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NUALA O’CONNOR – MISS EMILY

O processo de análise de dados consiste na organização e sistematização dos dados que se vão recolhendo, na procura da compreensão e posterior divulgação do objeto de estudo (Bogdan & Biklen, 1994), ou seja, “a análise e a interpretação são o que permite compreender tudo isto” (Stake, 1995/2009, p. 87).

No início do processo de tratamento e análise dos dados realizamos uma leitura flutuante, isto é, uma leitura global de toda a informação recolhida com os diferentes instrumentos. Como afirma Stake, (1995/2009) “há muita arte e muito processamento intuitivo na busca do significado” (p. 88). A partir da leitura flutuante começam a emergir categorias indutivas (Hamido & César, 2009) e “os padrões surgirão inesperadamente a partir da análise” (Stake, 1995/2009, p. 93). Dito assim, parece quase que falamos de magia. Magia não será, mas algo que se reveste de um cunho muito pessoal, sem dúvida que sim. A perspicácia do investigador e a adequação das opções que toma no curso da investigação interferem na qualidade e riqueza dos dados recolhidos e configuram a análise dos mesmos (Marques da Silva, 2002). Não existem

receitas nem regras para a interpretação de sentidos, apenas orientações (Patton, 1990), pois se cada investigação interpretativa é única, “a aproximação que se faz aos dados, no sentido de os analisar, também é única” (Courela, 2007).

Com diversas leituras sucessivas, as categorias tornam-se mais claras para o investigador. Começam, então, a ser definidas codificações e os dados, recolhidos através dos diferentes instrumentos, são olhados novamente, desta vez tendo em consideração as categorias que começaram a surgir. A quantidade de dados recolhida é, por vezes, massiva, pois “quanto mais o estudo de caso for um estudo de caso intrínseco, mais atenção é necessário prestar aos contextos” (Stake, 1995/2009, p. 80), o que implica uma recolha exaustiva, recorrendo a fontes e a instrumentos diversificados.

Na procura de dar sentido e significado (Bakhtin, 1929/1981) a esses mesmos dados, precisamos de os subdividir em conjuntos mais pequenos, tornando o objeto de estudo mais suscetível de ser analisado. Nas palavras de Stake (1995/2009), “analisar significa, na essência, fraccionar” (p. 87).

Depois desta fase, procuram-se padrões semelhantes e divergentes nos dados recolhidos para cada um dos participantes, em relação a cada uma das categorias indutivas. As categorias de análise não são, portanto, definidas a priori a partir do quadro de referência teórico ou das questões de investigação. Surgem, antes, a partir dos dados recolhidos, pois se os participantes, instrumentos e procedimentos de recolha de dados tiverem sido escolhidos de forma adequada, tendo em conta o problema e objetivos que nortearam o estudo, as categorias indutivas que emergem permitirão responder às questões de investigação.

Com o intuito de organizar as evidências empíricas, é criado um ficheiro eletrónico por categoria, onde são compiladas as diversas citações que a ilustram, retiradas das transcrições resultantes dos diferentes instrumentos de recolha de dados. Concluída esta tarefa, e tendo em vista a produção de uma narrativa (Clandinin & Connelly, 1998), organizam-se as categorias, isto é, define-se a ordem pela qual serão apresentadas no texto (dissertação, tese, ou outro tipo de relato da investigação) de forma a que seja construída uma teia de evidências. Este processo engloba “reduzir o volume de informação, identificar padrões significativos, e construir uma estrutura para comunicar a essência do que os dados revelam” (Patton, 1990, pp. 371-372). Pretende- se que se torne clara a existência de um fio condutor que permita ao leitor caminhar pelos trilhos que o investigador percorreu, sentindo-se uma testemunha dos acontecimentos e vivências relatados.

Ainda antes de se iniciar a construção da narrativa propriamente dita, existem duas tarefas a realizar. A primeira é a revisão das transcrições, que devem ser relidas de forma a evitar que alguma citação significativa fique esquecida ou, nas palavras de Stake (1995/2009), “Para ter a certeza que estava a selecionar tudo o que tinha interesse” (p. 97). A segunda é a seleção das evidências que melhor ilustram cada categoria indutiva (Stake, 1995/2009). Com uma recolha de dados extensa e orientada a partir de um determinado problema, as evidências compiladas para a mesma categoria serão também, em número elevado. Como afirma Stake (1995/2009), “quase de certeza haverá muito mais dados codificados do que será possível analisar. Depois de conseguir um número significativo de boas observações, é importante identificar as melhores e pôr as restantes de lado” (p. 100), caso contrário, acrescenta o mesmo autor, “um estudo de caso de 20 páginas transformar-se-á provavelmente em 50 páginas” (p. 135). A qualidade da redação não é garantida pela extensão da mesma: “Um autor eficaz é aquele que conta o que é necessário e deixa o resto para o leitor” (Stake, 1995/2009, p. 135).

A realização das diferentes etapas de tratamento e análise de dados que descrevemos nos parágrafos anteriores podem parecer mais adaptada ao final da recolha. No entanto, “não existe um momento em particular para o início da análise dos dados. A análise pretende dar significado às primeiras impressões assim como às compilações finais” (Stake, 1995/2009, p. 87). Aliás, alguns instrumentos de recolha incitam à realização simultânea de análise. Por exemplo, os registos feitos no diário de bordo, durante as observações, ou depois de uma entrevista ou conversa informal incluem, frequentemente, “juízos, opiniões, suspeitas, dúvidas, reflexões, interpretações que o investigador acrescenta à mera informação descritiva” (Flores, 1994, p. 34). Deste modo, vamos realizando uma análise preliminar à medida que vamos recolhendo os dados, inferindo os primeiros sentidos e significados (Bakhtin, 1929/1981) e atuando como o “intérprete que regista objectivamente o que está a acontecer, mas que simultaneamente examina o significado e redirecciona a observação para aperfeiçoar ou fundamentar tais significados” (Stake, 1995/2009, p. 24). Portanto, esses processos de recolha e análise de dados devem ocorrer quase em simultâneo, influenciando-se mutuamente. Para Merriam (1988), “a análise de dados é o processo através do qual se dá sentido aos dados recolhidos” (p. 127), pelo que o investigador deverá estar atento e acompanhar de perto todo o desenvolvimento do estudo, de forma a perceber que informações recolheu até ao momento, para assim compreender de que forma estas

podem influenciar a continuação da recolha de evidências empíricas. Assim, cada momento de recolha de dados configura o subsequente, permitindo que o processo se torne progressivamente mais completo e ajustado aos objetivos da investigação.