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Intervjuguiden, intervjuforløp og analyse

1 Innledning

4.4 Intervjuguiden, intervjuforløp og analyse

O quarto capítulo versa sobre a tecidura de histórias diversas em pelo menos 60 anos de grupos de dramistas que conseguiam o apoio de uma ex-dramista e com essa dupla obstinação, criavam aliança produtiva que transformava meninas em dramistas, amplamente reconhecidas pelo público de Guriú e das demais localidades que as recebiam. Assim a brincadeira, pois é assim que se denomina o drama em Guriú, podia continuar.

Ninguém estabelecia a priori um compromisso com o passado que as obrigava a serem dramistas pelo fato de suas avós haverem sido. Faziam-se dramistas, em contato com mulheres (ex-dramistas) que nunca se entregaram a nenhum tipo de dominação, até porque haviam sido dramistas. Aprenderam a liberdade no caminhar. Eram portos abertos para descobertas das melhores formas de se fazer dramista. E viajavam. Entregaram a um certo jeito nômade de agir, sentir, pensar e produzir:

O pensamento nômade emerge quando, ao engendrar uma “terceira pessoa”, dá- se à luz, também, o pensar-devir, o pensar-sentir, uma verdade indeterminada, mergulhada num movimento contínuo, sem parada nem fixação; são verdades nômades habitadas por intensidades não preexistentes, imperceptíveis, como uma máquina de guerra, corpo sem órgãos com estratificação e intensificação molecular, intensidades por vir. (LINS, 2004, p. 40).

Antenadas com as novidades que apareciam, da vitrola à televisão, do circo às invenções feitas pelo próprio grupo, nunca foram copiadoras. Quando faziam pactos com o passado, e resolviam ouvir às ex-dramistas, faziam não pelo respeito ao lugar imitativo de uma ordem que exigia sempre copiar: improvisavam pactos com aliadas que haviam ultrapassado gestos repetitivos e tinham ousado em algum aspecto do todo, que é necessário para que alguém seja lembrada como uma dramista inesquecível.

4.1 Carmen Miranda ensinou como se faz uma baiana?

Vejamos, Iraci lembra da inesquecível vitrola da década de 40:

Ele dizia logo: “Eu não gosto de moça triste, eu gosto de gente é animada, não gosto de gente triste!” O som era vitrola, essa vitrola. Ouvia, quase toda noite a gente botava na sala, e a gente ia dançar, e tinha a aquela “Somos carecas com as mulheres somos os maiorais, tá na hora do aperto é dos carecas que elas gostam mais”...

Essa lembrança de Iraci traz à tona o ano de 1942, quando essa memorialista tinha em torno de quinze anos, pois a vitrola ditava moda para os dramas que não são bem de Guriú. O ano de 1942 é o provável auge da ação dessas meninas dramistas em palcos montáveis e tão transitórios quando do adolescer. Essa música é de 1942... Ano da estréia no cinema do desenho animado Bambi, de Walt Disney e do clássico “Casablanca”, da criação do personagem brasileiro Zé Carioca por Walt Disney.

Eram os tempos da tão necessária “política de Boa Vizinhança” com os Estados Unidos:

Os próprios Estados Unidos, postos diante da necessidade de romper com o isolacionismo que os mantinha alheios aos seus aliados, iniciavam uma campanha de aproximação orientada que, no campo da música popular, ia explicar em parte o extraordinário sucesso de Carmen Miranda, cantando inicialmente em português com o acompanhamento dos brasileiros do Bando da Lua, graças à dedicada cobertura do Departamento de Estado (na mesma época em que Walt Disney vinha no Brasil criar a figura do Zé Carioca). (TINHORÃO, 1997, p. 56).

1942 foi também o ano do bombardeio dos navios brasileiros Cabedelo, Buarque e Olinda pelo alemães em plena Segunda Guerra. No lugar do real (que vinha se mantendo desde 1500 e que se pronunciava réis no plural), é instituída nova moeda no Brasil, o cruzeiro; ano em que o brasileiro começa a beber Coca-Cola fabricada aqui mesmo. E aqui no Ceará nossos jangadeiros ficam famosos e Jacaré morre participando no filme de Orson Welles It’s all true. É o ano em que se torna obrigatório o cine-jornal, acompanhando qualquer programação cinematográfica.

E enquanto cantavam maravilhosamente bem as dramistas de Guriú, só em 1942 é formado o primeiro coral infantil do Brasil: Os Canarinhos de Petrópolis. O repertório principal era de música sacra. E, enquanto isso, em Guriú, dançando e acompanhando a vitrola que tocava:

Nós, os carecas,

Marchinha de Arlindo Marques Júnior e Roberto Roberti, gravada na Columbia pelos Anjos do Inferno:

Nós, nós os carecas Com as mulheres Somos "maiorais" Pois na hora do aperto

Que elas gostam mais (Nós, nós, nós)

Não precisa ter vergonha Pode tirar o seu chapéu

Pra que cabelo? Pra que Seu Queirós? Se agora a coisa está pra nós!

(Nós, nós, nós)

Ouviam músicas de discos comprados pelo pai para não deixar nenhuma moça triste na casa dos Marques em Guriú:

Compravam, compravam tudo minha filha!, compravam tudo, tanto que quando saímos, aí se dizia: “Iche, agora o Guriú ficou triste, porque foram embora as meninas!”. Mas a gente procurava era animar, levar a frente o Guriú, e tem gente que diz: “Eu não sei como vocês tem coragem de olhar para lá!”, tem porque a gente sabe que já passou, não é, mas dentro do coração da gente a memória está. A gente não vai chorar e nem coisa nenhuma, mas foi um tempo muito bom aquele que nós passamos por lá, um tempo muito bom, papai era muito bom com a gente, compreensivo, a mamãe era muito mansa, muito humilde e nós saímos de lá e cada qual na sua casa, mas orgulho nunca houve na nossa família.”

E esta vitrola e os discos destes primórdios da década de 1940 foram trazendo idéias para apresentações das dramistas de Zeza, pois Cléa se lembra de que apresentou certa vez uma encenação adaptada de uma música famosa à época: