assim sendo em agosto de 1988 eu já fazia parte do quadro de professores

da rede pública estadual do RN e municipal de Natal. Começa assim a minha história como professora, de fato e de direito.

Em 1989 realizei mais um sonho, ingressei no Curso de Pedagogia na UFRN e aí começou uma nova história da minha vida como pessoa, mulher e como profissional. Nesse curso tive acesso a muitas leituras, autores e livros que ainda não conhecia. Fui premiada com a oportunidade de participar de uma base de pesquisa do Departamento de Educação que trouxe muitas contribuições em meu processo de formação. A Base era denominada Uma Escola para a Escola e tinha como coordenadora a professora Salonilde Ferreira. As atividades eram desenvolvidas na Escola Estadual Berilo Wanderley e se constituíam de estudos e acompanhamento à prática pedagógica. Nessa escola pude fazer articulação entre os conteúdos do curso e a experiência como docente na rede pública e particular de Natal.

Conclui o curso de Pedagogia em 1993 e colei grau em janeiro de 1994. Em 1995 fiz seleção para Especialização em Educação na UFRN, um novo programa que possibilitava os alunos seguirem na Pós-Graduação sem interrupções até o Doutorado. Em 1996 fiz qualificação para o Mestrado em Educação obtendo sucesso. O curso foi concluído em 1998. Durante esse período fui professora do Probásica no Município de Touros, um curso de proformação docente em nível superior ofertado pela UFRN. Nesse curso assumi as disciplinas Fundamentos Socioecômicos da Educação, Sociologia da Educação e Didática. Uma experiência muito significativa no meu processo de formação.

Assim sendo, antes de concluir o Mestrado ingressei como professora substituta no Ensino Superior na universidade pública e como professora efetiva na rede privada. No final de 1998 assumi a função de coordenadora no curso de Pedagogia, de uma IES particular, estando nessa função até os dias atuais.

A trajetória seguida na formação acadêmica e profissional tem certa estabilidade a partir dos anos 80 e nessa caminhada tenho aprendido bastante, tanto no papel de aluna, quanto no papel de professora. Apaixonei-me pela arte de educar e tento reconstruir esse caminho na interação com os meus pares e com aqueles que vivenciam comigo o processo de aprender e ensinar.

5.1.4 Ser professora: dificuldades e incertezas