Entendida como uma atividade dialógica e de troca humana, a tradução permite a comunicação entre diferentes culturas e sistemas, aproximando tempos, diminuindo distâncias e abrindo espaço para a compreensão do outro, ou seja, da diversidade. Por isso, ela não é apenas um produto, finalizado, por exemplo, em uma impressão, mas também, um processo que envolve negociações de caráter histórico, social, político e econômico. Nesse sentido, a reescritura de uma obra literária no cinema, que é um tipo de tradução, reflete essas mesmas questões e não pode, portanto, ser percebida como secundária e/ou culturalmente inferior. Assim, a adaptação cinematográfica, inserida em um contexto cultural específico, constitui um diálogo entre mídias, mantendo relações, tanto com o texto-fonte, quanto com o sistema receptor, suscitando um produto novo e necessariamente diferente.
No decorrer deste trabalho, discutimos questões referentes ao fenômeno da tradução de obras literárias para as grandes telas, procurando entender as motivações, as estratégias e as mudanças que regem o processo de reescritura do romance The Color Purple. Constatamos, dessa maneira, que a adaptação cinematográfica está muito mais ligada ao seu contexto/sistema de produção do que ao próprio texto de partida. Especificamente, no que se refere ao objeto desse estudo, isto é, a tradução do “womanismo” a partir das principais personagens femininas, observamos que o filme prioriza os valores da década de oitenta, bem como a poética do diretor, Steven Spielberg. Acreditamos, ainda, que os tradutores
desconhecem a ideia “womanista” – já que não está explícita no romance –, o que explica, em
parte, a suavização de alguns aspectos constituintes desse movimento. Por isso, as personagens cinematográficas, diferentemente das literárias, não conseguem demonstrar a completude e a importância do “womanismo” na cura das doenças sociais que atingem a humanidade.
A análise do corpus, como exposto anteriormente, não visava assinalar questões
de fidelidade a uma suposta “essência” do texto literário. Pelo contrário, uma vez que
recorremos às recentes teorias de tradução, interessava-nos compreender o processo tradutório para, então, observar estratégias e explicar eventuais alterações. Nesse sentido, os Estudos Descritivos de Toury (2012) nos permitiu analisar o filme como um produto independente, a partir do qual se busca reconstituir o processo, verificando regularidades de comportamentos e descrevendo estratégias. Dialogando, também, com a teoria dos polissistemas, de Even-Zohar (1990), e com o conceito de reescritura, de Lefevere (2007), versamos sobre uma questão, ainda, negligenciada na abordagem linguística: o contexto sociocultural. Salientamos, pois, a
influência do sistema receptor, sobretudo de seus componentes ideológicos, tanto na escolha do produto, quanto no decurso de sua transmutação. Assim, compreendendo o filme pelo o que realmente ele é, ou seja, uma adaptação, e não uma cópia do texto literário, utilizamos os estudos de Cattrysse (1992), Stam (2008; 2011) e Hutcheon (2013) para desconstruir a ideia de equivalência, reconhecendo que, como toda tradução, a reescritura fílmica sofre “perdas” e
“ganhos”, sem, por isso, ser considerada inferior.
Ao compreender que a sensação de uma adaptação infiel está ligada à disparidade
entre imagem construída no filme e imagem construída nos “palcos privados da mente” de um
leitor, apontamos a insuficiência da ideia de essência do texto literário. Pois, se um romance produz uma infinidade de interpretações, podemos dizer que ele também gera inúmeras traduções, recordando, ainda, que o tradutor (cineasta, roteirista) é, além disto, um leitor. Nessa perspectiva, a criação das personagens ficcionais, de The Color Purple, livro e filme, perpassa, tanto a fortuna crítica de seus autores, Walker e Spielberg, quanto o contexto sociocultural no qual eles estão inseridos. Embora as obras não estejam tão distanciadas no tempo e no espaço, considerando que a adaptação foi lançada três anos depois do romance, destacamos o poder ideológico, da conservadora década de oitenta, em estipular parâmetros de re(criação), moldando os produtos da mídia.
A força da ideologia, entretanto, não isenta o diretor de escolhas, acréscimos e omissões, durante o processo de transmutação, pois a poética do tradutor também delineia a construção da reescritura. Como observamos, ao longo desta pesquisa, a personagem Nettie está fortemente vinculada aos aspectos poetológicos da produção spielberguiana, de modo específico, a uma constante em seus filmes, que preconiza valores familiares. Assim, ao reescrevê-la, por meio dessa “ética”, o cineasta enfatiza suas características “womanistas”, tais como o cuidado materno, a preocupação com o bem-estar da humanidade e a resistência ao patriarcado, ainda que involuntariamente. Insistimos, portanto, que a ênfase destes aspectos diz respeito à escolha de Spielberg em “delimitar” a história de The Color Purple às irmãs. Pois, sendo elas a única família uma da outra, tal restrição se adequava à especificidade de seu trabalho, permitindo, também, a supressão de questões que atacavam a ideologia do período.
Ao observamos que a reescritura priorizava a difícil história de Celie e Nettie, de sua cruel separação e de seu saudoso reencontro, verificamos as estratégias de suavização das relações entre a protagonista e as demais personagens femininas, Sofia e Shug. Percebemos,
assim, que suavizar ou omitir ideias e características “womanistas” correspondia, muito mais,
à legitimação dos ideais tradicionalistas do período Reagan do que à poética e/ou à postura dos tradutores. Por isso, a ousadia de Sofia é contida e penalizada. Considerando que a década
de oitenta buscou frear os ganhos da luta feminista da década anterior, a imagem de uma mulher negra irreverente, que construía fortes laços de amizade com outras mulheres, ensinando-as a reagir, não era nada bem-vinda. Ainda que, tanto o romance, quanto o filme mostrassem o sofrimento de Sofia diante do poder esmagador do racismo, constatamos, na análise, que a adaptação não a devolve sua força e destemor. Ela é, portanto, domada.
