CHAPTER 4 FINITE ELEMENT ANALYSIS (FEA) FOR AXIAL AND RADIAL POSITIONING
4.1 I NTRODUCTION TO FEA
Nasci num Município de Extremoz (Genipabu), que hoje lembra pouco a época em que lá morava. Foi uma época bastante difícil do ponto de vista econômico, com pai analfabeto e mãe apenas alfabetizado do ponto de vista da leitura e da escrita, mas preocupados em fazer com que os filhos fossem à escola. Não era permitido faltar, e fazer as tarefas que a professora
mandava era uma obrigação. Tenho grandes lembranças dos morros, dos cajueiros, da casa de farinha, da lagoa (que não tinha dono) e onde brincávamos livremente sem medo de violência. Tenho também grandes lembranças do período escolar da minha época de criança e adolescência. Quando criança, nas séries iniciais, tive uma professora que hoje tenho consciência, estava além do seu tempo.
Essa professora (D. Isabel) havia freqüentado apenas as séries iniciais, mas ensinava como ninguém. Mantinha uma rigidez, que hoje compreendo ter sido muito benéfica e uma metodologia diversificada que os professores atuais não têm: Fazia leitura, contava histórias, fazia dramatizações de histórias que inventava (momento em que me sentia muito inibida) e permitia que em certos momentos brincássemos de “biloca” ou “dedola”, (como eram conhecidas), incentivava a escrita através da produção textual, utilizando a leitura e quadros com gravuras magníficas (não sei onde conseguia), que me deixavam abismada, extasiada, apaixonada e interessada pelas atividades. Aliás, era o que mais me chamava à atenção, além de que era o momento mais prazeroso.
Não havia tantos recursos, ou melhor, quase nenhum recurso existia, mas ela fazia a aula ser interessante e prazerosa. Aos seis anos já sabia ler e escrever. Penso que a facilidade que tenho para expor minhas ideias é fruto desse período de escola que me proporcionou muitas descobertas e aprendizagens.
Com dez anos de idade, pelas dificuldades que minha mãe vivia, me entregou a uma família que morava em Natal e veraneava em Genipabu. Como era meu sonho morar noutro lugar e estudar, vim muito feliz com essa família que se tornou minha família também, pois me ‘adotou’, me fez estudar, até o Curso Superior e onde me casei.
Os outros períodos do Ensino de Primeiro Grau (hoje Ensino Fundamental), quando cheguei à Natal não foram tão interessantes. Não tive professores que me estimulassem tanto. Tudo era muito repetitivo, professores desinteressados e faltosos. Esse realmente foi um período que eu não gostei muito de viver na escola, pois não tenho lembranças muito agradáveis, não tenho lembranças das coisas que estudava. O que me lembro na verdade, era das aulas chatas em que os professores davam, obrigando-me a repetir coisas que eram faladas, ensinadas em sala. Existia um instrumento chamado de “guia francês" usado em geral pela maioria dos professores, que elaboravam questões (muitas vezes cinqüenta) e no dia da prova escolhiam cinco ou dez para serem respondidas, com respostas tais quais tinham sido respondidas pelo professor. Como eu era muito crítica e não aceitava as coisas como estavam postas fui expulsa de uma das escolas que estudei.
Nesse período vivi muitas restrições, a partir da postura dos professores, a uma tímida e medrosa participação em diálogos com os colegas e professores. Era muito complicado. Os professores não compreendiam o que era um questionamento desrespeitoso e o que era desejo de aprender. Como não havia essa compreensão, tudo que se dizia era mal interpretado. A partir
dessas situações me tornei uma pessoa tímida. Até a universidade, tinha receio de falar, de me posicionar.
