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Nessa situação de diversidade e fragmentariedade social, política e cultural, de busca pelo desenvolvimento integrado de nações, em um cenário de instabilidades sociopolíticas e constantes confrontos étnicos, está situada Uganda. O país, localizado ao Leste do continente africano, faz fronteira ao Norte com Sudão do Sul, ao Leste com Kenya, ao Sul com Tanzânia, ao Sudoeste com Ruanda e a Oeste com a República Democrática do Congo. Twaddle, Rabearimanana e Kimanbo (2010) explicam que, apesar de se constituir como uma entidade geográfica e política, Uganda é cingida em diversas entidades étnicas, as quais mantêm parte de suas tradições, preceitos e crenças. Trata-se de resquícios do período pré-colonial.

Segundo os autores, até meados do século XX, Uganda ainda era uma colônia britânica. A diferença em relação a outros regimes colonialistas na

  61 África foi que, em Uganda, o governo britânico reconhecia e preservava a autonomia da principal elite pré-colonial da região: Buganda. As entidades políticas Uganda e Buganda coexistiam de forma mais ou menos controlada no mesmo enquadramento geográfico, ao passo que outras etnias locais minoritárias e reinos eram sujeitados à égide política britânica (Uganda). A chave do sucesso da empreitada colonialista britânica foi o fato de terem tornado o reino de Buganda a base de sua dominação por meio do Buganda

Agreement (1900) (Figura 2).

O acordo definiu as fronteiras do governo de Buganda. Fronteiras essas que foram estendidas a todo o protetorado britânico em Uganda. O nacionalismo ugandense configurava-se, assim, de forma ambivalente: de um lado, havia grupos identificados com a autonomia e soberania do reino de Buganda; de outro (Uganda), situavam-se os grupos minoritários, esfacelados pela dominação britânica (TWADDLE et al., 2010).

Figura 2 – Divisões territoriais Uganda / Buganda segundo o acordo de 1900

  62 Conforme Twaddle et al. (2010), na década de 1940, distintos grupos e interesses políticos, chamuscados pelo sistema colonial, acabaram por desencadear uma série de tensionamentos sociais e políticos. A elite ugandense revoltosa distribuía-se em três eixos: 1) funcionários que reclamavam contra a discriminação racial; 2) exploradores especializados em culturas para a comercialização de algodão indignados com as vantagens obtidas por beneficiadores e escritórios de comercialização estatais no processo; e 3) comerciantes que clamavam pelo fim de monopólios de empresas britânicas e asiáticas. Esse descontentamento geral da elite que integrava a cadeia industrial culminou em revoltas em várias cidades do país (1945), acendidas pelos baixos salários e aumento do custo de vida em função da inflação ocasionada pela crise pós-guerra. O governo britânico foi perdendo credibilidade e apoio. Nesse mesmo ano, em um clima de tensão crescente, o Primeiro-ministro bugandense foi assassinado.

A exploração colonial tornou-se cada vez mais insustentável. Conforme os historiadores, em 1952, os revoltosos criaram o Uganda National Congress (UNC), primeiro movimento nacionalista consistente que unia as elites de Uganda e diversos outros grupos trabalhistas minoritários (Teso, Bukedi, Lango e Acholi). Nesse entremeio, Milton Obote lançou um programa que clamava pela independência nacional. Em 1955, acontecimentos impactantes para a independência de Uganda envolveram o governador de Uganda, Andrew Cohen, e o rei Mutesa II, Kabaka de Buganda. Esse último foi deportado à Grã- Bretanha.

Interesses das elites nacionais e de representantes do UNC colocaram o rei Kabaka Yekka no poder. Este tornou-se a principal chefia de Buganda, não mais sob as rédeas britânicas. Na sequência, foi criado o Uganda People’s Congress (UPC), de Milton Obote, que falhou na tentativa de se consolidar como entidade nacional única (TWADDLE et al., 2010).

Em 1962, o estado de Uganda obteve a independência da tutela britânica, conforme Mazrui (2010), graças a um governo de coalizão, chefiado por Milton Obote, entre Kabaka Yekka de Buganda em parceria com o UNC e o UPC. Em meio a todas essas movimentações políticas e sociais, é pertinente

  63 apontar que a conformação do nacionalismo em Uganda foi pautado por cisões ideológicas e regionais das mais diversas (TWADDLE et al., 2010).

Rowe (1992) informa que Apolo Milton Obote governou parte de Uganda sob uma lei marcial de 1966 a 1971, até o golpe militar que trouxe Idi Amim Dada à presidência. Esse autor explica que, sob o comando do controverso Idi Amim, Uganda ficou conhecida no cenário global. Figura polêmica e com discursos idiossincráticos, Amim conquistou a atenção e antipatia midiática internacional tanto pela falta de diplomacia quanto pelos diversos massacres civis que aconteceram sob sua gestão.

