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NPIPE and the earlier Planck releases

DEUX

Neste primeiro subcapítulo apresento para o leitor um pouco da história da Dos à Deux a partir das informações organizadas na página oficial da companhia: COMPAGNIE

DOS À DEUX THÉÂTRE GESTUEL. Disponível em: <http://www.dosadeux.com/?lang=fr>. Acesso em: 03 abr. 2013 a 10 fev. 2015. Esta possui três versões: na língua inglesa, na francesa e na portuguesa (Brasil), com diferenças entre si. Por exemplo: alguns dados de um espetáculo aparecem em uma versão e não aparecem em outra. Entretanto, mais do que identificar onde aparecem os erros e os dados incompletos, procurei somá-los e apresentá-los aqui, após uma detalhada revisão de texto que fiz com Ribeiro e Curti, no dia vinte de janeiro de 2015, via skype. Nesta revisão, encarada por mim

como um caderno de notas, visto que a mesma não foi gravada, os diretores confirmaram cada detalhe que recolhi e trouxeram novos dados. Por isso, já adianto para o leitor que, nas próximas páginas, existem também informações que não aparecem em nenhuma das três versões. Quando faço referência a tais notas, estas serão apresentadas para o leitor no seguinte formato: [NOTAS, 2015]. Isto porque os materiais de pesquisa de campo que constam nesta dissertação não foram publicados. Esses materiais são inéditos.

As imagens apresentadas neste subcapítulo foram retiradas da página oficial da Dos à Deux, versão portuguesa e francesa, e da página oficial dos diretores na rede social

facebook: CIE. DOS À DEUX CURTI RIBEIRO. Disponível em: <https://www.facebook.com/ciedosadeux?fref=photo>. Acesso em: 07 jun. 2014. Alguns trechos da entrevista que realizei com Ribeiro no dia dois de dezembro de 2013, no Casarão, também são inseridos aqui. E são apresentados para o leitor da seguinte forma: [ENTREVISTA, 2013]. Esses trechos, destacados do corpo do texto e em fonte menor, referem-se à pesquisa e ao processo de criação dos espetáculos. Os folders daqueles que assisti também foram objetos de consulta:

Fragmentos do desejo, Ausência e Irmãos de sangue. Além disso, acrescento algumas matérias da imprensa por meio das suas respectivas páginas virtuais e trago algumas referências da pesquisa que realizei sobre a Dos à Deux (LUNA, 2012). Assim, inicio o percurso histórico sobre a companhia.

Em meu primeiro trabalho (LUNA, 2012), pude verificar que a Compagnie Dos à Deux foi fundada por Curti e Ribeiro em colaboração com a produtora francesa Nathalie Redant. A sua fundação surgiu como uma consequência da parceria profissional iniciada entre os diretores, no ano de 1997. Essa parceria culminou no espetáculo denominado Dos à

deux, que definiu o nome da companhia. Constatei também que a teatralidade desta une as linguagens da dança e do teatro em todos os seus projetos artísticos – desde o momento em que os

diretores iniciam as pesquisas dos temas que geram as tramas das estórias que levarão para a cena, passando pela execução do seu treinamento diário, até a execução dos seus espetáculos. Ribeiro [NOTAS, 2015] diz que a imbricação dessas duas linguagens possui relação direta com os próprios percursos profissionais individuais dele e de Curti, antes mesmo de se conhecerem. Ambos formaram-se, concomitantemente, nas duas artes. Ele é angolano naturalizado brasileiro. Ingressou no curso de Artes Cênicas e Interpretação da UNIRIO, em 1990. Além da graduação, fez curso técnico em dança contemporânea na Escola de Dança Angel Vianna e sapateado na academia do TAP, de Flávio Salles. Estudou com Silvia Pasello, do Centro Per la

Sperimentazione Teatrale di Pontedera. E também com Maria Pia, Judith Malina, Sérgio Melgaço e Ariane Mnouchkine. Trabalhou com Márcio Vianna, Susanna Kruger, Daniel Herz, Herval Rossano, Fernando Guerreiro, Tizuka Yamasaki e Jean- Luc Courcoult. Mudou-se para a França, em 1993. Formou-se em Estudos Teatrais na Université de la Sorbonne Nouvelle

Paris – III e na Escola de Mímica Corporal Dramática de Paris.

