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4. Calculation of nutritional requirements

4.1 Nutritional requirements of growing horses

A reportagem de Marie Claire de abril de 2005 (pp. 86 a 92) traz entrevistas com seis diretoras internacionais da revista Marie Claire em seis países: China, Estados Unidos, Rússia, Espanha, África do Sul e Austrália. O objetivo é saber, com cada diretora, o que querem as mulheres de cada país. Cada entrevista ocupa um pouco menos de uma página da revista (completadas com imagens), totalizando seis páginas, mais um texto sobre o amor em vários países, intitulado “Amor em cheque”.

O texto foi escolhido para análise por trazer nitidamente os modelos de ideal de mulher, e baseados na opinião de profissionais da publicação – é, praticamente, a opinião da revista, em vários países, sobre o que é importante para uma mulher de 30 anos hoje.

O texto de abertura da matéria explica sua proposta:

No mês em que Marie Claire completa 14 anos de Brasil, montamos um painel especial sobre as lutas, os sonhos e os valores femininos ao redor do mundo. Seis diretoras internacionais da revista – China, Estados Unidos, Rússia, Espanha, África do Sul e Austrália – revelam o que pensam as mulheres de 30 anos: elas não abrem mão de um grande amor, mas nem sonham em perder a liberdade. Pouco importa a geografia: elas querem, como nós, tudo o que é de bom

O texto de abertura já resume (e responde) a questão colocada pelo título: “O que querem as mulheres?”. Para a repórter, é não abrir mão de um grande amor e não perder a liberdade. O texto generaliza a mulher de 30, e inutiliza as

entrevistas a seguir: se a idéia é fazer um retrato diversificado das aspirações das mulheres, o texto de abertura os une ao dizer que “pouco importa a geografia”. Poucas vezes o discurso de Marie Claire instaura a primeira pessoa no texto. Esta reportagem é um dos raros exemplos, pois normalmente utiliza-se a terceira pessoa como quem fala de fora, uma regra do discurso jornalístico para garantir a objetividade e neutralidade. Neste caso, não há neutralidade: apela-se para o emocional, a repórter se junta às mulheres de todo o mundo para dizer que isso também é o que ela quer – “elas querem, como nós, tudo o que é de bom”. Nesta frase, podem-se analisar alguns aspectos, começando pelo uso dos pronomes “elas” e “nós”. Dizer apenas “elas” deixaria essas mulheres em um espaço longínquo – elas já estão espacialmente longe, pois pertencem a outros países. Para garantir a identificação e um pertencimento de grupo – é preciso ter suas aspirações, é preciso ser aquele modelo de mulher moderna (o outro com quem se quer identificação) – utiliza-se, então, o pronome “nós”, como um pronome global, que insere a todos em uma mesma aspiração: ter tudo o que é de bom. Mas, afinal, o que é “tudo o que é de bom”? Quais são esses valores calcados no Bem e euforizados, de que a revista diz que é tudo “o que queremos”? O bem, aqui, é ter um grande amor aliado com a liberdade. É essa a imagem figurativizada da mulher – esteja ela em qualquer país, desde que tenha 30 anos.

A primeira pessoa também se instaura na frase: “montamos um painel sobre as lutas, os sonhos e os valores femininos”. Aqui, o ethos discursivo não é um “ethos distante de quem avalia e expõe serenamente”, ao contrário, é um ethos que se mostra, negando as regras do discurso jornalístico, mas com uma intencionalidade que não rompe com a pretensão de marcar o efeito de verdade. O ethos se coloca para fazer com que a leitora se sinta no mesmo nível que as mulheres da revista – como uma amiga. Mas, neste caso, não se segue uma cenografia de aconselhamento, caso das reportagens em que se possa instaurar um eu-tu (faça isso, não deixe aquilo).

