5. DRØFTING
5.1 I NTRODUKSJON
Se o interesse não é inato e o reconhecimento é uma força motriz no processo de especificação da libido, portanto da definição dos diferentes interesses e investimentos, conforme já mencionado, o gosto apresenta-se como a forma por excelência do esquecimento do social e configura-se como elemento central nas escolhas feitas pelos indivíduos e pelos grupos sociais, distinguindo-os entre si.
O gosto, categoria explorada por Bourdieu, sobretudo, no livro A Distinção, para desvelar o padrão de dominação simbólica de classes no capitalismo avançado, é – ao contrário do princípio Kantiano e do senso comum, que o percebem como qualidade inata do indivíduo – socialmente construído e possui uma estreita relação com a classe social. Mais precisamente, o gosto – ou as preferências manifestadas por meio das práticas culturais e de consumo – é o produto dos condicionamentos associados a uma classe ou fração de classe, a expressão de um feixe de condições específicas de socialização.
Contra la ideologia carismática que considera los gustos en materia de cultura legítima como un don de la naturaleza, la observación científica muestra que las necesidades culturales son producto de la educación. (Bourdieu, 2013, p. 231)
O gosto, seja em suas manifestações artísticas, seja em suas manifestações cotidianas (em matéria de sabores de comida, música, literatura, decoração, esportes, lazer, roupas, turismo, etc.), é o princípio da distinção nas sociedades modernas (para além do fator econômico), sendo construído a partir da familiaridade dos indivíduos e dos grupos sociais com a cultura legítima. “Cultura tornada natureza, ou seja, incorporada, classe feita corpo, o gosto contribui para fazer o corpo de classe.” (Bourdieu, 2007b, p. 179).
Nesse sentido, o julgamento estético produz e reproduz distinções entre indivíduos e classes sociais legitimando e naturalizando o acesso privilegiado das classes dominantes a bens e recursos materiais e simbólicos escassos. É na história das experiências de vida dos grupos e dos indivíduos que se pode apreender a composição de gosto e compreender as vantagens e desvantagens materiais e simbólicas que assumem.
A disposição estética que o agente adquire no longo processo de formação do gosto como elemento de distinção de classe não se liga apenas a um julgamento estético, mas também a uma dimensão moral, a um estilo de vida gerado por uma visão de mundo cultivada como universal. Tal disposição estética é construída a partir da separação entre forma e função, da rejeição da subordinação da arte e demais manifestações às funções da vida, de um
apego maior à representação do que à própria coisa representada. Ela consiste em: uma capacidade generalizada de neutralizar as urgências habituais e suspender as finalidades práticas; uma inclinação e aptidão duradouras para uma prática sem função prática, que só consegue se constituir em uma experiência do mundo desembaraçada da urgência; uma prática de atividades que têm suas finalidades em si mesmas (como, por exemplo, os exercícios escolares ou a contemplação de obras de arte). Em outras palavras, ela pressupõe o distanciamento ao mundo, que é o princípio da experiência burguesa do mundo (Bourdieu 2007b, p. 55).
A estética, capacidade de abstrair ao concreto, às necessidades e de distanciar-se (enraizada num ethos do distanciamento), opõe-se, aqui, à ética, ligada aos sentidos, às sensações, emoções, julgamento (gosto porque é bonito, não gosto porque é feio ou vai contra padrões morais), e extrapola o âmbito das artes sendo incorporada em forma de disposição constitutiva do habitus.
Se é demasiado evidente que, pela arte, a disposição estética recebe seu terreno por excelência, ocorre que, em qualquer campo da prática, é possível se afirmar a intenção de submeter as necessidades e as pulsões primárias ao requinte e à sublimação; além disso, em todos os campos, a estilização da vida, ou seja, o primado conferido à forma em relação à função, à maneira em relação à matéria, produz os mesmos efeitos. E nada determina mais a classe e é mais distintivo, mais distinto, que a capacidade de construir, esteticamente, objetos quaisquer, até mesmo “vulgares” (por serem apropriados, sobretudo, para fins estéticos, pelo “vulgar”) ou a aptidão para aplicar os princípios de uma estética “pura” nas escolhas mais comuns da existência comum – por exemplo, em matéria de cardápio, vestuário ou decoração da casa – por uma completa inversão da disposição popular que anexa a estética à ética (Bourdieu, 2007b, p. 13).
