4.4 Modeling approach
4.4.2 The numerical model
Trata-se de um estudo de caso, de natureza qualitativa, inspirado na Hermenêutica, de Hans G. Gadamer (1979), como prática filosófica; e na Fenomenologia Hermenêutica, de Paul Ricoeur (1986), para a produção do conhecimento. No livro Texto e Ação, Ricoeur (1986) traz uma abordagem de análise de texto, composta por diversas etapas, quais sejam: distanciamento, apropriação, explicação, compreensão, interpretação e validação das informações. Referidas etapas são inspiradoras de vários estudos de análise de narrativas, seja na Antropologia Interpretativa, de Clifford Geertz (1988); seja nas Ciências da Saúde, como, por exemplo, na Enfermagem (GEANELLOS, 2000). Estas etapas trabalhadas por Ricoeur (1986) são utilizadas como referência na análise das entrevistas desta tese.
O termo hermenêutica designa genericamente “a arte e a ciência da interpretação” (RUNES, 1985). Etimologicamente ligado a Hermes, deus grego, tradutor das mensagens do Olimpo para os mortais, o vocábulo designa práticas e referenciais teóricos significativamente distintos, mas que têm em comum o sentido lato de interpretação e compreensão.
Hermenêutica crítica, também chamada de Crítica Dialético-Hermenêutica, designa proposições que atribuem à Hermenêutica a tarefa compreensiva fundamental, mas que enxergam limites na positividade linguística para fundamentar uma interpretação
efetivamente emancipadora dos fatos humanos, reclamando o movimento de negação da crítica como elemento reconstrutivo dos discursos e de seu sentido prático (HABERMAS, 1987). Suas proposições caracterizam-se por uma profunda rejeição da redução instrumental da racionalidade contemporânea, buscando resistir ao caráter fragmentário e autorregulado a ela impresso pelo tecnicismo e reconciliar o conhecimento com seu sentido ético, moral e político (STEIN, 1987). Assume o compromisso com o resgate crítico do caráter histórico e social de qualquer conhecimento, inclusive o tecnocientífico. A Hermenêutica crítica exige um distanciamento crítico, explorando dialeticamente os valores negados nos processos de comunicação que geraram ou geram os discursos interpretados.
Embora a questão central da Filosofia hermenêutica, tal como desenvolvida por Gadamer (1979), não tome como seu objeto de investigação a ação social, em si mesma, parece claro que também faz parte dos fundamentos de sua proposta filosófica um compromisso prático de transformação, implicando a necessidade de distanciamento crítico. Sobre a participação do pesquisador, este está situado na pesquisa como um “sujeito intérprete”, onde o “fazer falar de novo” hermenêutico depende das motivações práticas deste sujeito politicamente situado. O modo de proceder hermenêutico é o de uma contínua conversação, em que a “dialética de pergunta e resposta” vincula toda interpretação às perguntas que movem o intérprete. Estes aspectos referidos nos dão conta da inexorável presença da crítica na Filosofia hermenêutica (GRONDIN, 1999).
Gadamer (1990) considera encontrar-se a dimensão crítica em todo o pensamento verdadeiro, não existindo pensamento sem a distância necessária para uma atitude de questionamento. E não existe pergunta sem a consciência de que para qualquer pergunta existem diversas respostas possíveis (GADAMER, 1990). Portanto, parece-nos desnecessário falarmos de uma hermenêutica crítica, como se houvesse uma hermenêutica não crítica. Para Gadamer (1990), o pensamento crítico é intrínseco à Hermenêutica.
Em Gadamer (1979, 1990), encontramos a superação da dicotomia sujeito- objeto na compreensão dos fatos e obras humanas. O fator humano, que para as concepções positivistas constitui um vício e um obstáculo, isto é, o círculo lógico em que quem compreende está incluído no que quer compreender, para Gadamer (1979), ao contrário, constitui a essência mesma do compreender. Essa coincidência entre conhecedor e conhecido é a base de validação dos procedimentos interpretativos. É a totalidade vivida que, como pano de fundo, faz distinguir a forma particular do fenômeno humano, configurando o “círculo hermenêutico”. Só a experiência de pertença em relação a tudo o que é humano permite compreender o fato ou a obra particulares, distinguindo as
experiências pretéritas e alheias das próprias, identificar, a um só tempo, o si mesmo e o outro. Gadamer (1990) encara esse acesso ao outro não como um resgate de seu horizonte e sim como uma fusão de horizontes. Aquele que interpreta não decodifica uma experiência externa a si, ao seu horizonte linguístico, mas decodifica a própria experiência com base em necessidades e possibilidades trazidas pelo horizonte linguístico do outro. Na Hermenêutica de Gadamer (1979, 1990, 2000), o interpretado suscita questões para o intérprete, mas é este último quem possibilita ao interpretado a proposição dessas questões. Esta concepção torna o pesquisador um “sujeito epistêmico”, produtor de ideias ao longo da pesquisa, em um processo contínuo que conta com momentos de integração e continuidade de seu pensamento, sem, necessariamente, referências comprováveis no momento empírico.
