Quando fui recebida para esta entrevista, após a sesta do almoço, uma mania de Guriú, e quando o descanso no tucum (um jeito de chamar a rede nordestina) conseguiu dissipar dores, aí Nilda se permitiu cantar. Apareceram canções que me seduziram... e que me fazem concordar sem o argumento de que:
[...] no instante em que soa a música, uma estranha metamorfose se apodera de mim: até então eu podia passar meu tempo, na minha relação com o Outro, marcando meus limites para instruí-lo quanto ao limiar que ele não deveria violar para não pisar em meu território íntimo – e eis que agora um Outro se dirige a mim, solicitando um ouvinte inaudito a quem faz ouvir essa novidade siderante: “Em ti, estou em minha casa”. (DIDIER-WEIL, 1999, p.10).
E ouvindo o cantar, que continua sendo de uma menina dramista, não há como não lembrar de Paulinho da Viola a cantar a música Onde a dor não tem razão:
Canto
Para dizer que no meu coração Já não mais se agitam
As ondas de uma paixão
Ele não é mais abrigo de amores perdidos É um lago mais tranqüilo
Aonde a dor não tem razão
Nele a semente de um novo amor nasceu Livre de todo rancor em flor se abriu Venho reabrir as janelas da vida E cantar como já mais cantei Esta felicidade ainda.
(Paulinho da Viola)
Estas meninas, mulheres, senhoras, donas de casa cuidando da tapioca e temperando o peixe e as idosas esperando os dias de ir a Camocim pegar o “aposento”,18 aprenderam mais do que a arte de ser dramista ou ocupar um suposto lugar de quem sabe ensinar alguém que queria ser dramista a realizar seu desejo. Conseguiram a possibilidade de encantar o público, de seduzir a platéia e de por detrás da empanada, lá atrás do palco, conduzir só tudo e não adiar o que as vidas lhes impulsionavam a criar. Aprendiam também a conduzir a própria vida; eram sujeitadas a este modo cantante de viver, pois há um impulso “que chama a arte para a vida, como a complementação e perfeição da existência que induz a viver”. (NIETZSCHE, 1983, p. 8)
As dramistas não tinham na esperança do casamento a única meta dos dias. Eram dramistas e essa condição não cessará, nem com o casamento (tema que por sinal é recorrente nas comédias de drama):
Cheguei agora da caça Ao pingo do meio dia Fui dizendo: Olá prima! Fui tomando a benção à tia
18
As velhas e as casadas
Foram fazendo o que queriam Abenção Tia Manoela
Abenção Tio Manoel Antonio Venho pedir a prima Aninha Para comigo casar
Se for de gosto e vontade O negócio se congela A minha filha eu não dou Porque ela é muito novinha Eu sou uma velha doente Não posso ficar sozinha Eu sou uma velha doente Não posso ficar sozinha Eu também sou muito novo Estou na flor da idade Os meninos fazem os homens Os homens a felicidade Eu só quero o casamento Se for de gosto e vontade Menina, eu te pergunto Se tu quer casar comigo Menina, eu te pergunto Se tu quer casar comigo
Embora meus pais não queiram Eu houvera de fugir
Embora meus pais não queiram Eu houvera de fugir
Meu primo, pois eu te pergunto Tem casa para nós morar Meu primo, pois eu te pergunto Tem casa para nós morar Cala a boca, minha prima Está tudo arrumado Nós vai para nossa casa Para viver bem sossegado Pra onde tu vai Aninha? Com este cacho de flor Pra onde tu vai Aninha? Com este cacho de flor
Mamãe, eu vou tomar banho Que estou muito suada Não tinha ido há mais tempo Porque o primo estava aqui Se acorda, Manoel Antonio Que a nossa filha vai fugindo Eu estou muito doente
Não posso sentir agonia Eu já sou muito velha Não posso passar agonia Sai para lá, velha tonta! Velha alcoviteira
Com essa já é para doze Essa não é a primeira Minha gente tenham medo Que essa velha é alcoviteira
O rapaz, a moça, a alcoviteira e o marido (2000).
Dramistas nunca foram mulheres submetidas a uma rotina caseira e totalmente manipuladas pelo querer masculino. Iraci, da 1ª. geração, anos 1940, alerta:
Nós nunca dependemos muito de marido não! Eu pelo menos, graças a Deus, tinha minha arte. Costura, costurei muito e depois passei para escritório, fui funcionária pública, e até poucos dias eu gostava muito de costurar. Ficar sem fazer as coisas, não dá! Tem que estar sempre se movimentando.
Isso dialoga com minha concepção de que as dramistas foram umas meninas que se tornaram umas mulheres diferentes das regras apontadas para a mulher na região norte do Estado do Ceará, fizeram-se mais independentes, e isso para as dramistas filhas do povo e as dramistas filhas do dono da fazenda. Erotildes conta que, quando foi casar levou a rede da lua
de mel dela e a mala compradas com o dinheiro de drama... Para as dramistas filhas do povo esse dinheiro era importante.
Com esse dinheiro elas compravam o material para fazer drama, compravam batom, roupa, brinco, material para fazer caçoeiras de pesca, quer dizer, era uma forma de estar muito independente. Participar de dramas foi uma maneira de resistir a uma certa ordem que situava a mulher na condição de um ser que não tinha liberdade. Livres, conseguiam dinheiro, respeito e notoriedade em Guriú e nas comunidades vizinhas. Iraci, representante da geração dos anos 1940, informa que foram elas que deram o ponta pé! E revelou: “É,
fomos luz para elas, abrimos o caminho. Até sem saber! Não é verdade? De repente surge!”
