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10205546‐08‐NOT‐062  CFD analysis of cross sections

Chizzotti (2011) faz uma análise da evolução da pesquisa qualitativa, suas rupturas e transformações durante o século XX. Para tanto, cita Bodgan e Biklen82 (1994);

Erickson83 (1986), Kirk e Miller84 (1986), LeCompte, Millroy e Preissle85 (1992) e Denzin e Lincoln86 (2000). Ressaltamos a importância de apresentarmos essa trajetória, dada a sua relevância para a nossa pesquisa. O autor delimita cinco marcos importantes que se instauram desde o final do século XIX até o pós-modernismo, apresentando seus conflitos e interesses.

No primeiro marco se desenvolve um estudo comparativo entre a diversidade de sociedades e culturas em três estágios: os civilizados, os bárbaros e os primitivos. Esses estudos iniciais nos permitem realizar, hoje, porém, outras classificações de grupos sociais. O segundo marco, inicia-se na primeira metade do século XX, quando a antropologia é separada

82 BOGDAN, R. e BIKLEN, S. K. Investigação qualitativa em educação – Uma introdução à teoria e aos

métodos. Porto: Porto Editora, 1994.

83 ERICKSON, F. Qualitative methods in research on teaching. In: WITTROCK, M. C. Handbook of research on teaching. Nova York: MacMillan, 1986. p. 162 – 213.

84 KIRK, J. e MILLER, M. Reability and validity in qualitative research. Beverly Hills: Sage. University

Press. Series on qualitative research methods, vol. 1, 1986.

85 LeCOMPTE, M.; MILLROY, W. e PREISSLE, J. (Orgs.) The Handobook of qualitative research in education. San Diego: Academic Press, 1992.

86 DENZIN, N. K.; LINCOLN, Y. S. Handobook of qualitative research. 2ª ed. Thousands Oaks. CA: Sage,

da história e passa-se a estudar o modo de vida dos grupos humanos e suas relações. Concomitantemente, “o nacionalismo favorecia a recuperação do local sobre o universal, dos costumes, práticas populares e do folklore como vestígios de tempos vividos, como objetos de relevância científica” (CHIZZOTTI, 2011. p. 50). Esse pensamento, apesar de fazer alusão ao segundo marco da investigação qualitativa, tem relação direta com o tipo de pesquisa que ora apresentamos, uma vez que denota nuances de cunho cultural, como já foi tratado na fundamentação teórica deste trabalho.

O terceiro marco, ocorrido entre a Segunda Guerra Mundial e os anos de 1970, mostra a fase de ascendência da pesquisa qualitativa, quando conceitos como objetividade, validade e fidedignidade são reelaborados.

O quarto marco compreende o período entre as décadas de 1970 e 1980. Naquele momento são estudados novos temas de classe, gênero, etnia, raça e culturas. Lembremos que este quarto marco também denota traços relevantes que nos permitem associar esses temas àqueles investigados nesta pesquisa, especialmente pelo fato de, cronologicamente, coincidirem com o início dos estudos da Linguística Aplicada.

O quinto e último marco, que compreende a partir da década de 1990, segundo Chizzotti apresenta características do pós-modernismo que se opõe à particularidade tecnoinstrumental. Nesse sentido, Denzin e Lincoln (1994) ponderam que a pesquisa qualitativa enfatiza uma variedade de métodos, o que resulta numa abordagem interpretativa acerca de seu objeto de estudo. Para os autores, os pesquisadores qualitativos estudam os eventos em seu contexto natural, o que os leva a atribuir-lhes um sentido ou interpretar o fenômeno, de acordo com as significações que os informantes forneçam.

De acordo com Pires (1997/ 200887, p. 90), a pesquisa qualitativa apresenta cinco características que julgamos importante citar – com nossos devidos comentários –, dadas as particularidades desta investigação.