No 2º Grau (hoje Ensino Médio) foi de certa forma mais interessante, embora também muito restritivo no sentido do nosso posicionamento, de uma participação mais efetiva. Havia uma imensa rigidez. Estudei no Instituto Kennedy no Curso de Magistério (1976-1977) o que sempre desejei fazer, talvez pela influência da minha primeira professora (D. Isabel). A Diretora, Crisan Siminéia era de uma rigidez extrema (representava o período ditatorial que havia vivido e o que vivia). Nessa escola, professor não faltava, tínhamos que obedecer rigidamente o horário de entrada e de saída, tínhamos que manter o uniforme (obrigatório) limpo e bem passado e sem nenhuma peça faltando. Como eu sempre fui muito crítica e brincalhona, apesar de tímida (embora nesse período o nível de timidez tivesse diminuído) vivia sendo observada e sendo chamada a atenção em função da não aceitação do que era ditado pela diretora. Mas havia um grupo muito interessante de colegas que fazia a maior festa em qualquer local que estivéssemos. Momentos sem aula proporcionavam muitas conversas e brincadeira.
Apesar de tudo, aprendi muitas coisas que até hoje se constituem parte do meu fazer. Uma dessas coisas é a disciplina ao realizar minhas tarefas. Nunca deixo nada para depois. Aprendi a me cobrar antes que qualquer pessoa possa ou queira fazê-lo. Não deixei de ser crítica, brincalhona e sempre de bem com a vida.
Estudei durante toda a vida em escola pública, fiz meu primeiro vestibular para Pedagogia no final da década de 70, exatamente em 1977 e fui aprovada. No ano de 1980, conclui o curso superior. Na época, Habilitação em Orientação Educacional. O período de formação no curso superior foi bastante crítico com relação às questões democráticas. Vivíamos uma época conturbada, onde os direitos foram violados, onde o livre pensar era uma afronta a quem estava no poder e onde se posicionar criticamente provocava grandes problemas.
Quando conclui o curso de Pedagogia já se vislumbravam novos horizontes, já se lutava e se discutiam mudanças para o país. Na verdade não posso dizer que tive uma formação crítica. Posso dizer sim, que existiam alguns professores bastantes críticos que nos faziam caminhar sob novas perspectivas. Conclui o Curso em 1980 e passei dois anos sem ingressar no mercado de trabalho.
Dois anos depois de concluído o curso, fui trabalhar como professora de Língua Portuguesa numa escola particular de Natal. Embora não tivesse nada a ver com a minha formação, foi o que surgiu no momento e para não ficar desempregada era a única alternativa. Sem nenhuma experiência e sem a formação necessária sofri bastante, pois tinha que estudar além da conta para dar conta dos conteúdos. Passei dois anos nessa escola. Em 1982, passei a trabalhar como Orientadora Educacional (contrato temporário) em uma escola do então Segundo Grau da Rede Estadual de Ensino, escola esse onde havia realizado estágio do Curso de Graduação.
Em 2003, dois anos após a conclusão da graduação fui contratada e me tornei professora efetiva da Rede, na função de Orientadora Educacional, nessa mesma escola. Foi um período bastante difícil em termos profissionais, uma vez que havia concluído uma habilitação do Curso de Pedagogia, mas não havia muita clareza sobre a atividade que teríamos que realizar. Assim, nossa atividade se resumia a fazer aconselhamento, atendimentos individuais, grupais, mas era algo sem profundidade e sem muita objetividade.
