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Numerical Solution

Entre 1896 c 1903 a economia do Rio de Janeiro viveu sua quadra mais critica em toda a Republica Velha. A queda dos preços internacionais do cafe veio pôr a nu uma crise iniciada na decada de 1870, quando a cafeicul­ tura numinense. ressentindo-se dos problemas de oferta de milo-de-obra es­ crava, começou a perder tem:no para São Paumo e viu sua produção decres­ cer gradativamente." A agroindústria açucareim. vivendo uma crise mais antiga do que a do café. viu também crescerem suas dificuldades. com a perda dos mercados europeu c em seguida norte-americano." e a conconin­

da da produção do Nordeste. sobretudo de Pernambuco e de Alagoas."

O gr.!nde problema enfrentado pelos agricultores numinenses a partir da Abolição foi o suprimento de mão-de·obra. Como a abc:-rtura de. novas plan­ taçóc:s em São Paulo requeria um numeroso contingente de Imbalhadores. e como os imigrantes europeus mIo foram suficientes para sati.�fal.cr à dcman· da. os cafeicultores paulistas recom:ram ã força de trabalho nacional. em boa parte formada por negros libertos atraídos do Estado do Rio de Janeiro

c de outros pontos do país.to Na década de 1890 o Estado do Rio carac­

terizou-se. assim. como uma região de emigração. vendo sua população traba­

lhadora transpor suas fronteiras, seduzida por melhores oportunidades não só em São Paulo como no Distrito Federal. que então atr.!vessava um im­

portante surto industrial."' Entre 1890 e 1900, o Estado do Rio sofreLl uma

perda líqLlida de mais de 97.000 individuos em idade de trãbalhar (maiores de

10 anos). o que com:spondia a 1 1 ,3.'i% de sua poPLllação nessa faixa etiÍria

em 1890.u

A solução encontrada pela maioria dos proprietários de terra fluminenses para reStabelecer. no conte;llIo do " trabalho livre", o suprimento de uma força de tmbalho regular. barata e disciplinada. foi o sistema de parceria." Além de não pressupor salários monetários _ o que lhes interessava diante

da insolvência financeira em que se debatiam -. a parceria oferecia a vanta­

gem de dividir os eventuais prejLllzos entre proprietários c parceiros, man­

tendo intacta a dominação de classe: dos primeiros.

Embora os dirigentes estaduais percebessem a necessidade de romper a dependência do estado em relação à monocultura cafeeira. pouco foi reali­ zado nessa direção nos primeiros anos republicanos. Como a receita esta­ dual atingia um q/lantllm satisfatório graças aos preços elevados do café no mercado mundial e ã arrecadação dos impostos de exportação. o governo

não manifestou intenções mais oonoreta5 de promover a diversifioação agrl­

oola."

Entretanto, a orise de 1894 da economia dos Estados Unidos. maior oon· sumidor mundial de oafê, e o exoesso de produção provocado pela expansão das lavouras em São Paulo, aoarretaram já em 1896 uma baixa aoentuada dos preços internaoionais, imlUgurando para a eoonomia cafeeira um longo po::riodo de declínio. li Os efeitos deste novo quadro não tardaram a se fazer

sentir no Estado do Rio. De 1895 para 1896. a arncadação do imposto de exportaçâo sobre o cafê redutiu·se em 1/4. reperoutindo sobre a reoeita total do estado.-Dai em diante, e sobretudo a partir de 1898, apesar de ligeiras e episódioas reouper.lÇóes. essa redução iria prosseguir de fonna inexorável." aoarretando a ampliação dos dêfioits orçamcntlirios e oonsequentemente da dívida públioa estadual. A preoária situação finanoeira teve sérios reflexos na admini�tração. desorgani:l:ando os serviços públioos, provooando o atraso

no pagamento do funoionali�mo e o feohamento de esoolas. e impossibili·

tando a prestação regular da justiça.

Diante desse quadro dramátioo, Alberto Torres fonnulou um programa de oombate ã orise que inclula iniciativas inovadoras e de oaráter estrutural, oomo a difusâo da pequena propriedade, o aproveitamento do trabalhador nadonal e a diversifioação agrioola. Procurou. tambêm. concn:ti:mr o binômio

oontenção de gastos públioos-ampliação da reoeita. deslocando a base tribu· tária do estado do imposto de exportação para o imposto temtorial. Seu proirama. ainda que aprovado peja ALE RJ, esbarrou oontudo na resistênoia surda dos grandes proprietários e não foi adiante.· Retomado por Quintino Bocaiúva, despido das propostas mais radioais, só seria efetivamente imo plementado na gestio de Nilo Peçanha. ainda mais esvaxiado de seu oon­ teúdo original. Num quadro de maior estabilidade polítioa, a orise finanoeira seria por fim debelada oom a eliminação do orônioo dêfiCit orçamentário es· taduaL e 11 orise eoonômioa seria ameniz.ada. graças aos resultados positivos

obtidos oom a diversifioação da agrioultur.t.

Alberto Torres looaliuva a rai:l: da orise eoonÔmioa fluminense em doi� problemas básioos e interligados: a grn.nde propriedade e a esoallSu de

mão-<le-obra. Alêm de defender a digusão da pequena propriedade e o apro­ veitamento do trabalhador nacional. oritioava a dependênoia em relação ao oafé, vendo na diversiflCaçiio agrioola uma altentativa oapaZ de abrir novas perspectivas.-

Em seu entendcr. o paroelamento ou a mobilização da grande proprie· dade poderiam ser aloançados por meio indiretos, oomo a reduçiio do im­ posto de transmissão de propriedade ;nlt'f vivos _ oomo detenninava a Lei n.o 396. de 1 8 de de:l:embro de 1898--ou a instituiçiio do imposto temta- 103

rial _ que seria também um item importante do programa de ampliação da

receita estadual. Com estas medidas, o gooemo olerecia na oerdade duas al­

ternatioas aos proprietários: ou cultioaoam suas terras, reunindo condiçôes de pagar o tributo que sobre elas incidia, ou as alienaoam, .total ou pardal­

mente.