Realizei encontros de memorialistas e abriram baús fechados por longos anos... E o desenrolar de seus relatos apontam caminho para a certeza de que em algum momento de seus percursos se fizeram aprendizes de outras mestras e, dentre muitas, algum tempo mais tarde, apostaram as horas no desejo de ser mestras das mais novas. As dramistas de Guriú aprenderam, me ensinam e nos ensinam a engolir gota por gota com entusiasmo os versos do Gonzaguinha. Fizeram da vida algo mais do que tristeza, melancolia, repetição monótona de movimentos cotidianos e domésticos. Nunca foram reféns de nenhuma dominação masculina que oferecia os peixes e os esperava fritos dia após dia. Elas apostaram na alegria de dramatizar, cantar, dançar a possibilidade de momentos felizes de dramas. Parece que seguiam o palpite feliz do que de bem pode se fazer com a vida:
Viver e não ter a vergonha de ser feliz Cantar a beleza de ser um eterno aprendiz Eu sei que a vida deveria ser bem melhor e será Mas isto não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita. (Gonzaguinha)
As lembranças de dramistas são sempre coletivas. Otília, nascida em 1925, recitou (1998) os dramas cantados de sua infância e de outras meninas, suas companheiras queridas de ensaio e apresentação. Citava o nome dos adultos engajados nestas preparações. Lembrava da sua madrinha, a Zeza, que era a esposa do dono das terras e que foi quem ensinou a novidade dos dramas cantados. Uma idéia trazida da Capital! As apresentações de dramas em Fortaleza inspiraram uma produção local, em Guriú. Relatava esta história repleta de muita saudade e colocando-se no papel de memorialista da História da sua e de outras infâncias em
um Guriú do passado. Histórias de resistências de muitas gerações de mulheres e que
escreveram juntas, ou seria mais justo dizer, encenaram como protagonistas juntas?
Lins prevê que
[...] quando a memória abre às suas portas e janelas, quando se deixa contaminar por outras memórias, outras recordações, outros lugares da memória – espaços grávidos de memórias, memória-esquecimento – ela faz ressurgir como por magia os odores e os sons, uma anedota, uma piada, um objeto, uma fotografia, a voz dos personagens familiares, a lembrança de seu corpo, de seus gestos, uma paisagem de um sítio da infância, um perfume, um odor quase carnal de um bolo, uma broa de milho ou[...] “les madaleines” de Proust! Fragrância e sons: um magma de evocação que acorda os fragmentos do passado escondido e cristaliza um imaginário, jardim secreto que se torna às vezes uma crença, um ideal, um totem mumificado que, ao contrário das aparências, uma vez provocado pelo pensamento da diferença, fere como as larvas de um vulcão “adormecido”. (2000, p. 9).
Esta suave possibilidade de existir cantando – que os dramas cantados possibilitaram a toda a população de Guriú, a quem cantava e a quem escutava, e a quem escutava que também aprendia a cantar – faz com que as lembranças do brincar drama destas ex-meninas dramistas sejam prioritariamente de uma ordem do lembrar ou do ter esquecido como se cantam as partes das comédias que se mantinham retidas na memória.
Recorrentemente, falar de drama é cantar as comédias de drama. Uma considerável parte das cerca de cinqüenta entrevistadas julgava que o meu principal objetivo de pesquisa era recolher as comédias de drama. Eu disfarçava os outros interesses e deixava que o mal-entendido as levasse de volta ao mundo maravilhoso da Era dos dramas de Guriú e o caminho percorrido e escolhido por elas era guiado pela música. Começavam a cantarolar, numa posição de medo de não lembrar e eram estes sons do passado que iam trazendo as demais lembranças.
Aprendi que a música era muito significativa para o drama. Posso dizer que é essencial. Há uma aflição em dominar bem as letras e saber cantar sem perder um pezinho em todos os encontros das gerações de dramistas realizados com a “velha guarda” (Wanda, Rita, Nilda, Ostildes), na reunião na casa de Maria Henrique e suas dramistas (Socorro e Fransquinha), no encontro com o grupo de Enilza, Conceição, Nilda e Fransquinha, na visita a casa de Maria César na companhia de Wanda e Nilda, na conversa coletiva com Madalena e Ivonete em Camocim, no encontro interfamiliar com Mundica e Valneida, na passagem pela casa de Filomena, que mora na Córrego do Urubu na companhia de Wanda e Nilda. E em encontro de Antonia Mundoca, Mocinha do Santo Barro e as mestras Nilda e Wanda.
O entendimento geral era ofertar, relembrar, dizer em partes o que ainda resta de um acervo diversificado que elas ainda mantêm na memória, dizer cantando; pois ser dramista é ser essencialmente cantora. Já no anúncio da chegada ao público, cantar é alegrar-se e levar alegria ao público. Este jeito inventado em Guriú de resistir é um grito que ecoa cantado:
Boa noite senhores Boa noite senhoras Gentil carmelita Vem chegando agora Subi neste palco Só para avisar Que o nosso drama Já vai começar Subi neste palco Só para avisar Que o nosso drama Já vai começar
Que noite tão linda Para nós brincar Alegre, cantando Noite de luar Desculpe, senhores Vou me retirar Que o nosso drama Já vai começar Desculpe, senhores Vou me retirar Que o nosso drama Já vai começar