A respeito da personagem Shug, nossa investigação ressaltou a suavização de características relacionadas à independência feminina, à postura espiritual e à sexualidade. Assim, enquanto no enredo literário, Shug declara seu amor por Celie, ensinando-a a conhecer seu próprio corpo e a se libertar dos traumas causados pelos estupros, na trama fílmica, ela assume o papel de uma amiga, que cuida, instrui e apoia, disfarçando, desse modo, o fato de sua bissexualidade e, por consequência, da homossexualidade da protagonista. Afinal, mostrar mulheres negras homossexuais, independentes e felizes representava um risco para uma série de projetos reaganistas, tais como o reestabelecimento do modelo tradicional de família e a
restituição da subserviência “voluntária” feminina. Além disso, o espírito livre de Shug, que
sai de casa para construir carreira no blues, deixando seus filhos aos cuidados da mãe, é transmutado em um espírito inquieto e dependente do perdão do pai. Ressaltamos, ainda, que a construção do pai da personagem como um pastor está intrinsecamente ligada à substituição
da visão espiritual do romance, baseada no “womanismo”, pela doutrina cristã protestante.
Diante destas observações, refletimos sobre o poder das instituições que controlam a mídia, sobretudo na conservadora década de oitenta, moldando os critérios de produção e impondo normas comportamentais e valores tradicionalistas.
Embora o filme tenha sido produzido em um contexto sócio histórico não tão diferente do texto literário, a análise do corpus mostra que a ideologia controla, muito mais, a criação de uma obra fílmica, do que a tessitura de um romance. Isso se deve, entre outras razões, ao maior consumo do produto fílmico, inclusive por pessoas não letradas. Se analisarmos a repercussão dos dois trabalhos, tal assertiva fica ainda mais clara. Pois, mesmo banido por alguns meses, o livro de Walker, recheado de questões controversas, alcançou um significante número de vendas e de aprovação, levando-a a uma das maiores premiações da literatura norte-americana. Ao contrário, o filme de Spielberg, ainda que “suavizado”, sofreu duros julgamentos, tanto pelo público, quanto pela crítica. Insistimos, também, que a escolha do cineasta em adaptar The Color Purple, distanciando-se do gênero fílmico, pelo o qual era conhecido até então, estava mais relacionado à sua necessidade de reconhecimento artístico e ao tão sonhado Prêmio da Academia, que ele não recebeu.
Concluímos, portanto, que a tradução cinematográfica de The Color Purple, ainda que não priorize a totalidade da ideia “womanista”, como a percebemos no romance, consegue criar um universo de denúncia da opressão contra a mulher negra, suscitando a ampliação do público leitor. Sendo as personagens ficcionais frutos de seus criadores, é certo que elas exibiriam aspectos particulares da poética de cada um e de cada sistema de produção, manifestando, portanto, características diversas. Visto que não buscávamos apontar questões de fidelidade e equivalência, defendemos as alterações acarretadas como reflexos das escolhas do diretor, que podem ser explicadas, na nossa visão, tanto devido ao período histórico, ainda instável para a comunidade negra, como por questões ideológicas e poetológicas da indústria cinematográfica hollywoodiana. Através de uma análise de caráter descritivo, destacamos as razões e o modo de produção da adaptação, considerando seu contexto sócio histórico e enfatizando a autonomia da reescritura.
Mesmo que não tenha provocado à superlotação nas salas de cinema, o filme The
Color Purple, fruto da ousadia de Spielberg em traduzir o romance de Walker, mulher negra,
contribuiu na desconstrução da noção de como os negros deveriam ser apresentados nos filmes hollywoodianos. Além disso, enfatizamos seu papel em disseminar a literatura de autoria feminina afro-americana, bem como o conjunto de textos históricos e teóricos que a rodeiam. Pois, reconhecendo a importante função das reescrituras na ampliação do público leitor de uma determinada produção literária, observamos, ainda hoje, a carência de traduções de obras produzidas por mulheres negras.
A partir desse estudo, vislumbramos novas pesquisas a fim de difundir a literatura de autoria feminina afro-americana, reconhecendo o importante papel das reescrituras. Uma interessante investigação seria analisar as poucas adaptações cinematográficas de obras literárias escritas por mulheres negras, percebendo como elas lidam com a denúncia do preconceito gênero-racial e compreendendo o porquê do escasso número de traduções. Outra possibilidade seria uma pesquisa sobre o livro documentário de Walker, em parceria com Pratibha Parmar, Warrior Marks: Female Genital Mutilation and the Sexual Blinding of
Women (1993), e de sua adaptação Warrior Marks (1993), que versa sobre a mutilação genital
feminina, assunto tratado no romance de Walker, Possessing the Secret of Joy (1992). Assim, longe de encerrar o debate sobre The Color Purple e sua adaptação cinematográfica, este trabalho busca suscitar novas questões a cerca das re(escrituras) de grupos que vivem à margem, difundindo a denúncia dos diversos tipos de opressão e oferecendo propostas conciliadoras para salvar esse jardim chamado humanidade.