Também na França, participou de oficinas de Steven Wasson e Corine Soum, Denise Namura, Michel Bugdhan, Georges Roiron, Serge Poncelet, Fabrice Dugeid e na companhia Enfin

le jour – Théâtre Danse Buto. Foi ator e preparador corporal da

companhia Théâtre Yunké, de Serge Poncelet, ator e bailarino da Les Odes Bleues, de Mercedes Chanquia-Aguirre. Atuou sob a direção de Eric Bouvoun, Catherine Dubois, Annie Schildler e Josef Nadj.

Já Curti é brasileiro. Formou-se como ator e bailarino nas escolas paulistas Jogo Estúdio e Vento Forte, entre os anos de 1983 e 1990. Trabalhou no teatro sob a direção de Eugênia Teresa e no cinema com Hilda Machado e Renato Tapajós. Mudou-se para a França em 1990, onde realizou parcerias no cinema com Olivier Fornut e Jöel Daguerre. Atuou na companhia de teatro Le G.R.A.L., dirigidos por Odile Michel e

Patrick Olivier e trabalhou em todas as criações da companhia de dança-teatro À Fleur de Peau, de Denise Namura e Michel Bugdhan, de 1992 a 1998. Curti também teve experiência com o teatro de rua da companhia norueguesa Cirka Teatar, com direção de Anne Marit Saether. Criou e interpretou o espetáculo Plusieurs Essais sur la Solitude.

Os diretores [NOTAS, 2015] afirmam que as motivações que os levaram a criar cada um dos dez espetáculos do repertório da companhia foram as mais diversas, mas que todos os processos criativos possuem como gênese um texto escrito por eles mesmos. É a partir deste que constroem os outros elementos cênicos. Afirmam também que, desde o Dos

à deux, possuem uma preocupação estética e lúdica com relação aos objetos cênicos dos seus cenários. Os objetos são manipulados pelos personagens ao longo de cada peça e assim, transformados em novos objetos. Esta característica animada, que brinca com o imaginário do público, é preocupação constante em cada trabalho de criação dos dois artistas.

Atualmente, segundo a página oficial da Compagnie

Dos à Deux (COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE

GESTUEL. Disponível em:

<http://www.dosadeux.com/spip.php?page=page_actu&lang=p t_br>. Acesso em: 10 fev. 2015), três espetáculos estão em cartaz em diferentes lugares do mundo: Ausência, que tem se apresentado no Brasil e na França, o Dos à deux – segundo ato, que tem circulado entre alguns países da América Latina, da Ásia e da Europa, e Irmãos de sangue, que realiza apresentações no Brasil e em alguns países da Europa. Neste espetáculo, Curti e Ribeiro estão no elenco com outros dois atores-dançarinos. Nos outros dois, um (Ausência) é atuado por um ator convidado, e o outro (Dos à deux – segundo ato), que foi remontado para a comemoração dos quinze anos de existência da companhia, tem a atuação de outros dois atores- dançarinos.

Ribeiro, ao falar do primeiro espetáculo que deu nome à companhia, afirma [ENTREVISTA, 2013] que a inspiração em

Esperando Godot trouxe para ele e para Curti

um símbolo muito forte da relação de duo e dessa questão que o Beckett traz da espera, especialmente “enquanto a gente espera o que é que a gente faz?”. Isto fez com que criássemos o espetáculo em torno da dependência física. Além disso, quando escrevemos o Dos à deux o fizemos em didascálias, que falavam justamente sobre a existência da espera. O Dos à

deux são quadros sobre a espera. A dramaturgia do nosso espetáculo destruiu a dramaturgia do Beckett, matamos o Gogo no final e o Didi continua em cima do corpo do outro. Falamos sobre a dependência física até a morte. No espetáculo, a nossa finitude está ligada à terra: você vai morrer e você vai ser o meu chão quando eu morrer e por aí vai.

Foto 125 - André Curti e Artur Ribeiro, no espetáculo

Dos à deux (1997). Créditos: Olivier Redant.

Fonte: COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE GESTUEL Dos à deux.

Disponível em:

<http://www.dosadeux.com/spip.php?article276&lang=pt_br>. Acesso: 07 set. 2014.

25Todas as imagens da presente dissertação são apresentadas sempre da

esquerda para direita e foram alteradas. Nas referências iconográficas constam as dimensões originais.

De acordo com a página da companhia (COMPAGNIE

DOS À DEUX THÉÂTRE GESTUEL. Disponível em: <http://www.dosadeux.com/spip.php?rubrique6&lang=pt_br >. Acesso em: 30 set. 2014), a trama de Dos à deux desvela a relação existente entre dois homens que vivem à espera de

Godot, que nunca chega. Enquanto esperam, eles se protegem, tentam se divertir e criam embates, “se portam, se suportam, ... para dar a impressão que o tempo passa”. O fato é que eles dependem um do outro para realizar qualquer ação.

