O continente africano atualmente integra 54 entidades nacionais (muitas destas desenhadas durante o período do colonialismo europeu) e comporta uma população de cerca de 1 bilhão de habitantes19. É o segundo continente mais populoso do planeta. A maior parte de seus Estados contemporâneos possui regimes republicanos que operam sobre sistemas presidenciais, o que
58 não incide necessariamente em sistemas de gestão política democráticos, conforme Oloka-Onyango (2004).
Até metade do século XX, muitos países do continente africano viviam sobre a égide de seus colonizadores europeus e abrigavam diversas disputas étnicas internas e regimes marcadamente ditatoriais. Segundo o historiador M’Bow (2010), após a crise econômica dos anos 1930 e a Segunda Guerra Mundial, passou a se conformar o fenômeno de libertação, formação do estado e edificação da nação em muitos países africanos: movimentos importantes no contexto pós-colonialista de reafricanização da África e re-humanização da Europa. Nesse meio tempo, fulguraram casos históricos de regicídio e diversas sucessões políticas por meio de golpes militares.
Shohat e Stam (2006), ao esclarecerem sobre os processos de colonialismo e imperialismo em nível mundial, explicam que os termos colonização, cultura e culto derivam da mesma raiz latina culturus, verbete atrelado em sentido a práticas e valores ulteriores à ocupação e cultivo agrário, o qual tem relação também com a transmissão de ritos, tradições e práticas ao longo de gerações. Nessa percepção etimológica, é salientada a dicotomia dominado/dominador. O primeiro, intrinsecamente selvagem, caótico e irracional, “demandaria” (sob a ótica do segundo) a dominação racionalizadora, dogmática e progressista, necessária para a fruição das sociedades civilizadas, pretensamente detentoras da verdade e de ética absolutas e universais.
Esses autores sinalizam como efeitos nefastos do panorama de dominação europeia coativa de territórios em escala global – principalmente da África, Ásia e América – o aniquilamento de povos e culturas colonizadas, a submissão forçada de índios e negros ao regime escravagista e o aumento do racismo dentro dos territórios dominados e na própria Europa. Hoje, descontinuados os regimes colonialistas diretos, deparamo-nos com o que Shohat e Stan (2006) apontam como neocolonialismo, uma maneira de dominação indireta por meio de formas de controle abstratas, de natureza majoritariamente econômica e cultural. Na contemporaneidade, a Europa Ocidental, os Estados Unidos e o Japão conformaram-se como as principais elites neocolonizadoras, que infligem programas políticos, cânones culturais e
59 parcerias econômicas apoiadas pelas elites dos países colonizados. Isso tem resultado em efeitos calamitosos sobre as sociedades (neo)colonizadas, tais como pobreza, fome, dívidas externas crescentes e a exploração de recursos locais por negócios de capital estrangeiro e, até mesmo, no estabelecimento de regimes totalitários internos.
Elaigwu e Mazrui (2010) afirmam que, entre sucessões e alternâncias de regimes civis e militares, as administrações dos estados africanos contemporâneos não conseguiram, em sua maior parte, fortalecer seus Estados, muito menos edificar nações. Para M’Bow (2010), a identidade africana tem se mostrado problemática e inconsistente em função do histórico de dominação estrangeira, dissolução étnica e de humilhação racial, elementos que tem perpetrado a história do continente por séculos. Ainda sob o impacto do colonialismo e imperialismo, o desenvolvimento interno político e econômico tem se dado de forma bastante custosa, visto que as sociedades africanas ainda apresentam dificuldades de perceberem-se e de conformarem-se como um constructo sociocultural com uma identidade nacional comum.
Esse autor, no prefácio do sétimo volume de História Geral da África, elucubra como processos-chave para o entendimento do contexto histórico, social e político da África contemporânea: a dialética do pan-africanismo de
libertação (corrente no processo pós-colonialista) e do pan-africanismo de integração e de desenvolvimento (ainda um processo em estado incipiente). Ou
seja, o movimento entre os processos de conformação da identidade africana e o desenvolvimento das nações do continente seriam o cerne do contexto político atual.
Em 9 de julho de 2002 foi criada a União Africana (UA). Trata-se de uma aliança entre estados que visa a integração e a solidariedade política e econômica entre os países do continente africano. Na época, em comunicado20
do presidente da UA, Thabo Mbeki, foram informadas como metas da então criada União, entre outras: “erradicar a pobreza, doença e ignorância através da pacificação e reestruturação política, social e econômica; promover a democracia amparada por leis funcionais; garantir direitos humanos básicos
60 como igualdade de gêneros, direitos dos trabalhadores e das crianças; erradicar a pobreza e o subdesenvolvimento; garantir alimento e água potável e condições sanitárias fundamentais para a eliminação e prevenção de doenças; investir em educação, pesquisa, ciência e tecnologia; garantir espaço para a África nos negócios globais; e dar fim a marginalização dos países do continente no cenário econômico e político internacional”.
Apesar dos esforços de pacificação, integração e desenvolvimento intercontinentais, e dos afamados e controversos empreendimentos de caridade e ativismo midiático mundiais, grande parte dos países do continente africano ainda padecem tanto com a corrupção, autoritarismo e casos de nepotismo em seus regimes políticos ditos democráticos, quanto com o estilhaçamento cultural e identitário, assim como com revoltas e batalhas civis insurgentes, agravantes da secular interferência colonialista Ocidental. O ímpeto de antes, agora disfarçado sob avatares neocapitalistas, operante por meio da lógica neocolonialista, parece mais agravar e espetacularizar a complexa e histórica problemática de agora que contribuir para a melhoria das condições existenciais dos cidadãos de lá.