Enquanto Gadamer (1979) perguntou “como é possível o entendimento do ser”, Ricoeur (1986) indagou “através de qual meio é possível a compreensão textual”. Nesta busca, Ricoeur (1986) procurou reunir/reconciliar verdade (a característica da compreensão) com método, compreendido como “a operação através da qual a compreensão ocorre.” (GEANELLOS, 2000, p. 115). Assim, utilizando a Hermenêutica de entendimento de Gadamer (1979), a teoria de interpretação de Ricoeur (1986) desenvolve um método hermenêutico de análise textual que inclui distanciamento, apropriação, explicação, compreensão e interpretação. Considera Ricoeur (1986) serem estas as atitudes que o interprete / leitor pode tomar em relação ao texto. Trataremos a seguir de cada etapa deste método hermenêutico, com amparo na leitura do próprio Ricoeur (1986) e de Geanellos (2000).
Ricoeur (1986) considera ser o motor essencial da obra de Gadamer (1979) “a oposição entre distanciamento alienante e pertença.” (p. 109). Isto porque, por um lado, o distanciamento alienante é a atitude a partir da qual é possível a objetivação, predominante nas ciências humanas; porém, este distanciamento, uma exigência do estatuto cientifico das ciências positivas, também, simultaneamente, é a degradação que destrói a relação fundamental e primordial com a historicidade de todo fenômeno estudado. Considera Ricoeur (1986) que esta dicotomia na obra de Gadamer (1979) é expressa no próprio título de sua obra Verdade e Método. Para ele, “ou praticamos a atitude metodológica, sem perdermos a densidade ontológica da realidade estudada, ou praticamos a atitude de verdade, mas, então, teremos que renunciar à objetividade das ciências humanas.” (P. 109). Diante deste dilema de Gadamer (1979), Ricoeur (1986) se recusa a fazer opções e busca ultrapassar esta oposição. Assim, propõe uma problemática dominante, qual seja, a do “texto”, que para ele escapa, por natureza, à alternativa entre distanciamento alienante e
participação por pertença. O texto é o “paradigma do distanciamento na comunicação.” (RICOEUR, 1986, p. 109). Metodologicamente, o distanciamento torna o texto um objeto, liberando-o das intenções (significados) do autor, ou, no caso da pesquisa, do entrevistado. Mediante tal procedimento, o texto passa a ter vida própria. Este distanciamento assume quatro formas distintas:
a) fixação do falado na palavra escrita, onde o diálogo é registrado como escrita e o significado torna-se mais importante do que as efetivas palavras;
b) ofuscamento (eclipse) da intenção do autor, uma vez que a palavra escrita torna o texto autônomo e aberto à leitura e a interpretações ilimitadas;
c) em decorrência disto, ocorre uma emancipação do texto, sendo este libertado do contexto de sua criação e capaz de ser lido dentro das tradições sociopolíticas, históricas e culturais do interprete;
d) diferenças entre palavras faladas e as escritas, uma vez que o diálogo falado ocorre face a face, permitindo interrupções, explicações; enquanto isso a palavra escrita não permite que este diálogo se materialize.
As quatro formas de distanciamento supracitadas, presentes na obra de Gadamer (1979) e trabalhadas em Ricoeur (1986), no seu método de análise de texto, permite aos interpretes lidarem com o texto sem preocupação com a intenção do autor (participante da pesquisa). Portanto, os pesquisadores buscam a apropriação dos significados de um texto, em vez de uma busca dos significados singulares dos participantes da pesquisa.
Ricoeur (1986) refere diferentes atitudes a serem tomadas em relação ao texto - apropriação, distanciamento, explicação, compreensão, interpretação - seguindo-se ato posterior - a validação.