A primeira particularidade diz respeito à flexibilidade de adaptação que pode ocorrer durante o seu desenvolvimento, inclusive no que se refere ao objeto pesquisado. Em nosso caso particular experimentamos tal situação, uma vez que foi necessário fazermos ajustes em relação à primeira ideia de pesquisa, em que se objetivava o estudo da análise de filmes de dois países (Argentina e Uruguai), bem como sua recepção entre estudantes de Língua Espanhola, para se verificar o desenvolvimento da percepção intercultural. Precisamos, assim, adaptar nosso foco de investigação, limitando as análises para apenas um

87 A primeira edição, publicada no Canadá, data de 1997; a edição brasileira, de 2008. Para todos os efeitos,

país (Argentina) e, consequentemente, excluindo dois filmes das análises, tornando possível um foco mais direto e preciso, evitando uma perspectiva comparativa que seria extremamente complexa e desnecessária em relação aos objetivos do estudo.

O segundo elemento levantado pelos estudiosos, diz respeito à investigação envolvendo objetos complexos como as instituições sociais e os grupos sociais. O grupo social investigado é constituído por uma parte dos estudantes do curso de Tecnologia em Comunicação Institucional, participantes do Evento de Extensão Universitária “Linguagem, identidade e representação no Novo Cinema Rio-platense”.

O terceiro aspecto se relaciona ao fato de a pesquisa qualitativa combinar distintas técnicas de coleta de dados. A respeito da coleta de dados, Deslauriers e Kérisit (2008, p. 140) apontam que na pesquisa qualitativa recorre-se, geralmente, à observação participante e à entrevista. Os estudiosos complementam ainda essas duas técnicas acrescentando o uso de questionários, fotografias, documentos audiovisuais, observações em lugares públicos, histórias de vida e, por fim, análise de conteúdo. Em nosso caso particular associamos um questionário para informação de dados gerais acerca dos informantes, fichas de leitura cênica, que estes responderam antes e após a apresentação dos filmes, e uma entrevista em grupo, que pode também ser denominada grupo focal. Recordamos que esses materiais constam do apêndice deste trabalho.

O quarto ponto levantado pelos autores refere-se à capacidade desse tipo de pesquisa descrever múltiplos aspectos importantes da vida social que têm relação com a cultura e a experiência vivida. Para elucidar tal aspecto, nos remetemos à investigação acerca de cultura – que disponibilizamos na fundamentação teórica –, bem como a relação desta com as impressões fornecidas pelos informantes.

O quinto e último item apontado faz referência à proximidade desse tipo de investigação com o mundo empírico, aspecto que valoriza a exploração indutiva. Em termos gerais, é esse o fator que faz com que grande número de pesquisas no âmbito do ensino de línguas estrangeiras esteja inclinado à pesquisa qualitativa. Em nossa pesquisa, esse aspecto não poderia ser desconsiderado, uma vez que a motivação para este estudo surge da prática docente, pautada na experiência de vida da própria professora, como explicaremos mais adiante, no item em que tratamos acerca do cenário e dos participantes da pesquisa.

Deslauriers e Kérisit (2008, p. 147) ressaltam que uma característica desse tipo de investigação é o contato com o campo. Entretanto, pontuam que “(...) não basta para caracterizar a pesquisa qualitativa.” Dito isto, os autores advertem que indo a campo, o

pesquisador pode surpreender-se com questões que no início da pesquisa não haviam sido consideradas. Nesse sentido entende-se a flexibilidade de adaptação (PIRES, 2008) – característica essa muito relevante na pesquisa qualitativa.

Traçadas as particularidades acima, parece-nos importante destacar que Larsen-Freeman e Long (1994) distinguem e comparam os aspectos que fundamentam os paradigmas qualitativo e quantitativo. No entanto, destacam que essas características podem ser intercambiáveis e gerar, como resultado, uma combinação ou hibridação de metodologias. Ademais, os autores ponderam que ambos os paradigmas são complementares.

Assim, o cunho etnográfico desta investigação permitiu-nos reflexões desde o início da pesquisa. Ressaltamos que o estudo ora apresentado encerra um caráter qualitativo, consideradas as características já comentadas neste capítulo que, além de admitirem uma flexibilidade de adaptação, também consideram estudos de eventos em seu contexto natural, como ocorreu em nosso caso específico e conforme também salienta Bortoni-Ricardo (2008), no capítulo denominado As rotinas da pesquisa qualitativa, pautada nos escritos de Erickson88 (1990).