Foto 2 – Artur Ribeiro e André Curti, no espetáculo

Dos à deux (1997). Créditos: Olivier Redant.

Fonte: COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE GESTUEL. Dos à deux.

Disponível em:

<http://www.dosadeux.com/spip.php?article276&lang=pt_br>. Acesso: 07 set. 2014.

Os diretores [NOTAS, 2015] contam que o Dos à

deux26 fez mais de 450 apresentações em diversos países e em festivais27 de grande importância como o Festival d’Avignon,

na França, em 1999, e o Festival Mindelact, na República do Cabo Verde, em 2000.

Ribeiro [NOTAS, 2015] afirma que, no ano de 1999, ele e Curti começaram a se interessar e a pesquisar sobre a loucura e o confinamento de pessoas. Ainda apresentavam-se com o Dos à deux, mas desejavam um novo espetáculo. Em uma de suas apresentações, realizada em Paris daquele ano, conheceram Madeleine Abassade, responsável pelos eventos culturais do Instituto Psiquiátrico Marcel Rivière, localizado na região de Yvelines (França).

Na página da companhia (COMPAGNIE DOS À DEUX

THÉÂTRE GESTUEL. Disponível em: <http://www.dosadeux.com/spip.php?article24&lang=pt_br>. Acesso em: 30 set. 2014), consta que a pesquisa colaborativa existente entre Curti, Ribeiro e Abassade culminou em uma associação artística entre a Dos à Deux e o Instituto por meio de um programa interministerial chamado Cultura no Hospital. Assim, os diretores passaram a ter acesso e contato direto com os funcionários do Instituto e com os seus pacientes.

Ribeiro [NOTAS, 2015] relata que o resultado do programa gerou alguns trabalhos artísticos, dentre eles: o espetáculo Fulyo, que foi concebido, dirigido e encenado pelos diretores para uma única apresentação, no Festival Dança

26A equipe técnica e artística de Dos à deux foi composta por: Artur Ribeiro

e André Curti (Concepção, encenação, interpretação, cenário e acessórios), Catherine Dubois (Colaboração artística), Charlotte Léo (Figurinos), Raphael Keller (Iluminação), Lionel Dollet (Criação sonora), Nathalie Redant (Produção) e Olivier Redant (Fotos).

27Para ver detalhes das críticas e matérias da imprensa das apresentações e

matérias dos referidos festivais: COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE

GESTUEL. Disponível em:

<http://www.dosadeux.com/spip.php?article148&lang=pt_br>. Acesso em: 30 set. 2014.

Brasil (2000) – RJ. Este encomendou Fulyo para ser apresentado na mesma noite com o Dos à deux. Na época, Curti e Ribeiro consideraram Fulyo como a célula do próximo trabalho da companhia. Mas, após o desenvolvimento do processo criativo, tal célula acabou se transformando em um espetáculo bem diferente: Aux pieds de la lettre.

Além de Fulyo, o espetáculo Je suis bien moi...?foi concebido e dirigido pelos diretores, mas encenado por oito pacientes e três enfermeiras do hospital. A apresentação foi realizada no próprio Instituto Psiquiátrico Marcel Rivière e não foi aberta ao público. Por este motivo, a equipe técnica de

Fulyo e de Je suis bien moi...?, assim como a discriminação das tramas desses dois espetáculos, não aparecem na página oficial da companhia. Os diretores [NOTAS, 2015] destacaram a importância dos mesmos como fonte de pesquisa artística.

Ribeiro [ENTREVISTA, 2013], quando fala sobre Je

suis bien moi...?, afirma que:

Esse foi um trabalho apresentado no instituto psiquiátrico em que fomos pesquisar e foi apresentado pelos pacientes e funcionários do hospital. Com eles e para eles. Não teve continuidade porque era o nosso desejo. Não tínhamos a menor vontade de virarmos pedagogos dentro de hospitais psiquiátricos. Não era essa a nossa vontade. Fomos pesquisar para um trabalho e retornamos o nosso trabalho para eles como uma troca. Não fomos lá explorar e fomos embora. Não. Fomos, ficamos dois anos e meio, trocamos na certeza de que deixamos um pouco de nós e levamos um pouco deles, com certeza, porque foi uma troca.

