A introdução do conceito de defesa na teorização freudiana foi tão estruturante
em term os m etapsicológicos a ponto de alguns com entadores afirm arem que se encontra aí o início da teoria psicanalítica ( MEZAN, 2001, p.27-28) . Foi res- ponsável por um arranjo m ais coerente e satisfatório das prim eiras observações freudianas sobre a histeria, levando a um a superação das concepções de estran- gulam ento dos afetos e de estados hipnóides através da descrição dos diferentes m ecanism os defensivos em jogo nas neuroses. Constata-se, nos anos 1990, um a série de textos que procuram elucidar a etiologia e os m ecanism os nas diferen- tes neuroses, delineando o prim eiro quadro nosográfico freudiano.
De form a sintética, este quadro diferencia duas categorias nosográficas prin- cipais: 1) neuropsicoses de defesa — psicose, paranóia, neurose obsessiva, fobia, his- teria — cuja etiologia se deve aos diferentes m ecanism os defensivos que procu- ram m anter a representação ideativa indesejável afastada da consciência; 2)
neuroses atuais — neurastenia e neurose de angústia — cuja etiologia se dá não por fatores de ordem psíquica, m as por alterações no nível de descarga da excitação sexual som ática.2 No prim eiro grupo, a causa geral se deve à incom - patibilidade na vida psíquica, ou seja, um a representação ideativa ou afetos aflitivos ao ego que não podem ser sanados pela atividade de pensam ento. En- traria em cena a defesa, que consiste no esforço voluntário do ego em dim inuir
2 A definição, por Freud, dos m ecanism os das neuropsicoses se encontra principalm ente no
prim eiro artigo sobre o assunto ( 1894c) , com exceção da paranóia e da m elancolia, que são tratados apenas nos rascunhos ( 1895a, 1895b) . Há tam bém um a consideração m ais detida na diferenciação entre as obsessões e fobias, as quais com partilham do m esm o m ecanism o de
transposição ou deslocam ento ( 1894d) . Jáas neuroses atuais são definidas em outros dois artigos
( 1894e, 1895c). Freud tinha o projeto, nunca concretizado, de escrever um livro sintetizando
a força da representação de form a que esta não dem ande exigência do traba- lho de associação, o que é obtido “ privando-a do afeto — a som a de excitação do qual ela está carregada” ( FREUD, 1894c, p.56, grifo nosso) . O resultado dessa operação im plica na liberação da som a de excitação ligada originalm ente à representação ideativa e é o destino dessa som a de excitação que caracteriza- rá os diferen tes m ecan ism os defen sivos e, por con seqü ên cia, as diferen tes n eu ropsicoses. Sin teticam en te, tem -se: 1 ) conversão – descarga da excitação para o som ático ao lon go da in ervação m otora ou sen sorial relacion ada à experiência traum ática, tendo com o conseqüência a form ação de um sím bolo m nêm ico e de um grupo psíquico isolado na consciência; 2) transposição, deslo- cam ento ou falsaconexão – excitação perm anece na esfera psíquica, ligando-se a outras idéias associáveis, criando um substituto da idéia e, secundariam ente, rituais obsessivos; 3) rejeição – a representação e a excitação são excluídas da esfera psíquica, com o se jam ais houvesse ocorrido, levando consigo um frag-
m ento da realidade; 4) projeção – m anutenção da excitação com transposição
para um objeto externo. Esses m ecanism os estariam relacionados, respectiva- m ente, aos quadros de: 1) histeria de defesa, 2 ) obsessões e fobias, 3) psicose alucinatória
e 4 ) paranóia.
Percebe-se, nesse quadro, o delinear dos principais m ecanism os de defesa, assim com o os principais quadros psicopatológicos que serão pouco a pouco elaborados ao longo da teorização freudiana. Do ponto de vista m etapsicológico, essa organização do conceito de defesa se baseia em um a hipótese sobre o funcionam ento m ental, que é a de um a concepção representacional do psiquism o cuja dinâm ica rem ete a um a noção de investim ento energético. Trata-se da teo- ria dos representantes psíquicos e pode-se afirm ar que ela atua com o um fun- dam ento axiológico para a m etapsicologia freudiana. Nada m ais esclarecedor a esse respeito do que os parágrafos finais do texto:
“ Gostaria finalm ente de dem orar-m e por um m om ento na hipótese de trabalho que utilizei nessa exposição nas neuroses de defesa. Refiro-m e ao conceito de que nas funções m entais deve ser distinguida algum a coisa — um a quota de afeto ou soma de excitação — que apresenta todas as características de um a quantidade ( em bora não disponham os de m eios para m edi-la) , capaz de crescim ento, dim inuição, desloca- m ento e descarga, e que se espalha sobre os traços de memória das idéias, tal com o um a carga elétrica se expande na superfície de um corpo.Tal hipótese, que aliás já subjaz a nossa teoria da ‘ab-reação’ em nossa ‘Com unicação Prelim inar’, pode ser aplicada no m esm o sentido que os físicos aplicam a hipótese de um fluxo de energia elétrica. Ela é provisoriam ente justificada por sua utilidade na coordenação e explicação de um a grande variedade de estados psíquicos.” ( FREUD, 1894c, p.66, grifos nossos)
Eis o reconhecim ento por parte de Freud da im portância da hipótese dos representantes psíquicos operando desde os seus prim eiros trabalhos. De fato, trata-se de um a hipótese bastante profícua, que norteará a investigação freudiana por vários anos, não sendo nunca totalm ente abandonada: representação e afeto estão no centro da tram a conceitual freudiana. A passagem citada constitui a sua prim eira explicitação.