Em 1984 mudei de função e passei a ensinar Didática Geral, Prática de Ensino numa Escola de formação de professores da Rede Estadual de Ensino e em 2005 no curso de Pedagogia de uma universidade particular. Foram momentos muito gratificantes que, mesmo com todas as dificuldades, até hoje vivo. Passei a perceber que essa era uma atividade que realmente gosto de fazer e que sinto muito prazer. Trabalhar com formação de professores tem sido, até hoje, uma constante na minha vida. Em outubro de 1985, fiz concurso para professora do Ensino Fundamental da Rede Municipal de Ensino de Natal e em fevereiro de 1986 assumi a função de professora da primeira série do então chamado primeiro grau menor. Esse foi um período de muitas e significativas aprendizagens e de muitas dificuldades. Compreendi nesse momento que alfabetizar não fazia parte das habilidades adquiridas por mim ao longo do tempo. Na época eu dizia que nada do que eu havia aprendido estava servindo para que eu pudesse desenvolver um trabalho interessante. Eu ainda não conseguia estabelecer relações e ver significado no que tinha aprendido e como isso poderia me ajudar na prática que ora desenvolvia. Pude perceber que trabalhar com criança, alfabetizar, ensinar a ler e a escrever não é nada fácil, além do que não havia na escola quem pudesse me ajudar a desenvolver o meu trabalho. O Supervisor desenvolvia um trabalho meramente burocrático, onde fazer controle de freqüência e de diários de classe era sua maior atividade. Não eram proporcionados momentos de troca de experiências, nem de estudo, que pudessem promover uma reflexão sobre a prática desenvolvida visando a sua melhoria.
Na verdade, eu fazia um trabalho muito solitário. Ensinava numa escola da periferia de Natal, onde as crianças eram rebeldes ao extremo (ser rebelde não é uma peculiaridade da atualidade), os pais não davam assistência, e a escola não sabia o que fazer. Havia momentos em que a minha frustração era enorme pelo fato de não ver grandes resultados no que realizava.
Embora já fosse pedagoga e tivesse certo embasamento teórico, ensinar àquelas crianças me remetia não a minha formação inicial, mas aos anos escolares onde a minha professora era rígida, mas muito competente. Afinal, aos seis anos de idade já sabia ler e escrever. Não conseguia compreender que o meu período escolar havia sido outro, com crianças obedientes, com outros valores familiares e não havia os apelos que hoje existem. Eu não conseguia agir com a competência da minha antiga professora dos anos iniciais de alfabetização embora sempre me reportasse a ela para resolver qualquer situação. Não havia a clareza de que momentos históricos diferentes requerem posturas diferentes.
Passei dois anos como professora nessa escola da rede municipal. No ano seguinte passei a trabalhar na mesma escola, como Orientadora Educacional. Essa fase foi bem frustrante também, pois como já enfatizei, não existia nada definido com relação à função do Orientador. Ou seja, fazia tudo, mas nada que desse resultado visível. Parece-me que como Orientadora ficavam mais claras as dificuldades das crianças, mas a minha impotência era muito maior.
Mudei de escola (1989) e assumi novamente a função de Orientadora numa escola que seria de Tempo Integral. Essa escola, que ainda estava sendo construída quando nela ingressei, era mais organizada e tínhamos mais condições de trabalho. Havia uma proposta de manter os alunos durante o dia todo na instituição. No turno matutino estavam na sala de aula regular e à tarde faziam atividades de reforço, esportiva, entre outras. Além, disso, funcionava no turno noturno com Educação de Jovens e adultos, onde trabalhei por dois anos. Em 1991, passei a trabalhar nesta escola, no turno vespertino com crianças da 1ª a 4ª série do Ensino Fundamental. Em1992 pedi remoção e fui trabalhar numa escola no bairro onde morava e isso compensava qualquer coisa. Até 1994, fiquei na função de Orientadora Educacional. Em 1995, através de eleição direta assumi a direção da escola, onde fiquei até 2007, com o mandato renovado a cada dois anos, sempre através de eleição direta.
Nesse período vivi momentos muito significativos, uma vez que compreendo que a gestão tem uma dimensão financeira, administrativa e pedagógica que precisa ser compreendida pelo gestor. Nesse período aprendi a lidar de forma mais intensa com as pessoas e principalmente, a lidar com as questões pedagógicas da escola, o que me fez querer estudar e participar efetivamente. Esse período me fez ficar bem próxima e atenta aos problemas de aprendizagem das crianças o que muito me afligia. Era muito difícil ver as crianças passarem vários anos na mesma série, sem aprender a ler e a escrever.
Nesse mesmo período também era professora de Didática e de Prática de Ensino do Curso de Magistério de uma Escola da Rede Estadual de Ensino em Natal/RN. Passei quinze anos em sala de aula. Essa foi uma experiência muito gratificante e ao mesmo tempo estressante. Afinal, trabalhar, ensinar em curso de formação, dentro das condições e do contexto que vivíamos me dava uma angústia, pois a vontade de que as coisas caminhassem e dessem certo, não correspondiam com as condições de trabalho, com o apoio que tínhamos e ainda temos.
Tanto como professora do Ensino Fundamental, como professora de curso de Magistério, ou como diretora de escola, pude perceber que há algo que precisa ser feito para melhorar o nível dos nossos alunos, das nossas escolas. Os alunos que estão saindo das escolas sem saber os conteúdos básicos necessitam de uma ação consistente por parte do professor e da escola, que os façam ser mais autônomo, críticos, que tenham condição de compreender o seu contexto, a sua realidade, a sua vida. É necessária uma política educacional que valorize o
professor e dê a ele as condições básicas de trabalho, que dê condições realmente do professor ensinar e do aluno aprender.
O que percebemos é que pela forma como o trabalho é feito, onde aprender é mera decodificação, onde os alunos são simplesmente copistas, é necessária uma ação efetiva, que possibilite a aquisição de novos saberes e a construção de novos conhecimentos. Para isso, é fundamental que a formação dos professores, entre outras questões, seja feita de forma consistente, sólida e principalmente, voltadas para as suas reais necessidades e para a compreensão do que é ensinar e aprender.
Nesse ínterim do desenvolvimento profissional, também fiz o Curso de Psicopedagogia, (concluído em 2000). Nesse Curso adquiri aprendizagens significativas com relação a ensinar e aprender. Embora tenha tido muitas lacunas, foi nesse Curso onde pude compreender muitas questões relativas às dificuldades de aprendizagem e querer ir mais adiante para compreender porque os alunos não aprendem e por que os professores sentem tantas dificuldades para ensinar.
Na verdade, desde muito cedo havia certa compreensão, embora sem muita fundamentação de que os alunos não aprendiam a ler, a escrever, por que não desenvolveram a forma de pensar mais adequada a esse tipo de atividade. Outra questão me afligia também: quem iria fazê-los ensinar a pensar? Como o professor iria desenvolver o pensamento do aluno? Ele mesmo teria essa função mental desenvolvida? A sua formação dava conta de desenvolver o seu pensamento? Foi pensando e hipotetizando sobre essas questões, que resolvemos desenvolver essa pesquisa, com o intuito de contribuir para a área de formação de professor, pondo em discussão essa formação e a sua relação com o desenvolvimento do pensamento.
Para compreender melhor essas questões, antes de iniciar o Mestrado participamos da Base de pesquisa Currículos, Saberes e Prática Educacionais, do Centro de Ciências Sociais Aplicadas, do Programa de Pós-Graduação em Educação, na Pesquisa “Conhecendo e Construindo a Prática Pedagógica”, onde há mais ou menos cinco anos estudamos, discutimos e refletimos sobre a prática pedagógica desenvolvida nas escolas, a partir de uma base teórica de autores como, Vygotsky, Liublinskaia, Rubinstein, Magalhães entre outros. Há questões que nos inquietam e provocam a necessidade de investigar e buscar respostas para essas inquietações. Em particular é objeto de nossa investigação a relação entre a formação do professor do Ensino Fundamental e o processo de desenvolvimento do seu pensamento.
Temos clareza de que os processos formativos vividos por qualquer professor têm interferências no seu desenvolvimento e na sua atividade profissional. Há um diálogo entre as histórias individuais e a história da profissão. Nesse sentido, pensamos que as narrativas autobiográficas vão respaldar esse diálogo. Vamos certamente encontrar equívocos, certezas, incertezas, sonhos, dúvidas e conhecimentos.