4.6.5.1. A mãe do Dário
Nascida na região norte, na grande área metropolitana do Porto, frequentou o liceu, concluindo o 6.º ano de escolaridade do ensino básico. Trabalha num setor de atendimento ao público. Aprecia a praia e alguns desportos como atividades de tempos livres e, para além do Dário, o agregado familiar inclui o marido e outra filha, mais nova do que o Dário, que frequenta o ensino secundário.
Desde um primeiro contacto, que teve o Dário como intermediário, mostrou-se algo relutante em encontrar-se connosco. Pareceu-nos uma pessoa reservada, que se sentia algo desconfortável em falar das vivências do filho enquanto surdo e, sobretudo, revelou um profundo desencanto e descrédito em relação à possibilidade de algo poder ser feito para melhorar as condições de aprendizagem (e de vida) do Dário. Protetora do filho, tentou escudá-lo de interações eventualmente hostis ou configuradas por pena, ainda que isso implicasse, por vezes, uma redução do círculo das suas próprias amizades. Pediu para não marcar uma terceira entrevista connosco, alegando não ter nada de novo a acrescentar ao que já tinha dito anteriormente. Assim, de forma muito educada, solicitou que não fosse mais contactada.
4.6.5.2. A mãe do Artur
A mãe do Artur nasceu em Cabo Verde, onde estudou, completando o atual 11.º ano de escolaridade. Ainda em Cabo Verde trabalho na função pública. Atualmente é dona de casa e, nos tempos livres, aprecia a leitura, a costura e a televisão. O agregado familiar é composto por ela, pelo marido, pelo Artur e outro filho, dois anos mais velho que o Artur e que também frequentava o ensino superior, mas numa instituição diferente daquela onde estudava o irmão.
Recebeu-nos em casa, para a realização das entrevistas e questionário, com grande simpatia e hospitalidade. O discurso deu-nos a conhecer uma mãe preocupada, protetora e que, por vezes, se refere ainda ao filho, com mais de 20 anos, como “um menino” ou “uma criança”. Com exceção de algumas dificuldades de agendamento, mostrou-se sempre disponível para contribuir para esta investigação.
4.6.5.3. Amigos e colegas
Durante os anos letivos de 2007/08 e 2008/09 o Dário e o Artur foram colegas de turma. Como tal, os colegas de turma eram comuns. Uma vez que começámos a recolha de dados em 2008/09, não conhecemos a turma do ano letivo anterior e apenas alguns colegas pertenceram aos dois grupos, dadas as restruturações que as disciplinas de opção do 12.º ano de escolaridade implicaram. Assim, apenas podemos apresentar os colegas do Dário e do Artur a partir do ano letivo de 2008/09.
A turma em que os dois estudantes participavam, nesse ano letivo, era constituída por 16 estudantes (nove raparigas e sete rapazes), dos quais 12 apresentavam a idade esperada para o respetivo ano de escolaridade e quatro contavam com, pelo
menos, um ano de retenção. Deste grupo, apenas menos de metade haviam sido colegas em anos anteriores. A professora de Matemática desse ano letivo, a Mariana, referiu-se à turma como sendo simpática e sossegada e, de acordo com dados recolhidos em atas de conselho de turma, complementados por outros documentos e observação, podemos inferir que não existia nenhum estudante da turma que vivesse em situação de pobreza extrema.
Quadro 2 – Codificação dos participantes
PARTICIPANTE CODIFICAÇÃO
Dário D
Artur A
Mãe do Dário MD
Mãe do Artur MA
1.ª professora de Matemática do 12.º ano – Mariana – do Dário e do Artur PM1
2.º professor de Matemática do 12.º ano – Ivo – do Dário PM2
1.º professor do domínio da Matemática do ensino superior do Artur PA1
2.ª professora do domínio da Matemática do ensino superior do Artur PA2
3.ª professora do domínio da Matemática do ensino superior do Artur PA3
4.ª professora do domínio da Matemática do ensino superior do Artur PA4
5.º professor do domínio da Matemática do ensino superior do Artur PA5
1.º professor do domínio da Matemática do ensino superior do Dário PD1
2.ª professora do domínio da Matemática do ensino superior do Dário PD2
3.ª professora do domínio da Matemática do ensino superior do Dário PD3
Coordenador do Curso frequentado pelo Dário CCD
1.ª psicóloga da instituição de ensino superior frequentada pelo Artur PsiA1
2.ª psicóloga da instituição de ensino superior frequentada pelo Artur PsiA2
1.ª professora de Educação Especial do ensino secundário do Dário e do Artur PEE1
2.ª professora de Educação Especial do ensino secundário do Dário PEE2
1.º colega do Ensino Secundário do Dário e do Artur CSecDA1
...
