5. Results
5.2 Nutritional requirement coverage by roughage from different years of production
A matéria de uma página de Malu de 3 de novembro de 2005 (p. 27) traz dicas para quem quer casar: o que fazer e o que não fazer para encontrar um futuro marido. Com uma cenografia professoral, adota o didatismo ao trazer prescrições de atitudes que devem ser evitadas ou seguidas.
Cuidado: a ansiedade de encontrar sua alma gêmea pode deixar você sozinha
A matéria coloca, então, o leitor (co-enunciador) em certa posição, em uma identidade na cena de fala: aquele que não tem o saber-fazer, mas que pode
(e deve) aprendê-lo com os ensinamentos da revista. Discursos que recorrem a determinadas cenografias são os que “visam a agir sobre o destinatário, a modificar suas convicções” (CHARAUDEAU & MANGUENEAU, 2004: 97). A identidade dos parceiros da enunciação – mulheres que buscam um marido mas não encontram e mulheres que sabem como fazer para encontrá-lo – vai de par com o espaço/lugar da cena: um mundo em que “cada panela tem sua tampa”, um mundo que acredita na existência de “almas gêmeas”. O momento da enunciação supõe que se está em uma época em que casamento é obrigatório e todas as mulheres precisam ter isso como meta. A partir desses três fatores, o discurso pretende uma ação determinada sobre outrem.
O espaço criado pela cenografia (um mundo em que “cada panela tem sua tampa”, em que existem “almas gêmeas”) irá apoiar o ethos para a persuasão do leitor, ao lhe garantir a imagem de si no discurso como a de um fiador. “A imagem discursiva de si é (...) ancorada em estereótipos, um arsenal de representações coletivas que determinam, parcialmente, a apresentação de si e sua eficácia em uma determinada cultura” (CHARAUDEAU & MANGUENEAU, 2004: 221). Assim, esse ethos que tudo sabe se ancora na falta de saber do co-enunciador e instiga (ou exige) sua necessidade de saber. A corporalidade e o caráter do enunciador se apóiam em um conjunto de representações sociais valorizadas ou desvalorizadas – estereótipos nos quais a enunciação se estrutura e, por sua vez, contribui para reforçar. A casamenteira é um desses estereótipos marcados, a mulher louca para casar. Outro estereótipo é o da mulher desesperada que fica com todos, e a que fisga o homem pela culinária (a mulher dona de casa?).
A presença de uma especialista, a escritora Rosana Braga, apresentada como escritora dos livros “Alma gêmea”, “Segredos de um encontro” e “Amor: sem regras para viver” aparece no discurso para legitimá-lo, criando um efeito de sentido de realidade por meio da debreagem interna (a inclusão de uma enunciação em outra), como se tomasse a voz no texto de forma natural.
O desespero para arranjar marido é tanto que Mirna, quando sai de casa, já vai paquerando vários
ao mesmo tempo, na esperança de que pelo menos um se interesse por ela. “Não se pode fazer isso de olhar para todos os lados. A mulher não tem que ficar ligada a todos os homens, tem que se ligar nela mesma. Tem muita mulher que quer compromisso sério, mas fica com todo mundo porque quer tentar todos para ver se um dá certo. Ela pode até querer compromisso, mas, desse jeito, ninguém vai acreditar”, avisa a escritora.
A presença da escritora no discurso serve para legitimar os fatos, por suas atribuições e especialidades (é escritora e estuda o assunto). No entanto, acaba também reforçando os estereótipos ao generalizar um certo tipo de mulher e uma certa forma ideal de se comportar, sem colocar em questão as individualidades e as diversidades de sujeitos e de situações, mas estabelecendo uma norma, uma regra a ser seguida – quem sair desse caminho será punido pois nunca encontrará sua alma gêmea e será deslocado do mundo.
A figuratividade é bem trabalhada no texto, e reforçada pela imagem de Mirna, uma personagem da novela Alma gêmea (2005-2006), da Rede Globo, que busca um marido – e que aparece na única foto da reportagem, acompanhada de seu par romântico na novela. É Mirna a principal personagem também da matéria, e suas atitudes na telenovela servem de exemplo do que se deve ou não fazer – é a partir de suas atitudes na ficção que se desenvolvem os conselhos da matéria para a vida real. Essa figurativização se apóia em alguns valores euforizados, como a necessidade de se encontrar uma alma gêmea, e a tampa da panela – é baseado, por isso, na existência desses dois conceitos já consagrados e que são vistos como naturais, ao invés de socialmente construídos. Esses valores tornam-se inquestionáveis e fazem com que a figurativização pareça ser verdade. O texto se apóia, também, nos valores do Bem: ter alto-astral, demonstrar suas qualidades, mostrar o que tem melhor dentro de si, desencalhar, arranjar marido; e do Mal: desespero, paquerar vários pretendentes, ficar sozinha.
A especialista é a “julgadora” dos atos das mulheres. Por ter a competência do saber-fazer, ela julga suas atitudes tendo como referência as normas sociais – normas, aliás, dentro de uma visão androcêntrica, com
comportamentos ditados pelos homens; são eles afinal que devem ser conquistados, são suas necessidades e vontades que devem ser seguidas para que a mulher não acabe “encalhada”. Mirna é o exemplo da mulher que não tem a competência do saber-fazer, apesar de querer-fazer.
A Mirna (Fernanda Souza), de Alma gêmea, bem que tenta arranjar marido, mas não consegue. Ela prepara quitutes maravilhosos, faz simpatias, paquera os amigos do irmão, mas acaba sempre sozinha. O desespero da simpática caipirinha para desencalhar não deve servir de exemplo para mulher nenhuma, pois os homens percebem e dão o fora.
O trecho mostra que, apesar de querer-fazer e crer poder-fazer, a personagem não tem a competência do saber-fazer. E faz parecer verdade que nenhuma mulher “encalhada” sabe-fazer, e que todas devem crer dever-fazer (aqui como necessidade, não como prescrição). A competência do saber-fazer é dada pela especialista, que trabalha para a transformação das mulheres (transformação que é a passagem de um estado inicial para um final, trabalhando com a manipulação – um personagem induz outro a fazer algo – e a competência, onde o sujeito do fazer possui um poder ou um saber). Os ensinamentos têm como principal fundamento não fazer com que os homens “caiam fora” – pois eles têm a competência de saber identificar quando as “encalhadas” estão “desesperadas”. Aqui, outro estereótipo: os homens solteiros não querem se casar e estão sempre fugindo das mulheres solteiras que sempre querem o casamento.
O ethos que fala de cima, pois tem a competência do saber-fazer, joga com a cumplicidade com o co-enunciador, ao tratá-lo diretamente como tu (você) e ao usar palavras do jargão popular, como o encalhada, que não apareceriam em textos jornalísticos/informativos tradicionais. É, na verdade, um simulacro de cumplicidade. Cabe ainda, aqui, uma observação sobre o termo “encalhada”. A palavra, de acordo com o Houaiss, vem do verbo encalhar, que possui como um dos significados “ter interrompido seu deslocamento (sobre água) pela presença de algum obstáculo; não ter
continuidade, ficar preso”. O Houaiss também indica o uso da expressão aos solteiros, caso utilizado na reportagem. Interessante notar os valores que apóiam o discurso: quem não casa fica parado, não tem continuidade na vida.