Multipole moment,
8. CMB Solar dipole
A esfera afetiva que surgiu naquele instante, entre mim e os diretores, suspendeu o interior do meu silêncio61, tornando-se alimento para os meus sonhos62 mudos. Experimentei devaneios oníricos em inspirações imagéticas incontáveis, que percorreram o vermelho e o azul da minha pele, penetraram em meus órgãos, imbuindo os seus tecidos mais intocáveis. Mergulhei, sem subterfúgios, em apneias desempalavradas63.
61Ou, nas palavras de Fonseca: “silêncio interior, surgido quando o diálogo
interior se cala, o que dá origem a uma forma muito especial de silêncio. Trata-se do silenciamento do discursivo” (1999, p. 91).
62Para Fonseca (1999, p. 24): “O sonho, forma singular e única de
expressão, enraíza-se na poética. Já que vida e poética se encontram, o sonho enraíza-se, também, na vida”.
63“Dos relacionamentos que tenho, o mais perene terá de ser com a língua.
Desde as balbúcias ininteligíveis do tempo em que flutuava, indefeso, já havia sido enfeitiçado. Magia que se entumecia conforme passavam os anos. Assintética, assimétrica e sinestésica paixão que me escorre dos dedos quando água é água - e tem acento. Que já me invadia os ouvidos lá na crisálida, quando água era ar e palavra era nada. Que é imagem, mesmo quando incolor, inodora e amorfa e que desdobrou-se em sentidos (sensores) quando palavra era qualquer coisa, água até, mesmo que escrita em equívocos de sentidos (significados) ou de sentido (orientação). Liquefazia-me escrevendo, canhestra e canhotamente. Fui me afeiçoando à língua. E a língua aperfeiçoando-se a mim. A língua requer atenção, exercício e dedicação. Tive medo. Por muito tempo tive medo, até perdê-
Eram os meus olhos a transbordarem as águas salubres do meu corpo e o meu coração a descompassar o ritmo diafragmático dos ventos que existem em mim. A ausência do peso das vísceras resfriava a barriga em um gélido ar quase glacial. No mesmo contratempo, um vulcão brotava da base para o atlas64 – quase incorpóreo – da minha coluna, fazendo escorrer a lava mais derretida sobre as dobras65 da minha pele. Declive penetrante que preencheu as linhas de expressão e impressão dos pés e das mãos. Debrucei-me sobre a terra lavada que se fez ali, e meu rosto, enfeitado em montanhas de rubor, desnudou da boca, dentes, língua, sorrisos, sussurros e salivas suculentas, induzidas66 e refletidasde Curti e Ribeiro. Incandescente, desatei a expirar alteridades com tamanha alacridade e autopoiese67 como quem experimenta múltiplas formas de ser. Ou nascer. Sensações viscerais, imagens da
carne68, da minha carne. Silêncio nas palavras...
lo nos interstícios dos anseios. Medo não é cuidado, longe disso. A ortografia, a sintaxe, a linguística e a semântica, tudo se desempalavrou a serviço da liberdade dos quereres. E desandei a inventar outras línguas, referentes e reverentes à própria língua em si” (JOÃO CAVALCANTI.
Disponível em:
<https://www.facebook.com/ojoaocavalcanti/posts/780190478714500>. Acesso em: 18 jul.2014).
64Primeira vértebra da coluna vertebral do corpo humano.
65“O que fica claro é que cada modo de existência é uma dobra da pele que
delineia o perfil de uma determinada figura da subjetividade” (ROLNIK, 1997, p. 02).
66De acordo com José Gil (1997, p. 170): “Sem os outros eu não teria rosto.
[Este] depende do processo de significância e de subjetivação que (...) [os] rostos dos outros induzem em mim”.
67“A lógica do sujeito, enquanto processo, seria a autopoiése, e não uma
lógica da identidade. A primeira engendra diferenças. A segunda homogeneíza. Autopoiése seria uma lógica celular, ideogramática, uma lógica das diferenças. É a lógica da forma significante” (FONSECA, 1999, p. 25).