O Decreto n.o 522, de 22 de feoereiro de 1898, referia-se igualmente

â

questão fundWia, autorizando a concessão de lotes dos núcleos coloniais do

estado a funcionários pUblicos, emprepdOli ou operários de estabelecimen­

tos fabris e comerciais e dos 8f'5Cnais do Distrito federal que tioessem sido

dispeosados de seus empregos e desejassem adquirir terras.s, A única inicia­

tioa concreta nessa área foi a transformação do núcleo colonial de Vargem

Alegre, em Barra do Piraí, em centro agricola. Contudo, dos 251 lotes ai

CriadOli, apenas 58 foram oendidos até o

final

da administração Alberto Tor­

res."

Em relação

â mão-de-obra.,

a l...ci 0.° 410, de 24 de dezembro de 1898,

preoia que ao estado caberia "a introdução de imigrantes, nacionais e es­

trangeiros, quando solicitados nominalmente por lavradores fluminenses ou por parentes estabelecidos no estado"." Embora aos poderes PÚbl.icos cou­ besse apenas secundar a iniciatioa dos proprietários prioados, garantia<se

com isso o aprooeitamento efetioo da mão-de-obra recém-chegada na agri­

cultura. Quanto â dioenificação açfcola, a despeito da crença de Alberto Torres em sua conoeniência, nenhum texto legal M!bre a matéria cheaou a ser promulpdo durante seu gooerno.

Na tentatioa de reduzir gastos e aumentar a receita, Alberto Torres lan­ çoo mão de OUlraS medidas, propondo a supressão de órgãos da administra­

ção, o çorte de pessoal e a reoisão do sistema de aposentadoria. A principal inooação de sua administração foi, porém, a çriação do imposto terrilOrial. que deoeria constituir a base do sistema tributário estadual. A iniciatioa não era propriamente LlD\a nooidade, uma oez que desde o infçio do Segundo

Império o imposto territorial era oisto çomo uma alternatioa ao imposto de exportação, lendo sido inclusioe preoisto no projeto oriainal da Lei de Ter­

ras de 18.50, mas retinLdo

após

a ootação no Senado. Scaundo José Munlo de Carvalho, a nooa taxação, embora deoesse em tese atingir um ·'númeto

muito maior de peS!iOllS, isto é, todos os proprietários rurais ( ... ) seria muito difidl de am:c.:adar, em oirtude sobretudo da ausénda de çadasUllmento das

propriedades'·. :M

A proposta do imposto territorial de Alberto Torres ganhou forma de projeto de lei e foi leoada A apreciação da

ALERJ.

ainda em 1898. Segundo o

projeto, fl() primeiro ano seria çobrada uma talta de 0,5% sobre o oalor das

terras, que aumentaria anualmenle até çorresponder à renda gc:rada pelos

impostos sobre o café e o açúcar, 05 quais seriam paulatinamente reduzidos até sua extinção.-

O

eume do projeto dominou os trabalhos da ALERJ

em

1898, desta·

cando-se os deputados André Werneck como seu maior adversário, e Bar­

reto Durão como seu mais convicto defensor.-

A

despeito dos ataques de Werneck. panI quem o imposto constitula uma agressão ao direito de pr0-

priedade que levaria os proprietários a aplicar seu

capital em

outros estados, o projeto foi aproYado, transformando-se na Lei n.o 39�, de dezembro de 1898."' A cobrança do imposto não seria contudo implemenlada até o final do governo Alberto TOlTes. Além das dificuldades do próprio govemo, que

não dispunha óc um cadastro das propriedades, pesou sem dúvida a resis­ têDCia e mesmo a hostilidade dos proprietârios rurais.

Tal polItura nâo ócve ter surpreendido o go'ICn'IO. 'uma vez que em ja.

neiro de 1898 a Secretaria de Obras PUblicas e Indústrias enviara um ques­

tionário às Cimaras Municipais de todo o estado, procurando saber como os proprietârios encaravam a crise

da

agricultul1l e que solUçõcs pl"Opllnham.­ As perauntas evidenciavam as preocupaçêJcs do governo com a estrutura fundiária, •

imigraçio

e a diversifK:açâo agricola. AnaJisando as respostas,

Ana Maria dos Santos afirma que os

fazendeiros. embora

nào rejeitassem o estímulo às novas culturas sugerido pelo govemo. deiltllnlm claro que oolta­

riam ao café ao primeiro sinl de rcçuperação de preços.- Por isso mesmo. não viam com bons olhos o desmembnunento de suas terras pela venda de lotes. e nem poderiam aproYlU" um imposto que os onerava.

Resta ainda uma obsc",ação: os projetos do governo aprovados pela

ALERJ dUl1ll1te a sessào legislativa de 1898. num momento em que cisão

partidária

ainda não se havia expliciCado. difICilmente seriam apoiados por aqueles que em 1899 passanun a ser oposição. Ao contririo. nos dois últi­ mos anos da ,estão Alberto Torres a oposição mostmu-se refratária à c0-

brança de impostos previstos

em

leis pCIf" ela meMna aprovadas anteriormen­ te. o que dernonslI'a o grau de radicalização e de animosidade que passou a dominar a cen política estadual.