Pode-se, ainda, voltar m ais um pouco no tem po e encontrar a prim eira problem atização dessa suposição na m onografia sobre as afasias, na qual está em jogo justam ente a elaboração da concepção dos representantes psíquicos com o paralela ao processo fisiológico ( FREUD,1891) . Esse paralelism o não será resolvido com a elaboração do m odelo da defesa, m as encontrará um notável desenvolvim ento. Em prim eiro lugar, percebe-se que Freud passa a adm itir um fator dinâm ico na esfera psíquica, algo que estava com pletam ente ausente no estudo sobre as afasias. Trata-se da noção de um a excitação psíquica que investe os traços m nêm icos na form ação das representações ideativas. O fluxo desse fator quantitativo é o responsável pela dinâm ica psíquica, sendo o que está na base dos m ecanism os de defesa. A dinâm ica da excitação, por sua vez, é função de um esforço voluntário do ego para evitar o sofrim ento, o que revela a hipó- tese subjacente de que o aum ento da excitação é incom patível com a saúde do ego, ou seja, de que o psiquism o seja orientado por um princípio de regulação energética. Encontram -se im plícitas tanto a noção de um princípio de prazer com o a de um princípio de constância. Há tam bém a ultrapassagem da aborda- gem neuropsicológica, com a revelação da im portância dos fatores sexuais nas neuroses e a concepção da form ação de um grupo psíquico isolado, levando ao abandono de um a psicologia estrita da consciência. Em sum a, Freud está em um nível diferenciado de teorização em relação ao estudo das afasias, quer seja na abordagem da patologia, quer seja na introdução de um fator dinâm ico no seu quadro de referência. As prim eiras contribuições agora se encontram em um novo patam ar. Não cabe aqui articular todos os pontos dessa passagem . O que interessa particularm ente para essa discussão é a noção da introdução do fator energético psíquico e com o ele se relaciona com a excitação som ática.
A passagem citada antes revela e sintetiza algo que está presente na conside- ração psicopatológica de Freud nesse período, a saber, a am bigüidade entre conceber o afeto com o representação psíquica e com o sinônim o de excitação som ática; com o quota de afeto e com o soma de excitação.3
Freud é enfático ao diferenciar o afeto enquanto um tipo de em oção — um fenôm eno qualitativo situado na esfera do psíquico — da excitação enquanto um term o referente à energia que investe o psiquism o — um fenôm eno quan-
titativo situado na esfera do som ático. Essa concepção é defendida ao longo de toda sua obra ( FREUD, 1893, 1895d, 1900, 1915, 1916) . Contudo, é possível encontrar utilizações m enos rígidas dessas duas definições, as quais apagam justam ente a oposição fundam ental entre a qualidade e a quantidade ou entre
o psíquico e o som ático ( LAPLANCHE & PONTALIS, 1998,p.421) . A explica-
ção de Strachey ( FREUD, 1894c, p.81-72) para essa aparente am bigüidade está na própria concepção freudiana sobre a natureza dos afetos. Com o se sabe, Freu d irá defin ir posteriorm en te o afeto a partir de du as orden s de m anifestação: 1) processos de descarga m otora; 2) processos sensitivos tanto da ordem da percepção dessas descargas quanto da ordem de sensações de
prazer e desprazer ( FREUD, 1915, p.204-205 e 1916, p.396) . Ou seja, o afeto
não seria estritam ente psíquico, m as envolveria tam bém um a descarga para o som ático. Seria, portanto, m ais claram ente relacionado a um a expressão do fator quantitativo da excitação som ática. Nesse sentido, a quota de afeto seria um a m anifestação particular do fator m ais geral da som a de excitação. Com o Freud estaria m ais interessado nessas m anifestações particulares que ocorriam nos quadros neuróticos, descrevia a quantidade deslocável de excitação com o um a quota de afeto, em vez de diferenciar m elhor os níveis do problem a. Esse hábito persiste m esm o nos artigos de m etapsicologia, contribuindo para tornar o conceito freudiano m enos claro.
A interpretação de Strachey é coerente, m as é preciso avançar nesse argu- m ento de form a a explicitar a natureza do afeto enquanto fenôm eno ao m esm o tem po som ático e psíquico. Ver-se-á que é justam ente nesse período de defini- ção dos quadros nosográficos e de introdução de um fator dinâm ico na teoria que a problem ática se m ostrará m ais evidente, em particular na definição dos m ecanism os em jogo na neurose de angústia, na fobia e na m elancolia.