Na época, também foi feita a produção de um filme sem título, gravado por três meses pelo cineasta Jean-Luc Daniel, que trabalha na equipe técnica francesa da companhia. E, além disso, foi realizada uma residência de pesquisa com dois artistas28 para a criação do espetáculo Aux pieds de la lettre.

Conforme afirma a página da companhia (COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE GESTUEL.

Disponível em: <http://www.dosadeux.com/spip.php?article163&lang=pt_br>. Acesso em: 30 set. 2014), Aux pieds de la lettre retrata dois homens que são escravos de suas próprias imaginações. Um deles possui delírios místicos e jamais desiste da ideia de que o mundo necessita da carta que ele precisa escrever. O outro é vítima de obsessões que o levam a crer que os seus pés estão sempre sujos de poeira e que ele é responsável pelo nascer e pelo pôr do sol. Através do contato existente entre eles, “o corpo de um serve à loucura do outro. Um pé, três pés, cinco mãos, uma cabeça”.

Foto 3 – Artur Ribeiro (Primeiro plano) e André Curti (Segundo Plano), no espetáculo Aux pieds de la lettre (2001). Créditos: Pierre Ruaud.

Fonte: COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE GESTUEL. Aux Pieds de la

lettre Disponível em:

<http://www.dosadeux.com/spip.php?article54&lang=pt_br>. Acesso: 07 set. 2014.

Ainda na página da companhia (COMPAGNIE DOS À

DEUX THÉÂTRE GESTUEL. Disponível em: <http://www.dosadeux.com/spip.php?article34&lang=en>. Acesso em: 30 set. 2014) consta que o cenário desse espetáculo é formado apenas por “uma mesa mágica e de formas burlescas”, que ganha novas configurações conforme os dois personagens a manipulam.

Ribeiro [ENTREVISTA, 2013] diz:

Tudo o que fizemos com essa mesa nos dois anos de pesquisa foi quase infinito. No espetáculo, usamos concretamente apenas dez por cento do que pesquisamos com esse objeto. Ele se tornou um instrumento musical, de tanta coisa que nos dava. Aliás, esta é uma característica nossa: os nossos objetos cênicos viram prolongamentos dos nossos corpos.

Ao ver o vídeo de Aux pieds de la lettre, percebi que a mesa, tomada como um prolongamento dos corpos dos personagens, quando reconfigurada, acabava criando novas possibilidades de contato entre eles que transformava as suas movimentações, ritmos corporais e emoções. Tais mudanças oscilavam as cenas do espetáculo “entre a tragédia e a comédia, (...) entre a ternura e os risos inesperados”. (COMPAGNIE

DOS À DEUX THÉÂTRE GESTUEL. Disponível em: <http://www.dosadeux.com/spip.php?article163&lang=pt_br> . Acesso em: 30 set. 2014).

Foto 4 – André Curti e Artur Ribeiro, no espetáculo Aux

pieds de la lettre (2001). Créditos: Olivier Redant.

Fonte: COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE GESTUEL. Aux Pieds de la

lettre. Disponível em:

<http://www.dosadeux.com/spip.php?article54&lang=pt_br>. Acesso: 07 set. 2014.

Ribeiro [NOTAS, 2015] diz que Aux pieds de la lettre29 ficou em cartaz até 2010 e, assim como o Dos à deux, também se apresentou em diversos países. Foi premiado como Melhor

espetáculo no Festival Mindelact e recebeu o Prêmio do júri no

Kosovo in Fest, em Prístina, ambos em 200530.

29A equipe técnica e artística desse espetáculo teve como integrantes: André

Curti e Artur Ribeiro (Criação, direção e interpretação), Michel Musseau (Criação musical original), Charlotte Léo (Figurinos), Raphael Keller (Iluminação), Nicolas Cesbron (Criação objeto-cenário) e Maria Adélia (Visagismo e acessórios), Nathalie Redant (Produção), Pierre Ruaud e Olivier Redant (Fotos).

30Para ver detalhes das críticas e matérias da imprensa das apresentações e

matérias dos referidos festivais: COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE

Os diretores [NOTAS, 2015] apontam que a partir desse espetáculo, a companhia passou a receber a coprodução e parcerias de diversos teatros franceses que possibilitaram que a mesma conseguisse desenvolver o seu universo artístico com infraestrutura espacial e aporte técnico.

