4. R ESULTS : D EMENTIA
4.1 Literature search results
Em seu último livro – A crise das ciências europeias e a fenomenologia transcendental - Husserl defendia a tese de que Galileu46 tomava o “ser verdadeiro pelo
método” (HUSSERL, 2012, §9I p.43), ou seja, confundia o método matemático e sua aplicabilidade ao mundo com as coisas em-si mesmas tomando-as em sua realidade como entidades matemáticas. Isso se torna claro quando pensamos neste famoso trecho do Ensaiador de Galileu:
A filosofia está escrita neste grandíssimo livro que continuamente nos está aberto diante dos olhos (eu digo o universo), mas não se pode entender se primeiro não se aprende a entender a língua e conhecer os caracteres, com os quais está escrito. Ele está escrito em língua matemática, e os caracteres são triângulos, círculos e outras figuras geométricas, meios sem os quais é impossível entender humanamente qualquer palavra; sem estes vaga–se em vão por um escuro labirinto (GALILEU, 1928–1938, VI, p. 232).
Galileu distingue entre dois tipos de qualidades que caracterizam os objetos e, por conseguinte, o próprio mundo. Por qualidades primárias, o físico italiano nomeia aquelas propriedades que são completamente inseparáveis da ideia de um corpo extenso, ou seja, são aquelas qualidades que se encontram sempre presentes na matéria e que em um sentido forte a definem. Essas qualidades são geométricas, tais como: solidez, extensão, figura, volume, textura e mobilidade. Já aquilo que Galileu chama de qualidades secundárias são propriedades que os objetos possuem com o poder de produzir na alma humana as mais diversas percepções e sensações. Essas qualidades seriam decorrentes das qualidades primárias do objeto (aquilo que realmente as define) e apenas existiriam a partir da relação com os sentidos e a mente do homem. Essas qualidades secundárias são as cores, os sons, os paladares e cheiros, em suma, sensações subjetivas. Temos, portanto, uma cisão importante: por um lado, a objetividade dos corpos materiais em suas qualidades como extensão; por outro, as sensações e dados empíricos produzidos na relação com o sujeito. A partir da distinção entre qualidades primárias e secundárias, os conteúdos perceptivos apenas existiriam na “alma/mente” humana e em seu contato com o mundo objetivo definido pelas qualidades primárias. As percepções não passariam de dados absolutamente subjetivos que em nada tocam a realidade dos objetos em si, realidade apenas apreensível a partir das noções advindas da geometrização e
46 Para essa questão em detalhes, ver: SACRINI (2009) e (2004). Sigo aqui alguns de seus apontamentos,
além de anotações pessoais de um curso ministrado por Carlos Alberto R. de Moura, na USP no ano de 2010 sobre a filosofia de Husserl e sua crítica a Galileu.
matematização da extensão e do espaço e de uma concepção mecanicista das relações extensas. Abre-se a temática comum ao pensamento clássico racionalista de interpretar as afecções sensíveis como imaginação e erro, em contraposição a segurança clara e distinta do entendimento. Husserl defende que se a estrutura mecanicista do mundo é passível de conhecimento apenas através da utilização de tal paradigma matemático, logo, será preciso postular que há entre o método e o mundo uma certa identidade. O pensamento clássico tem sua verdade fundada na adequação: "adaequatio rei et intellectus.” Husserl criticará de forma contundente a “objetivação do mundo” posto em marcha a partir de então chegando até o que aos seus olhos constituía o coração da crise de valores da cultura europeia: o insuportável reducionismo cientificista da modernidade. Lebrun percebe que seria possível ler o papel de Kant em As palavras e as coisas como um argumento que desmentiria o julgamento apressado de Husserl (LEBRUN, 1989, p.40). Pois o que este não pode ver é exatamente a descontinuidade constituinte entre duas epistemes diferentes. Exatamente por focar suas análises tendo como fundamento o mundo da vida, Husserl não coloca em questão o estrato mais profundo do saber clássico – a máthêsis – nem sua condição de possibilidade: a capacidade de representação da linguagem. Com isso, ele acaba criando uma história linear dos efeitos de superfície (mecanicismo e matematização da natureza). É por isso que ele poderá colocar Kant na mesma linha de pensamento clássico fundado na representação: “a problemática kantiana está precisamente sobre o mesmo solo que o do racionalismo que vai de Descartes a Wolff, passando por Leibniz.” (HUSSERL, 2012, §25 p.79) A arqueologia, ao contrário, vê nos textos de Kant o signo do fechamento da episteme clássica e o prenúncio da modernidade. Kant é aquele que colocara em questão a certeza que os metafísicos tinham depositado na matemática para desenvolver deduções no campo especulativo, por exemplo, Descartes, ou Leibniz. Mas a física matemática não teria necessidade nenhuma de “se interrogar sobre as origens dos conceitos de espaço e tempo e sobre os conceitos puros do entendimento: a transparência do objeto à representação lhes era garantida.” (LEBRUN, 1989, p.40) Logo, Galileu não teria como não ser um “objetivista” em seu tempo, afinal, ele se movia sobre o solo da representação e da adequatio, solo que se funda em uma forma histórica do ser da linguagem em que a representação se dá plenamente a partir dela. Foucault, porém, lembra que com Kant algo de diferente começa a acontecer. A partir de então a representação perde plenos poderes e as análises de ordens através da álgebra e da taxonomia são substituídas por uma analítica, “isto é uma reflexão sobre as condições da ordem, cujo lugar é fora da tábula
de identidades e diferenças.” (LEBRUN, 1989, p.41) Idealismo e realismo, racionalismo e empirismo, serão postos em xeque a partir de um pensamento crítico sobre as condições de possibilidade de uma representação: “a representação perde seu poder de fundar, a partir de si mesma, no seu desdobramento próprio e pelo jogo que a reduplica sobre si, os liames que podem unir seus diversos elementos.” (FOUCAULT, 2007, p.328)
Logo, a arqueologia revela uma ruptura na história que a continuidade pressuposta pelo mundo-da-vida não pode perceber: em 66 é no ser da linguagem que Foucault marca uma descontinuidade que ao afetar diretamente a forma como falamos sobre as coisas, reconfigura necessariamente a forma como vemos as coisas, seus modos de doação. Lição do estruturalismo, a linguagem, quando analisada em sua sistematicidade interna e quando estudada dentro de um quadro comparativo, revela transformações que não encontram sua condição em uma experiência originária, pelo contrário, alteram profundamente a própria forma como o mundo nos é apresentado. Com As palavras e as coisas, Foucault afastava-se definitivamente de qualquer perspectiva fundacionista em que caberia à filosofia recuperar esta experiência autêntica sobre a qual os sistemas de conhecimento – linguísticos e simbólicos – são erigidos.
Contudo, como sempre em Foucault, as coisas não são tão simples. Pois, tal primazia do discursivo é ao mesmo tempo relativizada por sua arqueologia e seus escritos sobre literatura. Isso porque quando se trata das “experiências limites”, surge uma dimensão da experiência que não pode ser plenamente determinada pelo discurso. Pelo contrário, ao resistir à apreensão plena, acaba por forçá-lo para além de suas estruturas.