A idéia, aqui, é fazer com que a leitora se sinta “uma igual a nós, igual a todas”, mas sem deixar de assumir a figura do “fiador”, de quem sabe do que está falando – de quem tem a competência para fazê-lo. Essa confiança marca o

caráter imaginário do simulacro fiducitário – que, aqui, é garantido pelo ethos pré-discursivo do discurso jornalístico, que supõe a exposição de fatos e do retrato da verdade. Há uma mistura de objetividade com cumplicidade, para, assim, chegar ao efeito de verdade. Lembrando que, para o efeito de verdade, o importante é parecer verdadeiro – o simulacro de um dizer verdadeiro renova o pacto de confiança entre enunciador e enunciatário, para que se legitimem o próprio dizer e o dito.

E a revista se coloca no papel da competência para unir diversas vozes sobre a mulher no mundo e fazer um painel sobre suas “lutas, sonhos e valores femininos”.

E o que são essas lutas, sonhos e valores? As seis diretoras responderam a cinco questões propostas por Marie Claire que, de acordo com o texto, seriam o retrado de suas lutas, sonhos e valores.

- O que significa ter uma vida bem-sucedida hoje para uma mulher na faixa dos 30 anos?

- O que essa mulher procura em um homem? - A (nacionalidade) segue algum padrão feminino? - Que obstáculos as mulheres enfrentam para encontrar a felicidade?

- Qual a principal reinvidicação das

(nacionalidade)?

As questões procuram por uma mulher cuja figurativização é baseada em alguns valores cristalizados: ser bem-sucedida, ter um homem ideal (um príncipe encantado?), seguir (ou estar dentro) de certos padrões, encontrar a felicidade. É a partir dessas questões que se descobrem as lutas, sonhos e valores das mulheres – ou seja, as cinco perguntas se propõem a analisar a situação da mulher no mundo, mas a cerca de estereótipos e já a categoriza em determinados valores importantes para a mulher ideal de Marie Claire.

O relacionamento amoroso é tão importante que, das seis entrevistas, cinco são ilustradas com imagens de casais – sendo que quatro delas são cenas

de casamento. É importante citar, no entanto, que as respostas às questões da entrevista nem sempre dão mais atenção ao relacionamento, e as imagens são mais resultado de uma edição da reportagem (escolhas midiáticas?)73 do que

uma representação daquilo que o texto mostrou. Um exemplo é o texto sobre as australianas, onde aparecem questões sobre a menor remuneração em relação aos homens e a inexistência de uma licença-maternidade remunerada. A imagem que ilustra a entrevista, no entanto, traz um casal no mar, o homem carregando a mulher, com a legenda: “a australiana quer um homem que entenda suas aspirações”.

A entrevista sobre as mulheres espanholas é calcada em modelos de ideais – seja de homens ou de mulheres. A palavra “ideal”, inclusive, aparece duas vezes nas respostas da diretora.

Marie Claire O que significa ter uma vida bem-

sucedida para uma mulher na faixa dos 30 anos?

Joana Bonet Conciliar o trabalho, o companheiro e a

família. Ou seja, encontrar o equilíbrio ideal.

MC O que essa mulher procura em um homem? JB Ela quer tudo. O homem ideal tem imaginação, humor. Ele é moderno, sabe exprimir suas emoções e, ao mesmo tempo, é viril.(grifos da autora)

Aqui, mais do que em todas as entrevistas, fica clara a figurativização de ideais de mulher e de relacionamentos em cima de valores cristalizados sobre o que é o Bem, o Ideal, o modelo a ser seguido. Nas duas imagens que ilustram a matéria, é o casal que está representado. Em uma aparece o casal real, com a legenda: “Letizia Ortiz, a jornalista que casou com o príncipe, é uma forte referência”. Não há nada mais figurativo dos ideais de perfeição do que o príncipe encantado (o homem ideal de quem fala a diretora espanhola?) – e a grande referência das espanholas, segundo a Marie Claire, é uma mulher que casou com o príncipe.

73 “Comunicar, informar, tudo é escolha. Não somente escolha de conteúdos a transmitir, não

somente escolha das formas adequadas para estar de acordo com as normas do bem falar e ter clareza, mas escolha de efeitos de sentido para influenciar o outro” (CHARAUDEAU, 2006: 39).