As formas de se comportar, de falar, de se vestir, de cortar o cabelo, de cultivar lazeres, constituem-se, pois, marcadores distintivos que criam, por identificação de habitus, solidariedades de um lado e preconceitos de outro. Ou seja, o gosto é um código socialmente produzido capaz de identificar e diferenciar grupos, é a aversão, a intolerância às preferências dos outros. E é a partir da definição dos critérios e esquemas de classificação social, ligados aos julgamentos de gostos e preferências cotidianas, tidos como legítimos, que são construídas, segundo o autor, todas as formas de legitimação das desigualdades sociais.
Esta elaboração sobre o gosto distintivo, empreendida por Pierre Bourdieu nos idos da década de 1970 sobre a sociedade francesa de então, é trazida para este estudo porque oferece a possibilidade não somente de verificar a homogeneidade das disposições associadas a uma
posição e ao seu ajuste por meio da trajetória social, mas também de buscar identificar, dentro de uma mesma fatia social, como se distinguem as práticas culturais e, portanto, como a adesão estética a certo estilo de vida pode interferir na relação do aluno com o conhecimento escolar ou definir sua posição no jogo escolar.
A figura exposta abaixo representa um esforço para sintetizar algumas importantes ideias do autor, em especial no que tange ao mecanismo de formação da disposição estética. Sua elaboração tem o objetivo de permitir ao leitor maior clareza na apreensão dos conceitos e, consequentemente, no acompanhamento da fase posterior, de análise dos dados da pesquisa. Trata-se, portanto, de um mero quadro esquemático ilustrativo que não deve ser tomado de forma isolada, já que uma disposição herdada só pode ser compreendida completamente quando analisada no conjunto de disposições constitutivas do habitus, em ação dentro de um campo, e num dado momento da trajetória do indivíduo e do grupo:
Disposição Estética
Gosto Aversão Distinção
Esquemas de Apreciação
Negação da Fruição Sublimação Denegação do Mundo
/do Mundano Social
Recalque dos Prazeres Imediatos
Base de Valores
Ethos Familiar – CRENÇA
Condições Sociais de Existência Ethos de Classe
Figura 1 – Modelo conceitual – Formação da Disposição Estética Modo de Apreciar
Na leitura do conteúdo que compõe a figura, parte-se da porção inferior, da base de valores que constituem o ethos familiar – por sua vez engendrado nas condições sociais de existência e no ethos de classe – rumo à formação de uma disposição duradoura que comporá
o habitus, sendo responsável pelos modos de apreciar que se traduzirão em preferências e escolhas de determinadas práticas em detrimento de outras. O êxito na constituição da disposição estética passa necessariamente pelo recalque dos apetites imediatos que resulta na sublimação de tudo o que é da ordem do mundano, produzindo esquemas de apreciação pertinentes à definição de gostos em total acordo com a cultura legítima (sendo, portanto, elementos de distinção na estrutura social). A contramão, indicada nos sentidos das setas, é perfeitamente aceitável, uma vez que a disposição estética exerce, ao mesmo tempo em que é estruturada, papel estruturante no processo de sua própria formação e na constituição (reforçando ou modificando) do ethos familiar e de classe.
Ao se dedicar à tarefa de fazer compreender o gosto como produto da educação e, portanto, ligado à condição social, Bourdieu ressalta a impossibilidade de pensar um exercício puro da faculdade de sentir, um uso transcendental da sensibilidade fora das condições históricas e sociais de possibilidade. Para ele, o prazer estético puro, a estética de Kant, é privilégio daqueles que têm acesso às condições econômicas e sociais nas quais a disposição “pura” pode se constituir de maneira duradoura. Bourdieu afirma estar pronto a admitir que a estética de Kant seja verdadeira, mas apenas a título de fenomenologia da experiência estética de todos os homens e mulheres que são produto da skholè (Bourdieu, 2011, p. 208 - 209).
O mesmo raciocínio vale para todas as possibilidades antropológicas pensadas como (potencialmente) universais, como a aptidão de fazer um raciocínio lógico complexo ou a capacidade de realizar um ato moral perfeitamente rigoroso (que serão destacadas logo adiante): essas aptidões ou essas capacidades permanecem privilégio de alguns, porque suas potencialidades antropológicas só encontram plena realização em certas condições econômicas e sociais; ao passo que, ao inverso, há condições econômicas e sociais nas quais elas são como que anuladas, atrofiadas (Bourdieu, 2011, p. 210).