A apropriação (tornar algo próprio de si mesmo) tem fundamentos no conceito de Gadamer (1979) de tradição, no qual pode ser obtido um sentido do familiar e do pertencente. Assim, apropriação e distanciamento fornecem uma dialética de interpretação, entre o próximo e o distante, o familiar e o estranho, entre o conhecido e o estrangeiro/externo (GEANELLOS, 2000). Esta dialética sintoniza-se com a pesquisa interpretativa, que busca desvelar o escondido, o não-dito, o fragmentado. Para Ricoeur (1986), metodologicamente, a apropriação permite que os significados de um texto sejam conhecidos, aproximando-se do intérprete. A conexão entre experiência, compreensão e autocompreensão fundamenta a teoria de interpretação de Ricoeur (GEANELLOS, 2000).
A explicação envolve escolher os principais detalhes de um texto e por intermédio deste processo, desenvolver uma consideração inicial daquilo que o texto
expressa. Busca uma relação de causa e efeito, muito comum nas Ciências Naturais. Ir além dos detalhes de um texto, contudo, é uma função mental mais elaborada, requerendo compreensão. Na compreensão, buscam-se os significados do texto na sua integralidade.
Para Ricoeur (1986), “compreender é compreender-se diante do texto.” (p. 124). A compreensão marca a entrada em cena da subjetividade do leitor, do intérprete, do pesquisador. “Para que haja compreensão, tanto o expresso como o não expresso exigem interpretação” (GEANELLOS, 2000, p. 6).
Na Fenomenologia Hermenêutica, de Ricoeur (1986), estão presentes duas etapas de compreensão. Inicialmente, uma inicial, global, mas ainda superficial, dos significados presentes num texto que está sendo analisado. À medida que a compreensão avança, por meio de leituras sucessivas, a compreensão inicial pode ser rejeitada, confirmada, ampliada. A compreensão pode ir além do expresso no texto. Nesta perspectiva, os intérpretes buscam entender mais do que a palavra expressa, falada. Para Gadamer (1979, p. 346), “o problema hermenêutico é o entendimento adequado daquilo que acontece através da linguagem”. Assim, para interpretar os textos, as entrevistas, indo além do que é expresso, há necessidade de um esforço hermenêutico, onde o intérprete utiliza suas compreensões prévias.
A compreensão profunda implica um “processo de interpretar partes do texto em relação ao todo, e do todo do texto em relação as suas partes, é conhecido como (interpretação dentro do) circulo hermenêutico” (GEANELLOS, 2000, p. 116). “A interpretação aproxima, igualiza, torna contemporâneo e semelhante, o que significa, na verdade, torna próprio o que, em principio, era estranho” (RICOEUR, 1986, p. 156). Este fenômeno caracteriza a interpretação como apropriação, o que sublinha o caráter atual de interpretação.
Ricoeur (1986) inclui também uma etapa de validação, pois reconhece a pluralidade de textos, a natureza polissêmica e ambígua das palavras e sentenças, reconhecendo também o caráter variável e incompleto da interpretação. Assim, propõe a validação das interpretações. Ele refere, contudo, não se tratar de verificação, na forma como concebida nas pesquisas positivistas. Seria como um método de arbitragem/conciliação entre interpretações que competem entre si (GEANELLOS, 2000). Na nossa compreensão, diferentemente de Ricoeur (1986), a validação não é, necessariamente, para arbitrar e fazer escolhas entre interpretações que competem entre si, pois consideramos que a natureza dialética e contraditória do real, dos fenômenos permite a coexistência de interpretações conflitantes, polos contraditórios e não antagônicos.
Geanellos (2000) considera útil a Teoria de Interpretação Hermenêutica, de Ricoeur (1986), por ser um método que permite explicar e analisar logicamente o conhecimento intersubjetivo. Isto porque a teoria do autor leva em consideração, segundo Geanellos (2000), a relação entre Ontologia (teoria do Ser) e Epistemologia (Teoria do Conhecimento) e reconhece a natureza múltipla, variável e incompleta da interpretação.
Neste estudo, não utilizaremos o circulo hermenêutico dialético tal como proposto pelos seus autores; mas, empregaremos uma metodologia inspirada nele, de forma a colocarmos face a face vários atores sociais, não necessariamente para buscar o consenso, muito menos a “verdade”, visto serem estas múltiplas. Desta forma, buscamos dar “voz” aos profissionais envolvidos no objeto de estudo, tendo estes a oportunidade de dialogar sobre os diversos ângulos de análise, as diferentes compreensões, favorecendo o enriquecimento da produção do conhecimento.
Na construção do conhecimento, buscamos ampliar o campo de visão, valorizando as múltiplas percepções e compreensões dos múltiplos atores, diversificando os métodos de obtenção das informações, envolvendo os agentes sociais em todas as fases de elaboração do conhecimento.