68“Imagens do interior do corpo baseada na representação da estrutura e do
O que vivenciei naquele instante foi “o saber que permite sonhar” (FONSECA, 1999, p. 13) ou o corpo-de-
sonho: “vivência de estado de arte e/ou de risco, cujas únicas referências são o que se experimenta à flor da pele” (FONSECA, 1999, p. 13). Fonseca (1999) afirma que este saber não é intelectual. Pelo contrário, é um saber intuitivo vivido pela criança quando brinca, pelo cientista quando inventa, pelo poeta quando escreve, pelo artista quando cria, também pelo analista quando escuta e por qualquer indivíduo, como sujeito autopoético: que se autoengendra e experimenta a
continuidade de ser “a partir de uma auto-referência (sic)
construída no encontro com o outro” (1999, p. 31). Esse indivíduo desfruta então de um cotidiano mais atencioso, generoso, solidário, amoroso, sutil e criativo, cujo contato é afetivo.
Ao mergulhar no estado de arte e/ou de risco, fui deslocada para outro tipo de conhecimento que não o discursivo intelectual constituído, mas o poético, cuja memória é prospectiva, ou seja, criada ao “estar vivendo” (FONSECA, 1999, p. 130) a simultaneidade do limiar69.
Vivenciar o corpo-de-sonho naquela entrevista, naquele
encontro fez com que eu percebesse, compreendesse de modo poético, qual era o tema que permeava a presente pesquisa desde o seu início, no ano de 2011: a pele, os seus sentidos e a sua poética.
69Segundo Fonseca (1999. p. 132 – 133) o limite e o limiar são dois
conceitos relacionados ao tempo do ensaísta, crítico literário, tradutor, filósofo e sociólogo Walter Benjamin. Enquanto o primeiro “não é uma interrupção no tempo, mas o fator de sua continuidade [existente] para o tempo cronológico”, o segundo “é uma zona de passagem. Uma interrupção do tempo. (...) que cria um entremeio, um hiato, transformando o limiar em uma zona, uma espacialidade dentro da própria interrupção do tempo cronológico que, por sua vez, dá lugar a outras temporalidades. (...) O limiar é a dimensão própria de um mundo de imagens, no qual não está dada uma localização”.
Acredito que toda a história da Dos à Deux, a maneira como os diretores criam, constroem o gesto e treinam os seus corpos se dá nesse lugar, nesse espaço de afetividade. Por isso, passei a crer que, mais importante do que descrever as técnicas corporais e os exercícios utilizados por eles, seria apresentar para o leitor o modo como os diretores desenvolvem os mesmos. Assim, demonstrar o quanto a pele, os seus sentidos e a sua poética estão imbricados em cada frase, em cada atitude, em cada órgão, víscera, músculo, osso, líquido, ou seja, em cada parte do corpo, em cada gesto, em cada memória evocada e prospectiva dos diretores.
Percebi que a generosidade, a amorosidade e o respeito pelo outro, assim como a manifestação daquilo que é indizível por meio dos afetos são extremamente necessários para Curti e Ribeiro. E passei a associar a poética da Compagnie Dos à
Deux como um tear incomensurável, pois sua história mostra o quanto os diretores vivenciam a atualização do virtual, o saber poético, intuitivo, que desvela a poesia dos acontecimentos.
Foto 19 – Carol Figner, André Curti, Matias Chebel, Artur Ribeiro, Luis Melo, Luciano Siqueira, Cécile Givernet, Roberto Rio e Willemberg Domingos Peçanha após o espetáculo Irmãos de sangue (2014), no CCBB – BH. Créditos: Luciano Siqueira.
Fonte: CIE. DOS À DEUX CURTI RIBEIRO. Centro Cultural Banco do
Brasil – Belo Horizonte. 2014. Disponível em: <https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10203513154855986&set=t.1 00000944973706&type=3&theater>. Acesso em: 07 set.2014.
Apresento a seguir a evocação das primeiras imagens que eu guardo sobre esse tema da época em que comecei a estudar a Compagnie Dos à Deux, cuja interpretação se dá através da escrita poética.
3.2 SOBRE A PELE, OS SEUS SENTIDOS E A SUA