1.º colega do Ensino Secundário do Dário CSecD1
...
1.ª colega do Ensino Superior do Artur CSupA1
2.ª colega do Ensino Superior do Artur CSupA2
Investigadora Inv
No ano letivo seguinte, o Dário encontrava-se, como já referimos, a repetir a disciplina de Matemática A do 12.º ano de escolaridade, participando, por isso, numa nova turma. Este grupo era inicialmente constituído por 23 estudantes, dos quais 17 eram raparigas e seis eram rapazes. Entretanto alguns estudantes anularam a matrícula na disciplina que partilhavam com o Dário. No final do ano letivo, o grupo inscrito a Matemática A era composto por 19 estudantes, dos quais 16 eram raparigas e três eram rapazes. Destes, apenas uma estudante não conseguiu obter uma classificação interna suficiente para ser admitida a exame. Dos 18 admitidos a exame, apenas uma estudante
alcançou uma classificação no exame final nacional que não lhe permitiu obter aprovação na disciplina de Matemática A.
Relativamente ao Artur, entrevistámos também duas amigas da instituição de ensino superior. As duas estudantes foram suas colegas no 1.º ano em que frequentou o ensino superior (2009/10). As entrevistas realizaram-se já no decorrer do 2.º semestre do 2.º ano em que o Artur frequentava o ensino superior (2010/11). Apesar de já não partilharem a mesma turma, a amizade mantinha-se e continuavam a encontrar-se em momentos livres comuns, sendo frequente, por exemplo, almoçarem juntos.
Devido ao elevado número de participantes incluídos nesta investigação, recorremos a uma codificação para cada um deles (ver Quadro 2), com a qual pretendemos tornar mais clara a leitura desta tese.
4.6.6. As escolas
4.6.6.1. A escola secundária
A escola secundária frequentada pelo Dário e pelo Artur localiza-se nos arredores de Lisboa. Com mais de 20 anos de existência, começou inicialmente por receber apenas alunos do 3.º ciclo do ensino básico. Progressivamente, as infraestruturas do parque escolar foram sendo aumentadas e a escola passou, também, a compreender o ensino secundário e cursos noturnos. Atualmente, é uma escola secundária com 3.º ciclo do ensino básico, que acolhe mais de 1000 estudantes, aos quais disponibiliza serviços como: biblioteca; papelaria; bar; refeitório; reprografia; sala do aluno; centro de recursos; serviço de psicologia e orientação e unidade de inserção na vida ativa. As aulas, bem como os serviços indicados, distribuem-se por oito pavilhões: seis com dois pisos, um outro, mais pequeno, com quatro salas de aula, e um pavilhão gimnodesportivo, cuja construção e usufruto são partilhados com a câmara municipal.
Ainda que a escola receba estudantes do 7.º ao 12.º anos de escolaridade, tanto em 2008/09 como em 2009/10, cerca de 80% das turmas formadas na escola eram do ensino secundário.
4.6.6.2. As instituições de ensino superior frequentadas pelo Dário e pelo Artur Em 2009/10 o Artur ingressou no ensino superior, mais especificamente numa instituição pública da área da grande Lisboa. No início do ano letivo de 2010/11 foi a vez de o Dário entrar para uma instituição de ensino superir, também pública, da grande
Lisboa, mas diferente daquela que frequentava o Artur. Dada a redução deste meio e porque queremos preservar o anonimato, tanto dos dois estudantes como das instituições por eles frequentadas, os detalhes a incluir nesta descrição não poderão ser muito alargados (tal como aconteceu com a apresentação dos professores do ensino superior). Poderemos apenas acrescentar que estas são instituições com uma oferta diversificada de cursos, que inclui licenciaturas e mestrados integrados adequados para a continuação do percurso académico para quem frequentou, no ensino secundário, o curso Científico-Humanístico de Ciências e Tecnologias, como é o caso do Dário e do Artur.