A página da companhia (COMPAGNIE DOS À DEUX

THÉÂTRE GESTUEL. Disponível em: <http://www.dosadeux.com/spip.php?article35&lang=pt_br>. Acesso em: 02 out. 2014) menciona que o projeto seguinte de Curti e Ribeiro foi aberto para artistas de outras áreas, que não apenas do teatro e da dança, e teve como referência basal o texto Le cercle, de Matéi Visniec. O trabalho final resultou em um espetáculo itinerante teatral e plástico. Ribeiro [NOTAS, 2015] diz que este foi denominado La nuit des cercles31. Diz também que as fotos e vídeos deste espetáculo foram todas perdidas por acidente.

O diretor [ENTREVISTA, 2013] relata que ele e Curti trabalharam em La nuit des cercles

com nove intérpretes: circenses, músicos, etc. Era uma instalação em que o público percorria o teatro inteiro. Ocupamos o teatro todo. Era um espetáculo criado para aquele teatro, para aquele banheiro, escada, camarim, etc. Não transportamos esse espetáculo para outro teatro. (...). Foi nessa época, acho, que começou a surgir a nossa vontade de companhia. Não queríamos mais trabalhar os corpos para um espetáculo específico, mas para simplesmente trabalharmos.

Além disso, os diretores afirmam na página da Dos à

Deux (COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE GESTUEL.

<http://www.dosadeux.com/spip.php?article446&lang=pt_br>. Acesso em: 02 out. 2014.

31A equipe técnica e artística dessa peça foi formada por: André Curti e

Artur Ribeiro (Concepção, direção e interpretação), Eros Galvão, Michel Costiou, Charlotte Leo (Interpretação) e outros artistas que o diretor não citou na ocasião.

Disponível em: <http://www.dosadeux.com/spip.php?article81&lang=pt_br>. Acesso em: 10 out. 2014), que as inúmeras turnês que fizeram para países como Japão, Indonésia, Brasil, Tailândia, Rússia, países africanos e europeus com os espetáculos criados até aquele momento, trouxeram diferentes tipos de experiências. Estas permitiram intercâmbios culturais e possibilitaram que Curti e Ribeiro tivessem novas percepções sobre indivíduos imigrantes como eles. Tais experiências e percepções transformaram os seus corpos, as suas memórias, e desencadearam questionamentos sobre a identidade e reflexões sobre a saudade. Esta, que, para os diretores, traduz perfeitamente o sentimento da falta, “uma vez que tudo foi deixado para trás” (COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE

GESTUEL. Disponível em:

<http://www.dosadeux.com/spip.php?article81&lang=pt_br>. Acesso em: 10 out. 2014).

Assim, ambos desenvolveram o novo espetáculo da Dos

à Deux, cujo tema voltava-se para as pessoas que vivem em outro país que não o seu de origem. Pessoas que imigram pela aventura ou por conflitos ambientais e sociopolíticos como o exílio, por exemplo. Para realizar tal intenção, decidiram abandonar a estrutura do duo “para explorar um trio ou, mais exatamente, um quarteto – peça gestual para três atores físicos e uma marionete” (COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE

GESTUEL. Disponível em:

<http://www.dosadeux.com/spip.php?article81&lang=pt_br>. Acesso em: 10 out. 2014).

Ribeiro [NOTAS, 2015] conta que ele e Curti realizaram audições com pessoas vindas de várias localidades do mundo e escolheram a artista japonesa Lakko Okino para compor o trio. Em entrevista [2013], o diretor lembra:

Para criarmos a arquitetura triangular, sentimos que precisaríamos de uma conexão costurada entre os três corpos o tempo inteiro [a dependência física], mesmo que os corpos não estivessem em contato fisicamente. E,

principalmente porque a terceira pessoa, a Lakko, quando entrou na companhia já havia entre mim e o André, seis anos de trabalho juntos. Para ela, foi um trabalho de titã. Especialmente também, porque ela não falava francês, inglês nem português para podermos nos comunicar verbalmente com ela. (...). Foi uma experiência muito louca porque nada do que fizemos e construímos passou pelo intelectual. A própria chegada da Lakko [na audição] foi uma metáfora da trama do espetáculo. Isso fez com que nós não tivéssemos dúvidas de que seria ela a atriz escolhida para fazer o nosso espetáculo, nos apaixonamos por ela cenicamente. O fato de ela não falar nenhuma das línguas que nós falamos, de não possuir ponte, qualquer ponto de equilíbrio, qualquer link cultural com a nossa cultura e com a cultura francesa fez com que nos apaixonássemos também pelo jogo corporal dessa atriz. A Lakko foi cavando o seu próprio espaço. Nós não falávamos em nenhuma língua com ela, inventamos códigos, e nos conectamos tanto, que