Em 1979, na guerra entre o governo de Uganda contra o Uganda National Liberation Army (UNLA), que, por sua vez, contava com o apoio da Tanzânia, a capital kampala foi tomada e Amim acabou fugindo para a Líbia, sendo posteriormente exilado em Jiddah, na Arábia Saudita (ROWE, 1992). Conforme Cheeseman (2010) e Rowe (1992), a gestão paranoica e violenta de Amim teria resultado na morte de centenas de milhares de civis. Muitas das atrocidades de Amim foram reveladas no livro A state of blood (1977), escrito pelo ex-ministro Henry Kyemba, após sua fuga do país.

Figura 3 – Idi Amin Dada

Fonte: www.cbv.ns.ca

 

O filme The last king of Scotland (Kevin Macdonald, 2006) retrata de forma pitoresca a emblemática a figura de Idi Amim Dada e o seu ambivalente governo. O filme – uma história ficcional baseada em eventos reais, como uma conferência de imprensa na qual Amim declara-se o último rei da Escócia –, constrói uma narrativa com base no relacionamento de Idi Amim com o seu

  64 médico pessoal, o personagem Nicholas Garrigan, um irlandês recém-formado que decidira se aventurar no misterioso continente africano. No filme, o personagem Amim é uma figura carismática e barroca, um patriarca zeloso, mas ao mesmo tempo um governante autoritário, paranoico e repressor, que esconde decisões, resoluções e ações arbitrárias e obscuras da imprensa e de seus compatriotas. Isso acaba levando-lhe à ruína e ao exílio.

O regime de Idi Amim, polêmicas à parte, não foi de caráter reformista. Apesar de suas empreitadas tidas como revolucionárias, não conseguiu criar medidas econômicas que pudessem garantir uma fruição econômica africanizada. Ainda podemos mencionar que as piores violações de direitos civis da história do país deram-se no governo de Amim (ELAIGWU; MAZRUI, 2010).

O cenário social histórico resultante das políticas nacionais de Amim soa tão hediondo quanto as atrocidades delatadas pela IC sobre as ações do terrorista Joseph Kony e seu exército de civis rebeldes, o LRA, na Uganda contemporânea. Na época de Amim, não houve punições pelas práticas de genocídio; sequer uma intervenção de âmbito internacional para a crise social na qual se encontravam os cidadãos daquele país. A gestão de Amim servia como um freio ao avanço do comunismo na África, sendo estrategicamente pertinente, naquela época, as políticas estadunidenses anticomunistas21.

Figura 4 – Milton Obote

Fonte: www.cbv.ns.ca

      

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Após a deposição de Amim, Obote retoma ao poder. Em 1981, um novo grupo de oposição política é conformado sob a liderança de Yoweri Museveni, o National Resistance Army (NRA). Obote, ao contrário de Amim, demonstrava preocupação com sua imagem perante grupos internacionais. Todavia, seu regime não se mostrou muito diferente do de Amim. O descontentamento civil era grande; as detenções pela polícia e as desaparições de indivíduos continuaram. Estima-se que tenham ocorrido mais de 500 mil mortes de civis pelas forças militares sob a tutela de seu regime político (ROWE, 1992).

Conforme esse autor, em 1985, Obote foi deposto sob novo golpe militar. Como resultado, o general Tito Lutwa Okello governou por cerca de um ano. Nesse período, aconteceu a guerra civil do exército de Okello contra o NRA, de Museveni. Este, após obter amplo apoio da população local, tomou Kampala. Okello e seus soldados, por sua vez, fugiram para Acholi, sua base étnica, ao norte de Uganda. Museveni, após a empreitada militar contra Okello, assumiu a presidência de Uganda em 1986.

Figura 5 – Yoweri Museveni

Fonte: www.iipt.org

A gestão de Museveni perdura até hoje, após nova vitória na última eleição presidencial de 2011. Para Oloka-Onyango (2004), ele é o primeiro presidente de Uganda que integrou uma nova geração de líderes nacionais na África, que, apesar de se submeterem a processos eleitorais democráticos, ainda reinam sob o monopólio de um único partido ou movimento e impõem seu poder por meio de estratégias coercitivas.

  66 A situação social e política atual de Uganda é bastante problemática; e ainda exibe as cicatrizes produzidas pelo histórico de colonialismo britânico e o cenário de desordem interno, resultante de diversos conflitos étnicos entre civis e militares que insurgem constantemente no país. O contexto discursivamente forjado no documentário da IC, documentado no Capítulo 5, parece não ser muito diferente das tensões políticas existentes entre as forças do estado ugandense e os grupos civis em um passado recente.